quinta-feira, maio 26

Das idas de Santiago

Fragmento
Uivo e ouvo o tempo
Madrugada
Terapia
É lavar louça na pia
Despojada
Disporia
Num arranha-céu
Arranharia
Mira
Te ligo
Te vejo
Dois ou três
Ansejos
Milhares de vendavais
Teço
Do pôr do sol eu amanheço
Aqui entre nós, presságios
Debaixo dos prós,  arpejos
São mil relevâncias mesmo
Das idas de Santiago

sexta-feira, maio 20

Lampejo e sorte

Intrépido
Ligeiro
Desfazendo receios
Sem freio
E voraz
No suntuoso lume
Que dispara em feixes
E cada vez mais
As malas prontas
Peito aberto
De certo
Será climax
Impero sóis
Eu quero bons presságios
E ventos sublimes

O reconvexo
A jura
O senhor do bomfim
Apreço ébrio
As fulguracoes de um jardim
Nuances pares
As notas de um bandolim
Lampejo e sorte
Os Deuses que estão aqui

terça-feira, maio 17

A silaba

A silaba astuta
A silaba beijo
A silaba turva
Prevejo
A silaba solar
A silaba mar
A silaba soar
No ar
A silaba moura
A silaba louca
A silaba branda
A silaba dança
A silaba espasmo
A silaba espaço
A silaba fardo
A silaba sábado
A silaba voraz
A silaba paz
A silaba chuva
A silaba rua
A silaba negra
A silaba seja
A silaba veja
A silaba incita
A silaba
A silaba
A silaba

domingo, maio 15

Trilha fincada

Madrugada. E os lábaros das foices que aniquilavam os tormentos cessaram num ímpeto. Já não se ouviam as vespas, e os minutos soaram em imensidões de estremecimentos, tal como o corpo mergulhado em vigor de tal prazer sugerido. Na fulguração das cismas. Estas intempéries do acaso desfolhando impressões. Deste outono orvalhado, tal qual seria o imo desta estação. Do amor fez-se a colina. Dos dias passados, o alcance e a trilha fincada. Nesta busca que insulta a razão. Os Deuses são chamados por nomes de rios. Trovejam e inundam os rios. Os Deuses são chamados. Pulsam. Afloram.  Destinam-se. Transbordam. A massa é pura solidez de ferro ou louça. Divina é a sutileza. Esta que não apruma os jeitos.  

O sexo

Entre rimas calidas
Brados causticos
Berros épicos
E suores epiléticos
Deixemos urgir, surgir, fluir
O sexo

sábado, maio 14

O baile dos sete mares

Um conhaque
Um trago
As suas retinas
Marasmos
Eu fumo um cigarro
Outros vários 
Algumas meninas
Me invadem 
De certo embriagado
Um samba que toca no carro
O mesmo sentido
Desvario
Respostas
Que as horas me trazem
De novo um novo conhaque
Lembrança a toa
Um embate
Teu corpo
Teu dorso
Tua margem
As fulgurações
Um alarde
O samba compassa a voltagem
Delírio
A pele que arde
De novo e de novo um conhaque
Os Deuses convidam pro baile
Dos sete mares
Que seja miragem
Ou arte

Ensaio sobre o mar de abril rascante

Caro leitor
Destes de almanaque
Tratados, ensaios
Os que veneram romances
Com poesia entra em transe
Se tem novela é seu lance
Carissimo
A rua até poderia rumar um mar de abril rascante a rua até poderia aprumar um mar de abril rascante a rua leitor poderia emoldurar um mar de abril preciso a rua até poderia enjeitar um bar de abril rascante a rua até poderia aprumar um bar de abril rascante um bar de abril preciso um mar de azul fulgurante a rua até poderia rumar um mar de azul rascante um abril delirante a rua até poderia rumar um mar defronte a rua até poderia entornar um bar de abril dançante a rua até poderia rumar um mar de abril rascante.
E seja o quanto antes.

