sexta-feira, maio 27

Uma canção antiga

No silêncio da noite, um jazz rouco dispara na sala. Pensamentos soltos, distantes de agouros, na cintilância do tempo ora caos ora dengo. Me reverbero e me rendo. Não julgo astúcias ou delirios. Na estrada cíclica divago entre carícia e a vida, despida, desfez os nós dos tropeços...
A lira é lívida, certeira.
O amor uma canção antiga que diga:
Tomara que faça sol nas noites turvas e com brumas e com comentários do tipo eu não te conheci assim.

Clóvis Struchel 

quinta-feira, maio 26

O barulho que a chuva faz

Deserto
De certo
O verso
Nomeará
O verbo
Chuva
Chuva
Chuva
Neste teu lábio
De alvorecer
(inunda)

Jazz

No rompante de indagações
Me ponho a ladrar senões
Ligeiros impasses
Livramento de desastres
Alcunhas para honrar
Na lida
A mente erguida
Corpo moído
O dente sisu lateja
Defronte
É madrugada
Um conhaque
Um dopante
Uma baga apertada
Insinuante
Longínquo
Perto
O bastante
Na mesa ao fundo
Sorvendo
Cada clímax e delírio
Na batida jazz
Um viés sucinto
A cantora bêbada incita
Nada a temer na vida
Um gozo, uma trama
Escrita

"o mar quando quebra na praia"

Ode a Caymmi

Da nascença
De um apogeu
Duma crença
Insisto na dança que emana
Derrama
O pesar
No mar eu fico
Com onda sereia ressaca
No mar e em mergulho
No mar eu me fulguro

Das idas de Santiago

Fragmento
Uivo e ouvo o tempo
Madrugada
Terapia
É lavar louça na pia
Despojada
Disporia
Num arranha-céu
Arranharia
Mira
Te ligo
Te vejo
Dois ou três
Ansejos
Milhares de vendavais
Teço
Do pôr do sol eu amanheço
Aqui entre nós, presságios
Debaixo dos prós,  arpejos
São mil relevâncias mesmo
Das idas de Santiago

sexta-feira, maio 20

Lampejo e sorte

Intrépido
Ligeiro
Desfazendo receios
Sem freio
E voraz
No suntuoso lume
Que dispara em feixes
E cada vez mais
As malas prontas
Peito aberto
De certo
Será climax
Impero sóis
Eu quero bons presságios
E ventos sublimes

O reconvexo
A jura
O senhor do bomfim
Apreço ébrio
As fulguracoes de um jardim
Nuances pares
As notas de um bandolim
Lampejo e sorte
Os Deuses que estão aqui

terça-feira, maio 17

A silaba

A silaba astuta
A silaba beijo
A silaba turva
Prevejo
A silaba solar
A silaba mar
A silaba soar
No ar
A silaba moura
A silaba louca
A silaba branda
A silaba dança
A silaba espasmo
A silaba espaço
A silaba fardo
A silaba sábado
A silaba voraz
A silaba paz
A silaba chuva
A silaba rua
A silaba negra
A silaba seja
A silaba veja
A silaba incita
A silaba
A silaba
A silaba

domingo, maio 15

Trilha fincada

Madrugada. E os lábaros das foices que aniquilavam os tormentos cessaram num ímpeto. Já não se ouviam as vespas, e os minutos soaram em imensidões de estremecimentos, tal como o corpo mergulhado em vigor de tal prazer sugerido. Na fulguração das cismas. Estas intempéries do acaso desfolhando impressões. Deste outono orvalhado, tal qual seria o imo desta estação. Do amor fez-se a colina. Dos dias passados, o alcance e a trilha fincada. Nesta busca que insulta a razão. Os Deuses são chamados por nomes de rios. Trovejam e inundam os rios. Os Deuses são chamados. Pulsam. Afloram.  Destinam-se. Transbordam. A massa é pura solidez de ferro ou louça. Divina é a sutileza. Esta que não apruma os jeitos.  

