segunda-feira, março 7

Embora

Não te prometo amor. Não almejo lisuras, salivas embevecidas de um conhaque, um gim, um anti-ácido, uma porra. Te olho enquanto você fuma assim deitado de lado na cama, ouvindo Madeleine como quem adentra num sem fundo de destemperanças, tenho muito a fazer, meu amor, muito a caminhar, depois parar um pouco, tirar as pedras dos sapatos, então seguir me equilibrando entre os abismos, lembrarei, lembrarás, recordarei dos fatos, das tramas, das transas, dos tapas. Mas hei de ir, eu sei, você deseja um tempo breve, uma semana, duas, talvez suporte três, embora o meu descompassar de dias não lhe caberá no calendário roto demasiadamente descontrolado, como não coube meus descaminhos, meu riso frouxo, a barba por fazer, a blusa com o escrito “Amy way of life”, ok meu bem, deixo ela pra você, a Amy, a barba por fazer, o riso frouxo, os descaminhos, sigo como quem sacia a fome devorando a carne crua e quente de um besouro, um marimbondo, deixando aquele ranço rascante e turvo na garganta, passará este vácuo, livrará estes sustos, me permito ainda algum delírio, um anseio, uma lástima, parto sem o coração, este dos apaixonados desenhado em vermelho entrecortado por flechas, resta-me um músculo, paredes, artérias, pouco partido, claro, partindo, um tanto perdido, confesso, mas não posso permitir desmoronar o meu Farol, cuide, cuide sim, cuide muito, por favor, da tosse, dos surtos, das plantas, dos quadros dadaístas na parede, dos discos emblemáticos que, convenhamos, você os amou mais que a mim, é agora, exatamente, assim meio ao meio, meio a esmo, partirei rumo ao meu abrigo, cá dentro, meu arpoador, um inferno blue, quiçá, paraíso cinza, com flores resistindo à crueza do asfalto e reinando frígidas pelas frestas que lhes restam. Bambo num talvez, num jamais, em nunca, nunca mais voltar. Porque me basta este baque impetuoso de fúria e vendaval que fere os lábios. Oscilo o fim, o desfecho, o término brutal. É este, este aqui, o mórbido adeus. O trôpego. O sórdido, mítico. Adeus-Adeus. Até o romper da aurora inatingível pincelando o horizonte, lá de onde você me olha, encharcando os pés no mar. Deixo a chave embaixo do xaxim, e uma xicara de chá posta sobre a mesa juntando-se a uns versos que se esmeram em desespero e despedida. Em tristeza desmedida, só para rimar com sutileza. Uma esperança amarga. Um corromper de brados. Não volto, não rogo, não choro. Não agora. Enquanto te vejo emaranhado, encolhido em cócoras, disfarçando a loucura. Adeus. Adeus, você. Mas não te prometo, amor.

4 comentários:

Darlan disse...

Lindo isso. Triste por ser adeus, intensificado nas palavras tão exatas.

Fanzine Episódio Cultural disse...

GOSTARIA DE DIVULGAR SEUS POEMAS, ARTIGOS, CONTOS, BIOGRAFIAS, ETC, NO MEU FANZINE EPISÓDIO CULTURAL (Edição impessa)?

Laysla F. disse...

A ausência de promessa quanto a deixar-se esquecer é o mais bonito.

(Encontrei seu espaço pelo blog do Darlan, logo acima. Gostei muito!)

Karla Thayse disse...

Encantada...