Benegrip

Texto de 2012

Porque te encontrar foi me rever num foco que ampliava as beiras dos meus horizontes, deixando transparecer o que estava além do presumido, pincelando de arvorecer minhas tardes de terça, e remontando o castelo de lego em multicores, fixando a princesa no alto da torre. Foi emancipar terrenos antes habitados por ratos andantes de pés encardidos, e fulgurar desejos de um filme abstrato com trilha do Otto. Emoldurando as vestes. Me vestindo de astúcias, dúzias delas. Foi como falar comigo, olhando as minhas retinas por sete minutos. E assim me ouvir cantando “Tatuagem” ou “Wake up Alone” num bar vazio numa noite cinza, quando os desamores rebelaram-se turvos, e o meu repertório validava as somas. Foi tudo ao contrário, como planejado. Sem forma de poema. Prosa. Sem maneiras ou modos. Samba. Suor. Vento no rosto. Itinerários. Coisas simples e sem adereços, que nem cabem por sobre linhas. E não impõem epílogos, nem almejam lirismos. Flui. Adiciona. Converge. Explode. Já não tenho tempo pra desfechos. Prosseguir é tudo que me transborda. Eu danço embaixo da chuva. Ileso. Você me traz benegrip e eu curo. 

sexta-feira, maio 13

Bacon e perna

Fragmento
Tua perna no tempo
Quando vejo de longe
Pareceu-me bacon

Lentamente
Fito, fixo, entendo
Cada qual com sua tara
Cada um com sua era
Mas o meu remelexo
Seja bacon e perna

Rimas tolas

No salto
Um passo
Deixa o lastro
Descalço
Incauto
No torpor
Refaço
A linha
O traço
Bebo gim
Quebro pratos
E me mato de rir

quinta-feira, maio 12

Todo mundo

Todo mundo possui os seus medos
De escuro, madrugada
Todo mundo finge que não sabe de nada
Todo mundo espera meio em cima do muro
Todo mundo
Todo mundo

Todo mundo alcança, mas não sabe o que
Todo mundo é cantor de karaokê
Todo mundo manda e todo mundo finge obedecer
Todo mundo sírio
Todo mundo sério
Todo mundo loiro
Todo mundo hetero
Todo mundo carnavalizando
Fora dos seus carnavais
Todo mundo estranho
Todo mundo trôpego
Todo mundo tamanho
Todo mundo caustico
Todo mundo infante
Todo mundo quer beber refrigerante
Aos sábados
Todo mundo de Caetano
E de Ciclano
Todo mundo é farto
Copo americano
Pra medir o fubá do bobó
Todo mundo novo para sempre
Todo mundo louco às vezes
Todo mundo vendo novela das oito
Todo mundo odeia ser como todo mundo junto
Todo mundo já previu o fim do mundo

Todo mundo já quis ser senador
Todo mundo odeia política
Todo mundo acha que é doutor
Todo mundo fez recuperação em física

Todo mundo sonha com o amor
Todo mundo manda alguém embora
Todo mundo surfa no Arpoador
Todo mundo quer e quer agora

quarta-feira, abril 11

Pois se

Chovia
E assim
Como nos dias destes
Gotículas choravam sobre os fios
Chorava o dia
Inundado de noites
Pulsando agonia
Revivia o sonho
Da quimera de outrem
Na ventura do signo
Ascendendo energias
Primas
Secundárias das trilhas
Que passamos por cima
Da torrente e porque não...
Da vida?
Que, estremecida,
Fulgurou o momento
Do tormento, a temida
Rancor, tédio, pneumonia
Transmutou, pois se viva
Sim, amanheceria
(chovia
Chovia
Chovia
Chovia.)

domingo, abril 1

06:29 AM

Saciada
A mente
Indaga
Crente
Que seremos
Somente a semente
E não a razão
Risonha, A vida
Partida
Urgida
Criada e querida
Vivida
Que um dia, vinda
Ainda ainda
Batendo firme
Se sim se não
Redemoinho
Vento, caminho
Quase tocando
A exatidão.