O sexo

Entre rimas calidas
Brados causticos
Berros épicos
E suores epiléticos
Deixemos urgir, surgir, fluir
O sexo

sábado, maio 14

O baile dos sete mares

Um conhaque
Um trago
As suas retinas
Marasmos
Eu fumo um cigarro
Outros vários 
Algumas meninas
Me invadem 
De certo embriagado
Um samba que toca no carro
O mesmo sentido
Desvario
Respostas
Que as horas me trazem
De novo um novo conhaque
Lembrança a toa
Um embate
Teu corpo
Teu dorso
Tua margem
As fulgurações
Um alarde
O samba compassa a voltagem
Delírio
A pele que arde
De novo e de novo um conhaque
Os Deuses convidam pro baile
Dos sete mares
Que seja miragem
Ou arte

Ensaio sobre o mar de abril rascante

Caro leitor
Destes de almanaque
Tratados, ensaios
Os que veneram romances
Com poesia entra em transe
Se tem novela é seu lance
Carissimo
A rua até poderia rumar um mar de abril rascante a rua até poderia aprumar um mar de abril rascante a rua leitor poderia emoldurar um mar de abril preciso a rua até poderia enjeitar um bar de abril rascante a rua até poderia aprumar um bar de abril rascante um bar de abril preciso um mar de azul fulgurante a rua até poderia rumar um mar de azul rascante um abril delirante a rua até poderia rumar um mar defronte a rua até poderia entornar um bar de abril dançante a rua até poderia rumar um mar de abril rascante.
E seja o quanto antes.

Benegrip

Texto de 2012

Porque te encontrar foi me rever num foco que ampliava as beiras dos meus horizontes, deixando transparecer o que estava além do presumido, pincelando de arvorecer minhas tardes de terça, e remontando o castelo de lego em multicores, fixando a princesa no alto da torre. Foi emancipar terrenos antes habitados por ratos andantes de pés encardidos, e fulgurar desejos de um filme abstrato com trilha do Otto. Emoldurando as vestes. Me vestindo de astúcias, dúzias delas. Foi como falar comigo, olhando as minhas retinas por sete minutos. E assim me ouvir cantando “Tatuagem” ou “Wake up Alone” num bar vazio numa noite cinza, quando os desamores rebelaram-se turvos, e o meu repertório validava as somas. Foi tudo ao contrário, como planejado. Sem forma de poema. Prosa. Sem maneiras ou modos. Samba. Suor. Vento no rosto. Itinerários. Coisas simples e sem adereços, que nem cabem por sobre linhas. E não impõem epílogos, nem almejam lirismos. Flui. Adiciona. Converge. Explode. Já não tenho tempo pra desfechos. Prosseguir é tudo que me transborda. Eu danço embaixo da chuva. Ileso. Você me traz benegrip e eu curo. 

sexta-feira, maio 13

Bacon e perna

Fragmento
Tua perna no tempo
Quando vejo de longe
Pareceu-me bacon

Lentamente
Fito, fixo, entendo
Cada qual com sua tara
Cada um com sua era
Mas o meu remelexo
Seja bacon e perna

Rimas tolas

No salto
Um passo
Deixa o lastro
Descalço
Incauto
No torpor
Refaço
A linha
O traço
Bebo gim
Quebro pratos
E me mato de rir

quinta-feira, maio 12

Todo mundo

Todo mundo possui os seus medos
De escuro, madrugada
Todo mundo finge que não sabe de nada
Todo mundo espera meio em cima do muro
Todo mundo
Todo mundo

Todo mundo alcança, mas não sabe o que
Todo mundo é cantor de karaokê
Todo mundo manda e todo mundo finge obedecer
Todo mundo sírio
Todo mundo sério
Todo mundo loiro
Todo mundo hetero
Todo mundo carnavalizando
Fora dos seus carnavais
Todo mundo estranho
Todo mundo trôpego
Todo mundo tamanho
Todo mundo caustico
Todo mundo infante
Todo mundo quer beber refrigerante
Aos sábados
Todo mundo de Caetano
E de Ciclano
Todo mundo é farto
Copo americano
Pra medir o fubá do bobó
Todo mundo novo para sempre
Todo mundo louco às vezes
Todo mundo vendo novela das oito
Todo mundo odeia ser como todo mundo junto
Todo mundo já previu o fim do mundo

