sábado, agosto 15

Restos de cigarros no asfalto bruto

Ainda posso rememorar, e assim descobrir cada astúcia e o desastre, todas as minúcias de um dia abafado, sem enredo ou turva trama, somente o solavanco dos passos sorrateiros, doces aromas embevecidos de mentiras sutis, disformes cores sobre a pele pálida, os lábios pintados meticulosamente, manchando colarinhos e desalinhando certezas, como num descompassar de dúbias aventuras, dois adolescentes inebriados com a fuga e a liberdade, expondo seus modos mais viris e as feridas de outrora, instintos cálidos, transas no antigo porão, poeiras cósmicas a desatinar fantasias, estrelas contadas nos dedos, desenhadas num parco papel, sem espaço para os versos íntimos, o sentido se fez contrário, difusas imagens, cores entrelaçadas, o quadro mais belo dos quadros, comprado em fartas parcelas, para emoldurar o silêncio e a noite, e esta falta de sono dialogando cada traço, a canção distraída, o marasmo dos mares e as ondas que retornam e explodem, invadindo pormenores, dissolvendo cartas presas em garrafas de cobre, repletas de ânsias e vãos devaneios. Os seios da sereia, ilusões postas à prova, promessas bêbadas de amor, promessas sóbrias de amores embriagados, destinos ofegantes, restos de cigarros no asfalto bruto. Pares? Palavra distinta e previsível, quem caminha lado a lado ruma um mesmíssimo percurso. Novidades num jornal popular, notas enfadonhas de um célebre estúpido. Frenesi de encantamentos? Entregas prontamente vívidas, junção de certeiros signos, mapas astrológicos, lógicas vendidas a prazo, num torpe ensinamento de encaixes perfeitos e cenas de tevê, requintados diálogos, notáveis constatações. Os romances dão conta da exata textura, a concepção de um beijo acalorado, idealizações esquizóides e acadêmicas, católicos princípios, salivas e pirocas confundem-se à culpa e ao dissabor, velhos fragmentos de inúteis poemas, poetas nasceram para morrer de asma e nada mais, artistas se drogam por entre as coxias, a história de um lorde abastado de temores, confunde-se aos escassos cafés requentados das tardes de quinta. Roteiros não chegam ao fim, amarguram sílabas em entrelinhas, o cinema é um show privê, gélido e estranho, não me reconheço, centenas de mãos perdidas em zíperes enfadonhos, toda a finalidade é dissimulada, risos frouxos ao final do tórrido ato, e o término das palmas apenas iniciam a jornada dos dias obscuros, cortinas escondem o sol, colóquios mascaram evidencias, a sombra arredia perdida entre os corredores, os olhares esquivos, a resposta inexata. Sobre o fim o que resta é o vácuo, a lacuna partida, frestas entreabertas. O final é o anti-poético, é a soma das sobras, aéreo, fantasioso, amanhãs desenganados, o vestido esquecido, é o toque longínquo, a destreza dos ratos, o sórdido entendimento, a fragilidade. Não há prosa eminente que aponte o tom exato, a contradição de firmes veracidades, madrugadas a fio, livros nunca lidos alastrando retóricas desprezíveis, nada mais importante e digno que o rosto lavado e a nova caminhada, luzes abertas no semáforo, rumos incertos na contramão. Nada além do fim se faz anunciado ou requer elegâncias em usuais concepções. A trêmula voz destemida, o impulso invariável, o cheiro da cinza e o preço do cigarro, o barulho da porta, as chaves esquecidas. A história contada a cada tortuoso passo, já não me cabem suas tramas, nem mesmo os telefonemas, habituei-me ao equivoco. O celular tocou incessantemente às 2:40 e era apenas engano, vulgares colóquios de avassaladoras crônicas, coincidências já desgastadas, assustadoramente usuais, nomes desconhecidos, cotidianos fatos, corpos entregues ao frio, um conhaque ou um gim, algo que inebrie, qualquer frase maldita e insana, algum grito que se faça inteiro, claro ópio. Este quadro ao centro da sala, qual fosse seu sarcasmo, suas culpas e vínculos, nada transparecido ou quiçá transtornado. Sua presença distinta, seu sarro nas esquinas, a velha mobília e os tropeços. Já não mais possuo a verve dos seus tantos passos, os que ditam os gestos, a lamúria e o desprezo. Não anseio costurar desfechos equivocados, eu mal sei de você, meu inicio é o vago jantar que preparo aos frangalhos, os temperos apimentados e alucinógenos, o seu fim pode ser inventado, desvairado de instintos, incerto e difuso. Os seus passos que ditam seu filme retrô, ar de afetuosa donzela, almodóvar-blue tão repleto de meias-verdades. Quanto a mim alimento-me de singelezas, minhas palavras se bastam no vácuo, escrevo para saciar urgências, páginas lançadas do oitavo andar, irregulares e torpes, inexatas na memória de um passante que, igualmente dilacerado, entre pontos e vírgulas e consternações, desvenda sutilezas em minúcias e espasmos, acolhendo sentidos que já não nos cabem.

2 comentários:

C. S. Muhammad disse...

Que bom que tem urgências e que bom que as sacia com as palavras que deixaram-me de boca seca.

Camila Lemos disse...

Nossa,bichinho,quase nem respirei.

Saudade demais de te ver aqui...

:)

Um beijo grande.