quinta-feira, março 29

Pastor de ovelhas negras

Era canção que soava. Canção de chuva. Emaranhada, torpe, viva, morrendo a lama seca do asfalto corroído por passos insones. A vida, esta vida, a sua, a minha existência emana, flui, flora de matos distintos, a malícia das cartas, te amo te amo te amo te amo ass: foda-se. Ainda trago este ranço, e o sorriso manso rimando com ódio. Decido: Parto. Nascido o temporal, temperatura amena, a do vinho, cor de sangue branco, disformes tramas, tantas, tamanhas dissimulações, verdades feito feridas expostas, brotando pus, nojo, ojeriza, vômito, porra, PORRA! Vagante da lua, durmo em cima do telhado de casa, à espera do sol, este casaco nu, verossímil, fotógrafo. E as canções? As cançãozinhas? Os cães latindo, aperte o REC produtor, mosca na sopa, me chama de chão, pisa, sou seu alicerce, após cuspir em seu olhar que chora, meu cuspe, minha saliva, sua lágrima sou eu e vice-verso que lhe indica: A BUSCA É PERTO, ALI, EU FUI, DENTRO. Assombrosos pesares, família e caos, família e domingos, beijo de mãe, de puta, travesti, viado, frei, pastor de ovelhas negras, fãs de Amy. Não choverá, não mais. E quanto ao cais? A espera? Brusca?Busca?Rimas? Crônica?Poema?PORRA!PORRA NENHUMA! Um café, um cigarro, “nem palavras conseguem mais amenizar”, escute-se, vou te deixar quieto aí, assim ó: .......................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................pairou....tédio....saudade....ciúmes....cinismos...............pairou......o tempo, choveu, nasceu, brotou, exalou flores, murcharam, reguei, floresceram, morreram, plantei novas margaridas, amarelas, heróicas, frágeis porém....amavéis....pairou.....sim....a astucia, medo, coragem, vício, vicissitude, porradas, tapinhas, breus, postes acesos, manhãs nubladas de um verão infernal, pairou...porra...pairou, sim...isto, respire, mais uma vez, assim ó: .......................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................pairou, sentiu? Mesmo? Como? Sim, bastante. Fumo, bebo, fumo mais e mais e mais e bebo um tantinho.......estou ansioso, caramba, ansioso, e o desfecho? Onde? Cuma? Pairou......o grito inaudível...assim ó: AAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH, assim mesmo. Pairou, pára vai, pairou aqui, a cisma, a crista da onda, a bula preta, violão de aço, voz de nylon, nylon grosso, porém fino, como aqueles que inala e flui percebendo a fumaça mesclando-se à neblina, imunda dos suores dos amantes madrugais, em camas sujas de motéis imundos. Pairou, porra...pairou....a febre, a dor, a posse, a capa do livro mais besta, tipo mulher besta com bunda besta a nos abestar, pairou....pairou...repetindo, repetindo, repetindo...até que não entendam, não irão entender, sou imbecil oras, pois incompreensível, que merda! Merda! Não entenderão. Pairou, pairou, pairou, pairou porra. PORRA NENHUMA!

Alívio,
E aos seus.

Comigo,
CS

quinta-feira, janeiro 19

ÂMAGO

"ÂMAGO", MEU PRIMEIRO ROMANCE, JÁ ESTÁ DISPONÍVEL PRA COMPRA NO SITE DA EDITORA MULTIFOCO E EM ALGUMAS LIVRARIAS. ADENTRE, MOVA, ENCHA A TAÇA, O COPO, O CORPO, A METÁFORA ENFADONHA, AMOR IMPETUOSO, FERVOR LÍVIDO, COBERTOR, FOLHEIE RESPONDENDO, QUE EU TE EXPLICO PERGUNTANDO. COM QUANTOS 'EU TE AMO' SE COMPÕEM UM VAGO FOLHETIM?