Todo mundo já quis ser senador
Todo mundo odeia política
Todo mundo acha que é doutor
Todo mundo fez recuperação em física

Todo mundo sonha com o amor
Todo mundo manda alguém embora
Todo mundo surfa no Arpoador
Todo mundo quer e quer agora

quarta-feira, abril 11

Pois se

Chovia
E assim
Como nos dias destes
Gotículas choravam sobre os fios
Chorava o dia
Inundado de noites
Pulsando agonia
Revivia o sonho
Da quimera de outrem
Na ventura do signo
Ascendendo energias
Primas
Secundárias das trilhas
Que passamos por cima
Da torrente e porque não...
Da vida?
Que, estremecida,
Fulgurou o momento
Do tormento, a temida
Rancor, tédio, pneumonia
Transmutou, pois se viva
Sim, amanheceria
(chovia
Chovia
Chovia
Chovia.)

domingo, abril 1

06:29 AM

Saciada
A mente
Indaga
Crente
Que seremos
Somente a semente
E não a razão
Risonha, A vida
Partida
Urgida
Criada e querida
Vivida
Que um dia, vinda
Ainda ainda
Batendo firme
Se sim se não
Redemoinho
Vento, caminho
Quase tocando
A exatidão.

quinta-feira, março 29

Pastor de ovelhas negras

Era canção que soava. Canção de chuva. Emaranhada, torpe, viva, morrendo a lama seca do asfalto corroído por passos insones. A vida, esta vida, a sua, a minha existência emana, flui, flora de matos distintos, a malícia das cartas, te amo te amo te amo te amo ass: foda-se. Ainda trago este ranço, e o sorriso manso rimando com ódio. Decido: Parto. Nascido o temporal, temperatura amena, a do vinho, cor de sangue branco, disformes tramas, tantas, tamanhas dissimulações, verdades feito feridas expostas, brotando pus, nojo, ojeriza, vômito, porra, PORRA! Vagante da lua, durmo em cima do telhado de casa, à espera do sol, este casaco nu, verossímil, fotógrafo. E as canções? As cançãozinhas? Os cães latindo, aperte o REC produtor, mosca na sopa, me chama de chão, pisa, sou seu alicerce, após cuspir em seu olhar que chora, meu cuspe, minha saliva, sua lágrima sou eu e vice-verso que lhe indica: A BUSCA É PERTO, ALI, EU FUI, DENTRO. Assombrosos pesares, família e caos, família e domingos, beijo de mãe, de puta, travesti, viado, frei, pastor de ovelhas negras, fãs de Amy. Não choverá, não mais. E quanto ao cais? A espera? Brusca?Busca?Rimas? Crônica?Poema?PORRA!PORRA NENHUMA! Um café, um cigarro, “nem palavras conseguem mais amenizar”, escute-se, vou te deixar quieto aí, assim ó: .......................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................pairou....tédio....saudade....ciúmes....cinismos...............pairou......o tempo, choveu, nasceu, brotou, exalou flores, murcharam, reguei, floresceram, morreram, plantei novas margaridas, amarelas, heróicas, frágeis porém....amavéis....pairou.....sim....a astucia, medo, coragem, vício, vicissitude, porradas, tapinhas, breus, postes acesos, manhãs nubladas de um verão infernal, pairou...porra...pairou, sim...isto, respire, mais uma vez, assim ó: .......................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................pairou, sentiu? Mesmo? Como? Sim, bastante. Fumo, bebo, fumo mais e mais e mais e bebo um tantinho.......estou ansioso, caramba, ansioso, e o desfecho? Onde? Cuma? Pairou......o grito inaudível...assim ó: AAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH, assim mesmo. Pairou, pára vai, pairou aqui, a cisma, a crista da onda, a bula preta, violão de aço, voz de nylon, nylon grosso, porém fino, como aqueles que inala e flui percebendo a fumaça mesclando-se à neblina, imunda dos suores dos amantes madrugais, em camas sujas de motéis imundos. Pairou, porra...pairou....a febre, a dor, a posse, a capa do livro mais besta, tipo mulher besta com bunda besta a nos abestar, pairou....pairou...repetindo, repetindo, repetindo...até que não entendam, não irão entender, sou imbecil oras, pois incompreensível, que merda! Merda! Não entenderão. Pairou, pairou, pairou, pairou porra. PORRA NENHUMA!

