quarta-feira, março 26

Berê

O quarto é o mesmo, e amanso meus versos. Não escrevo carta alguma, tenho estado ausente ao mundo. Fumando um tanto, tragando em mim sensações de outrora. Não quero nenhuma sina, almejo um tempo de vagas idéias. Nenhum livro. Talvez um filme. Sempre canções. E lembranças, tantas delas em você. Você? Quem é? O telefone mudo. Não quero imaginar coisa alguma. Deixo um bilhete colado à geladeira, Berê chegará em instantes. "O mar me avistou pela janela, ando escrevendo versos em rastros de areia. Beijos. C!". Berê nunca entende as minhas linhas e escreve atrás das folhas a pequena lista de ingredientes que nos resta para o mês, tenho escrito exclusivamente pra Berê: palavras nulas, histórias vãs. Berê talvez nunca escutou um EU TE AMO debaixo de uma tempestade intensa, nem nunca recitou Drummond bem baixinho numa noite qualquer de uma quinta enfadonha. Berê fala bem manso e usa um lenço branco sobre os cabelos crespos. Não releio o bilhete, desligo o som e pego ligeiro alguma blusa deixada a esmo pela cama. Berê deve rir deveras de mim, Berê é feliz que só ela. O amor quando desfeito é um estrondoso caos em formato de aquarela lúdica, e Berê - minha preta querida! - mal sabe quem foi William Blake.

13 comentários:

SAMANTHA ABREU disse...

O amor é desordenado, desordeiro.
E faz mesmo, esse estrondo absurdo, desconhece poetas, desconhece rimas.

Um beijO!

alex pinheiro disse...

rs,,, Onde andará Berê!? rs
Cara, eu venho de visitas tristes na blogosfera,,, e acabei norteado a ponto de achar graça em "Berê"... Deve ser pq gosto de personagens,,, e Berê é deveras original...

Abraços e cotidianas invenções!

Angelo disse...

Saudades de passar por aqui...

Darlan disse...

Quantas Berê's existem por aí, não é mesmo? E quantas verdades em tão poucas linhas, chega a incomodar a precisão dos seus textos, são todos equações aritméticas, onde o resultado é irrevogável.

E Berê, talvez seja feliz justamente por não saber quem é William Blake nem ler Drummond, porque saber às vezes é de um peso tão grande que acaba entristecendo, e em madrugadas eu quase smepre me pergunto se seria melhor não saber.

Abraço forte.

Darlan disse...

Se que você não é muito adepto a essas coisas, mas ganhei um selo de qualidade de blog e tinha que indicar mais 5 blogs. Não tive como não indicar o seu. rs Passa lá depois pra dá uma olhada.

Abraço forte!

Carol Montone disse...

Você é tão formoso no jeito de dizer que nem sei...sempre me enfio nas tuas cenas assim de mansinho...faço parte de alguma maneira..parece dramaturgia...mas é preferível quando a dor é apenas liberdade poética né querido...desculpe as ausências de sempre...saudades...passa lá sempre só apra me deixar voando com seus comentários carinhosos..
beijo
Carol Montone

Flavinha disse...

Doce, doce Berê... tão cotidiana, tão nela, que nem se vê. Passa assim, deslizante-quase-sombra, quase-pão-de-cada-dia, nessa existência lisa de quem nasceu pra morrer... tão dela e tão doce, poesia que é Berê...

Lindo, lindo seu texto.

Beijo, beijo, beijo.

Bella disse...

que inveja de Berê que é feliz que só ela, mesmo sem nunca ter ouvido um eu te amo embaixo da chuva... e ter, mesmo assim, sua beleza que corta a gente de tão bonita. :)

Samia Mounzer disse...

nossa, estava há um tempo sem vir aqui, e vejo que perdi tanta coisa. cada vez mais densos e únicos, seus escritos. beijos

Natacha. disse...

Tentei pensar em um comentário lírico como os aí de cima mas não consegui.
Talvez eu seja um pouco Berê...

Só acho bom dizer que gostei. E que tenho também uma Berê para me ajudar a enxergar a beleza verdadeira das pessoas e do conjunto vida.

Beijinhos, adorei aqui!
Posso linkar?

Carol Montone disse...

também ando assim...sem vontade e imaginar...o sangue explode a palavra lá deno perto do coraçao, antes que ela saia pela boca ou pelos dedos...talvez pela sensação de que não adiantará dizer...
teus ditos, ao contrário, sempre me falam tanto querido..
beijosssss
saudadessss
Carol Montone

giovannacoppola disse...

Clóvis, cheguei aqui através de um link no blog do Darlan. Suas palavras são precisas e seus textos são indubitavelmente tocantes. Berê me arrepiou no final. Deixo aqui meus parabéns e a certeza de voltar mais vezes. Um abraço!

Poesia! disse...

bom dia!
gosto muito do sua pagina!
sou adm. do blog “o fogo anda comigo”(thefirewalkswithme.blogspot.com).
o blog tem como ideal um SARAU AMPLIFICADO onde TODOS divulgam suas ideias e, o principal, poemas.
gostaria de ser um parceiro seu!
OBRIGADO!
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