GRATO! FLUINDO! IMPACTADO! E NATURAL...
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IMPRENSA



VARAL FULT: O multitalento de Clóvis Struchel




http://varalfult.blogspot.com/2011/10/o-multitalento-de-clovis-struchel.html

quarta-feira, novembro 2

Umbigos

Ainda penso. E as idéias que antes divagavam entre o ócio e a poeira
das palavras, agora desembocam neste sobressaltar de dois ou três
segundos em que os olhos se encontram e se perdem, se pedem, e então
rejeitam qualquer migalha de certeza sobreposta de passados e futuros
que, em você, confundem-se lineares aos meus fragmentos de presságio.
Como quando te quero sobressaltadamente, e logo te extirpo do meu
rosto, cabelos, mãos – já não sabem onde tocar -, lábios, braços,
jantares e feriados. Porque também focar, e já não ser somente o foco
central que se permite acenar e sorrir de banalidades assusta e
reverbera esta minha ânsia de jamais querer o seu casulo, seu abrigo,
sua casa de palha, madeira, cimento. Então assopro, até passar, passa.
Não acho natural, conveniente, palpável, me embrenhar em seu pescoço
desvendando suas montanhas, estradas, vales escondidos, naufrágios
póstumos, não reconheço as siglas, senhas, fendas, e em mim impera
uma frieza dissoluta que ora alterna em calor viril e logo dissipa,
arrediamente, reinando o inverno da Islândia nos meus desvarios de
lord inglês, que mal te percebeu num primeiro, segundo, quarto
momento, e não perceberia não fosse o seu ímpeto de sempre enxergar
nitidamente o que está além destas retinas fatigadas de tantos outros
que, juntos, não formam sequer um mosaico abstrato nas suas tentativas
de supremacia, rente aos meus oásis, lambendo de sede a minha língua,
fulgurando as tentativas de escape, o que não estava ciente é a
vitalidade da minha presença em seus traços, cores, formas,
inspiração. Como se a musa das minhas melodias construísse
visceralmente cada aresta meticulosa desta tela íngreme e revestida de
sutilezas que você esboça com a minúcia de artista besta que confunde
aplauso com companhia e amor com repúdio. Porque ter em tese o mundo
aos teus pés te impossibilita de estar nas mãos de alguém, e a gente
entende dessas coisas de lapidações, veemências, brados, cismas,
raridades. Porque comum é o amor, corriqueiro, arcaico. Amo, talvez. O
seu umbigo e o meu. Talvez, sim, sejamos absolvidos por ousar o
simples. O próximo. O possível. Fomos gerados por infinitudes, e ainda
não sabemos onde terminam os nós e desabrocham os Eus. Onde se
encerram os sustos e recomeçam as tramas. Embevecidas de gim, café,
conhaque, aspirina. Calendários, calores, carícias, inícios. Como
quando o mapa-mundi do meu corpo te transforma em universos e planetas
que só eu sei o nome. Caminhamos em outras luas. Outros mistérios.
Enquanto seus abismos amortecem os meus passos. E as
minhas fugas, ironicamente, confortam suas faltas.

quarta-feira, outubro 5

Me dá um cigarro

Deu a última tragada, lançou a binga como num arremesso frenético o qual se pretende fazer uma cesta de três pontos, aquela que salvaria toda uma partida visceral e ofegante, em seus últimos instantes de bola quicando, pegou do bolso o maço já amarrotado e roto e, sem encarar por mais que dois segundos aquela face sórdida de rato-humano à sua frente, ofertou o pedido sem mesmo esboçar qualquer fisionomia contendo sequer um mínimo de animosidade e logo adiantou o ritmo demasiado de seu andar, puto dentro das calças, extremamente puto, muitíssimo puto, puto pra caralho, envolto de pensamentos que emergiam no mesmo abismo gélido e aborrecido que havia se deparado em suas tantas buscas labirínticas e mordazes, bêbadas, turvas, ziguezagueando por demais esquizofrênico, feito um mosquito que, após sugar o sangue quente de uma coxa robusta, sofre um tapa incerto, embora impactante, e alça um vôo desmedido e irregular, sentindo a dor terrível nas mesmas patas imundas que agora limpam o sangue dos cantos da boca, quase sorridente, em sua ínfima importância de ser só e tão somente o alvo preferido de uma guerrilha munida de sprays e pastilhas, prontas para mandar aqueles lixos alados para o inferno, “que mordam o diabo!”, mas eu dizia do moleque que pediu cigarro irritando ainda mais o juízo já efervescente de nosso herói sem mocinha, não pelo cigarro, foda-se o cigarro, mas pela chateação grotesca de ser parado no meio da rua e imediatamente desviado de suas conclusões e disparates mais cretinos e insanos. Desceu as escadarias do metrô, universitários barbudos e punheteiros, garotas com roupas que mais lembravam uma nítida regressão a uma infância decadente, muito pouco, ou basicamente nada construtiva, alguns trabalhadores engravatados com a face rude, contendo alarmantes olheiras, de quem simplesmente degusta uma realidade com cheiro de merda e pinho-sol, se ajeita num canto mais destacado, como se fosse possível em plena 18 hs na estação Cinelândia, uma bossa-nova enfadonhamente careta e regrada ressoa das caixas laterais, cessando toda a malandragem e descompromisso dos reais motivadores desta manifestação musical, e os dizeres redigidos em letras garrafais transmitidos nas tevês de plasma, em português e inglês, enfatizando o espírito “maravilha” dos cariocas e convidando cinicamente os turistas a embarcar neste movimento, quando o que se percebia ao redor era um amontoado de ações fugidias e vorazes, abstrai estes pormenores até escutar o ferro dos trilhos estremecer e logo avistar o transporte se aproximando, entra sem olhar para os lados e tenta se acomodar com tamanhos olhares que mutuamente se revezam em sua direção, já que dentro do metrô não há mesmo um menu extenso de possibilidades no que diz respeito ao que será olhado, o jeito então é cada um se encarar sutilmente ou almejar se distrair com a escuridão atordoante por detrás dos vidros, segue contando mentalmente o número de estações, já sabendo de cor o que dirá a voz fantasmagórica da locutora, chega a sua vez, “Próxima estação, General Osório, desça à direita”, sai esbaforido daquele compartimento, sobe as escadas rolantes observando, por rotina, os quadros e mosaicos que decoram o ambiente, enfim chega à calçada e então caminha pensativo pelas ruas de Ipanema, já elaborando todo o texto que será dito para desmistificar todo o caos, pensa inclusive no tom mais preciso para se iniciar a primeira frase, a entonação ideal que virá a seguir e assim por diante, tudo minuciosamente planejado e arquitetado pelo herói sem mocinha, enraizando desmedidamente furor e agonia em seu peito dilacerado da falta latente e crua das coisas mais simplórias e habituais, o café recém passado e o jornal sobre a mesa, o baticum dos saltos dela sobre o chão da sala, o desconcerto de ambos ao ter que escolher produtos que jamais usaram nas compras do mês, a revista de moda que ela lia o fazendo gargalhar de suas fisionomias deslumbradas, o romance de Sacheri que compartilhavam nas tardes de sábado, os tênis e meias que ele deixava relapsamente sobre o tapete do banheiro, a sua pinta na bochecha que ela adorava beijar e agora habita solitária e nostálgica em sua face pálida e descabida.