Alívio,
E aos seus.

Comigo,
CS

quinta-feira, janeiro 19

ÂMAGO

"ÂMAGO", MEU PRIMEIRO ROMANCE, JÁ ESTÁ DISPONÍVEL PRA COMPRA NO SITE DA EDITORA MULTIFOCO E EM ALGUMAS LIVRARIAS. ADENTRE, MOVA, ENCHA A TAÇA, O COPO, O CORPO, A METÁFORA ENFADONHA, AMOR IMPETUOSO, FERVOR LÍVIDO, COBERTOR, FOLHEIE RESPONDENDO, QUE EU TE EXPLICO PERGUNTANDO. COM QUANTOS 'EU TE AMO' SE COMPÕEM UM VAGO FOLHETIM?


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VARAL FULT: O multitalento de Clóvis Struchel




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quarta-feira, novembro 2

Umbigos

Ainda penso. E as idéias que antes divagavam entre o ócio e a poeira
das palavras, agora desembocam neste sobressaltar de dois ou três
segundos em que os olhos se encontram e se perdem, se pedem, e então
rejeitam qualquer migalha de certeza sobreposta de passados e futuros
que, em você, confundem-se lineares aos meus fragmentos de presságio.
Como quando te quero sobressaltadamente, e logo te extirpo do meu
rosto, cabelos, mãos – já não sabem onde tocar -, lábios, braços,
jantares e feriados. Porque também focar, e já não ser somente o foco
central que se permite acenar e sorrir de banalidades assusta e
reverbera esta minha ânsia de jamais querer o seu casulo, seu abrigo,
sua casa de palha, madeira, cimento. Então assopro, até passar, passa.
Não acho natural, conveniente, palpável, me embrenhar em seu pescoço
desvendando suas montanhas, estradas, vales escondidos, naufrágios
póstumos, não reconheço as siglas, senhas, fendas, e em mim impera
uma frieza dissoluta que ora alterna em calor viril e logo dissipa,
arrediamente, reinando o inverno da Islândia nos meus desvarios de
lord inglês, que mal te percebeu num primeiro, segundo, quarto
momento, e não perceberia não fosse o seu ímpeto de sempre enxergar
nitidamente o que está além destas retinas fatigadas de tantos outros
que, juntos, não formam sequer um mosaico abstrato nas suas tentativas
de supremacia, rente aos meus oásis, lambendo de sede a minha língua,
fulgurando as tentativas de escape, o que não estava ciente é a
vitalidade da minha presença em seus traços, cores, formas,
inspiração. Como se a musa das minhas melodias construísse
visceralmente cada aresta meticulosa desta tela íngreme e revestida de
sutilezas que você esboça com a minúcia de artista besta que confunde
aplauso com companhia e amor com repúdio. Porque ter em tese o mundo
aos teus pés te impossibilita de estar nas mãos de alguém, e a gente
entende dessas coisas de lapidações, veemências, brados, cismas,
raridades. Porque comum é o amor, corriqueiro, arcaico. Amo, talvez. O
seu umbigo e o meu. Talvez, sim, sejamos absolvidos por ousar o
simples. O próximo. O possível. Fomos gerados por infinitudes, e ainda
não sabemos onde terminam os nós e desabrocham os Eus. Onde se
encerram os sustos e recomeçam as tramas. Embevecidas de gim, café,
conhaque, aspirina. Calendários, calores, carícias, inícios. Como
quando o mapa-mundi do meu corpo te transforma em universos e planetas
que só eu sei o nome. Caminhamos em outras luas. Outros mistérios.
Enquanto seus abismos amortecem os meus passos. E as
minhas fugas, ironicamente, confortam suas faltas.