- Ô prayboy! Erva, cocaína e crack. Erva de 10 e 25. Cocaína de 30. Crack de 5. O crack tá “envolvente”, saca de “envolvente”, né mermão? Tá “envolvente” pra caralho, pray!

Ele faz que não com a cabeça e continua a sua caminhada, escutando a seguir a mesma chamada do aprendiz de traficante para outro transeunte.

- Ô prayboy! Erva, cocaína e crack. Erva de 10 e 25. Cocaína de 30. Crack de 5. O crack tá “envolvente”, saca de “envolvente”, né mermão? Tá “envolvente” pra caralho, pray!

Dessa vez o trafica teve mais sorte, o “pray” do momento resolveu fazer compras no mercadinho, e passou apressadamente por ele cheirando a trouxa de maconha para definir a qualidade do produto, até sumir completamente de sua visão dobrando uma próxima esquina. O herói sem mocinha atravessa o sinal já sentindo o baque incessante e impetuoso bombeando seus músculos e artérias, rumando a direção da praia, logo avista o seu prédio, agora dela, cumprimenta uns vizinhos que passeiam com os cachorros, vizinhos estes agora dela, entra rispidamente no edifício, agora dela, e faz uma piada infame sobre o último jogo do Flamengo com o porteiro, agora dela. Abre a porta do elevador, aperta o botão número 7, e fica alternando entre se observar no grande espelho ou se perceber registrado pela câmera acima de sua cabeça, bobagens com o intuito de esmaecer o conjunto de reverberações ensurdecedoras que lhes cabe. Espirra três ou quatro vezes, enumera respostas a serem ditas de imediato, sem deixar restar qualquer instante de desconfiança, sombreia uma maneira particularmente peculiar de direcionar o seu olhar quando a avistar vestindo uma blusa velha, grande, com o desenho do Mickey à frente, e seus cabelos deliciosamente presos num coque, enfatizando ainda mais as formas delicadas de seu rosto, a sua face fingindo surpresa, enquanto lhe diz numa frieza também calculada que já está terminando de pintar as unhas dos pés, desnudos e salientes bem ali próximo aos seus lábios que anseiam lambê-los, e que assim que der a última pincelada irá passar um café fresquinho, quando ele dirá que não precisa, que ele mesmo pode passar o café e que ela pode, isso ele dirá obviamente irônico, continuar a sua experimentação acerca dos desfrutes aborígenes de colorir o próprio corpo, ela responderá prontamente, retirando o palito que segura com a boca, que tira o excesso de esmalte nos cantos das unhas, já que ambas as mãos estão ocupadas entre pincel, frasco, algodão e acetona, que nunca ouviu falar disso e que ele não tem consistência real e relevante do que acabou de citar, ele prontamente irá dizer que leu no Google, e ela cairá em gargalhadas, deixando o pincel cair para alivio dele, dizendo que o Google não possui fontes realmente plausíveis e que qualquer filho da puta pode criar um site e dizer, por exemplo, que possui o manual secreto que acarreta no modelo de conduta de um casamento exemplar do tipo que o marido, em nenhuma hipótese, transaria em cima da mesa do escritório com a putinha da secretária que mal fez dezoito anos, o que fará com que sua face exploda num fogo transparentemente visível e o deixe consternado buscando qualquer explicação notória, que faça um mínimo de sentido, excluindo imediatamente todas as possibilidades de respostas e pensamentos os quais ele já vem elaborando a dias, incansavelmente e incessantemente. O elevador pára no quinto andar, as portas se abrem, uma bichinha com reflexos nos cabelos lhe pergunta, mais feminina que a sua sobrinha enquanto brinca de boneca, pondo os braços dentro do elevador para fazer com que, propositalmente, ele não prossiga.

- Tá descendo?

O herói sem mocinha indica com os dedos que está subindo, a bichinha ainda faz mais algumas retaliações sobre o elevador até que finalmente deixa ele seguir o seu destino, o indicador digital prediz sexto andar, respira fundo, sétimo andar, chegou o momento de então desfazer todas as atrocidades que pairam nas entranhas já abarrotadas de cismas, neuroses, mágoas, olhos marejados, fragmentos de um passado onde juntos esboçaram planos e idealizações, e andaram com ar de casal vinte pela orla, é o momento de desfazer qualquer insulto e despudor da cena catastrófica o qual foi surpreendido por ela, a hora de cessar esta lacuna densa onde habita o inverno da Islândia, caminha demasiado pelo corredor, reconhecendo-se em cada parte mais minúscula daquele caminho, até chegar frente à sua porta, agora dela, que escutará o barulho das chaves do herói sem mocinha, como em todas as noites em que viveram ali, e fatalmente irá dizer lá de dentro que o jantar está quase pronto e se ele sabe onde pôs as taças que sua mãe trouxe de Curitiba, hoje não disse coisa alguma, ele já esperava, reformula olhando para a porta todas as frases de impacto que almeja dizê-la, abre cautelosamente, em passos curtos, todas as lâmpadas apagadas, “ela deve estar dormindo”, acende a luz da sala num rompante de nervosismo e desespero, seu olhar confunde-se entre o pânico e a desgraça, não há ninguém ali, sendo mais exato, claro, é o que vocês esperam, não, não há nada ali, mobílias, luminária, tevê, quadros, bar, chinelos, fios de cabelo pelo chão, cheiro de café, não há nada, o que ali habita é um cheiro de ócio, de tempo parado, de instantes corrosivos e parcos, o apartamento lhe parece ter envelhecido algumas décadas, o seu corpo se esmera para não tombar neste ambiente inóspito e lúgubre, o herói sem mocinha insiste em caminhar pela sala, depois até a cozinha, se impressiona porque nestes momentos de tormenta é tomado por uma calma quase dadaísta, fica anestesiado, ao ponto de entrar no banheiro e fazer um xixi, pensa, repensa, transpõe as mais variadas lógicas e os mais mórbidos sensos, quanta aberração, quanto surto, e estas entrelinhas dando margem à esta infinita variação metafórica, qual o sentido, a coerência, o porquê. Ou ela esperava o primeiro vacilo realmente feroz do herói sem mocinha para simplesmente dar no pé? Não, ela não esperava. Ela o amava, ela o disse que o amava, várias vezes, muitas vezes, de todas as maneiras. Fica paralisado até sentir um misto de soluços e gargalhas, procura um sofá, não há mais sofá ali, lembra-se, e continua enlouquecendo nesta conseqüência de choro e riso nada eloqüente. Vai fumar na janela, um, dois, três cigarros, sem café. Porra, sem ela e sem café. Quanto desespero! Quanta abstinência! Ele ainda não entrou no quarto, será por demais forte pra ele adentrar no local onde muitas vezes se amaram, e disseram-se coisas deles, tão deles que não me cabem trazer à tona, tampouco cabem mais neste espaço oco onde a ressonância da voz trêmula não responde com o mesmo eco, parece dizer “Tenha calma. Ou não tenha calma. Não importa. O fato é que você já não tem ela, herói sem mocinha. Então rezar um terço ou socar a parede só resultará na ignorância eminente de quem seca gelo para resolver uma equação de álgebra. Portanto, soque o terço e reze a parede. Ou então, vá comer de novo a putinha! Ou pedir cigarro na rua, ou vender crack de 5, ou dar a bunda embaixo da bandeira, otário!”, a porta do quarto ainda está fechada, ele a abre laconicamente, não a vê deitada na cama – imaginária - assistindo a novela das sete, bocejante e frágil, linda assim sem maquiagem, linda assim sem colar de pérolas, linda só de blusão e calcinha, sua. Avista de imediato o seu violão num canto enfadonho, abaixo do instrumento, encontra um papel dobrado, meticulosamente dobrado, cuidadosamente dobrado, senta ligeiro no chão, desdobra ágil o papel, é ela, é a letra dela, cara, veja, é um bilhete dela, mais valioso que todas as mobílias e fios de cabelo pelo chão, um bilhete dela, pra ele.

“As feridas em carne viva. Ponho merthiolate, arde tanto, eu sopro, sopro e sopro de novo. Até passar, não passa. Não tenho mágoa, não tenho ódio, tampouco almejo vingança, nem. Me perguntam de você, digo que não sei, então se espantam em demasia e eu quase enlouqueço. Nunca perguntam de mim, porque caso perguntarem, direi que não sei também. Iriam tentar me internar, talvez, ou me indicarem um cruzeiro, uma vodka, um marido. Eles teimam em insistir numa fisionomia áspera e decisiva, como quem sabe realmente o que fazer quando acaba a luz e não há ninguém em casa para dividir as suas faltas. E, sabe, tem me faltado tudo. Inclusive você. Quanta ironia! Pra me fazer curativos e um chá de pitanga que cure esta gripe, adquirida, claro, pela baixa imunidade que você me causou. Você é o culpado, é também um canalha, um pervertido, é portanto, homem e, sinceramente, não há mesmo mutações nesta espécie que faça, de fato, diferenciar nitidamente um do outro. Eu sou outra. Você é outro. Será exatamente isso? Acho que não, não mesmo. Eu acho um monte de coisas, seus óculos, suas meias, seus livros de cifras, suas revistas velhas, minha saudade, meu amor doído, este que necessita de um antipirético, um antialérgico, um antigripal, um antes. Antes daquilo. Antes disso, destas feridas, destes abismos. Antes das 22, te espero aqui, Rua Assis n° 18, ainda estou arrumando toda a bagunça, preciso de alguém que ponha os quadros, as cortinas e troque a lâmpada do quarto. Preciso de alguém que sorria dos meus trejeitos, que implique com os meus barulhos de manhã e que me faça crescer até quando me encontro emaranhada de tristezas que não cabem neste meu coração carnavalesco, acalorado, exaltado de sentimentos que transbordam. Você é um filho da puta! E eu? Eu sou tua.”

quarta-feira, junho 29

No cimento

A tormenta aproximando-se em passos largos encobrindo o horizonte, vejo-te longe, ainda mais que a tormenta, bem mais, além, ali ao lado, ouvindo Aretha Franklin entre diálogos surdos, não ouço, não digo também, fumo um cigarro na janela fingindo enxergar algum ponto, sem nó nem nós, estas metáforas cafonas emoldurando as vestes, os cadarços sujos, o sorriso assim de lado, com a graciosidade de um besouro ou um camaleão. A fuga dos dias, cafés requentados, minúcias expostas em formato macro, os versos relidos, desgastados pelo tempo dos sentidos que tornaram-se ambíguos, vãos, vão-se trêmulos, encarnados num rompante de reverberações e cismas, um montante inumerável de fraquezas brutas, a ruptura do ciclo, este desfecho reticente, anunciação de veemências e rastros de seus passos no cimento fresco, baque impetuoso, pancada brusca, revés de trovoadas vindas de dentro do que há de mais dentro de suas variações, idéias vagas, rasas razões, hora de partir, de partir-me, um duo de um, apenas um, mais um cigarro e outro e outro e outro café requentado. Que a tormenta desbaste este eco, este oco de protuberâncias ínfimas, e lavre...lavre...lavre...livre inunde...a cadeia das horas que já não nos cabem.

quinta-feira, junho 23

Como vão as ondas?

Como vão as ondas

Da sua televisão?

O que os outros vãos

Tudo é contramão

Não é nada não

É que eu sou tranqüilo

Vivo com as mãos no chão

Andando com os pés no céu

E essa coluna?

E as tantas colunas

Que já não suportam

Seu peso sem asas

Tomara que caia

E o sabor das brumas

O temor das rimas

O estar por cima

Sem querer gozar

Ainda, ainda...

As tantas lembranças

O trabalho às pampas

Se sujar, se lança

Se for cor, carmim

Caminho na chuva

Sigo enluarado

Mas fazendo sol

Em domingos

E feriados

terça-feira, abril 12

Desdobrando os labirintos

Rememorando fábulas, estremecendo rancores, não abro as cortinas, o horizonte me elucida de furor e amplidão, e o que almejo é tão...simplório, sutil anseio, lépido presságio. Acendo um cigarro, espirro três ou quatro vezes, rio, rio, rio de mim mesmo, depois de você, depois de nós dois juntos naqueles patinhos da Lagoa revelando-nos que não há qualquer romantismo lúdico por entre as pedaladas freneticamente intensas que tínhamos que ofertar pra fazer aquilo estar em movimento continuo, com alguma direção relevante, quase enfartamos, e quando atingimos à proa, tontos de taquicardia, comemoramos aturdidos a nossa chegada desta prova de veemente resistência, “pedala você agora...”, “porra, to pedalando...”, “pedala mais, caralho, eu quero sair daqui...”, quando todo este impulso de baques impetuosos soavam “ porra, eu continuo te amando”, “te amo mais, caralho, eu quero estar com você” , estes sentidos implícitos que nos tomam de fervor e fúria, mas não era bem isto, isto é, o texto, não aspirava escrever sobre nós, você já sabe me ler de forma extremosa e cada verso teu ressoa em mim de modo plural, qual fosse nosso, entende? Entende, entende sim. Olho os quadros dadaístas na parede, caminho errante pela sala, de um lado a outro, desdobrando os labirintos, estes momentos sós, a solidão prediz perguntas, respostas, perguntas, perguntas, é vital concebê-las, nos molda em estado de amplidão, enxergando as perspectivas em paralelos relevantes, factuais. Preciso de um argumento, um frenesi tempestuoso que faça valer cada linha exposta e sobreposta entre tantas palavras embaralhadas que, juntas, podem até formar um mosaico abstrato, de cor carmim, com nuances nuas. O sentido é seu, a loucura é crua, a porra é quente, o suor é frio, quando perpassamos por entre estes becos esquivos e ratos-ratos e ratos-humanos nos pedem cigarros ou cobram quatro reais por um boquete, breus que trago à tona, emaranhados, sublimados, enfeitados em seu mais vigoroso cerne, vírgula à vírgula, tudo premeditado aos caos, onde já não caio mais, foi o precipício quem me revelou, quando o surto se cessa e o que resta de ti é simplesmente o infinito, ora quantas estradas pra trilhar, eu já lhe disse isso, vou repetir, de-va-gar-zi-nho, sussurrando em seus ouvidos que comportam estes brincos de pérolas falsas, caso não forem, foda-se, não me implicam penduricalhos e ínfimos adereços, vou te dizer, é o seguinte, você poderá tentar, sentir o peito se abrir e revelar todos os pormenoresemaiores e tormentos tão chulos que não valem sequer um bocejo teu, não é tão fácil adestrar os que tem asas, diria Caio F. mais ou menos assim ou exatamente assim, e você as possui, eu vejo, claramente nestes turvos NÓS nos cadarços sujos de seu tênis, e quanto à NÓS, ein?Você é foda!Não um foda do tipo “nossa, que habilidade mental no quesito reflexões impactantes”, é um foda do tipo “Você é um filho da puta, mas cara, veja, eu também sou, então podemos andar juntos”, é o seguinte, contra as demências, psicoses, alienações, desvarios, ainda existe um elixir, isto se você quiser, quiser mesmo, intensa e grandiosamente, lá no fundo do seu mais vital casulo, guarde isto em seu bolso, esta vibração de meamdros, essa bula de remédio: QUANDO PULEI DO ABISMO, DESCOBRI QUE SOU PASSARINHO...E VOEI.