quarta-feira, abril 11

Pois se

Chovia
E assim
Como nos dias destes
Gotículas choravam sobre os fios
Chorava o dia
Inundado de noites
Pulsando agonia
Revivia o sonho
Da quimera de outrem
Na ventura do signo
Ascendendo energias
Primas
Secundárias das trilhas
Que passamos por cima
Da torrente e porque não...
Da vida?
Que, estremecida,
Fulgurou o momento
Do tormento, a temida
Rancor, tédio, pneumonia
Transmutou, pois se viva
Sim, amanheceria
(chovia
Chovia
Chovia
Chovia.)

domingo, abril 1

06:29 AM

Saciada
A mente
Indaga
Crente
Que seremos
Somente a semente
E não a razão
Risonha, A vida
Partida
Urgida
Criada e querida
Vivida
Que um dia, vinda
Ainda ainda
Batendo firme
Se sim se não
Redemoinho
Vento, caminho
Quase tocando
A exatidão.

quinta-feira, março 29

Pastor de ovelhas negras

Era canção que soava. Canção de chuva. Emaranhada, torpe, viva, morrendo a lama seca do asfalto corroído por passos insones. A vida, esta vida, a sua, a minha existência emana, flui, flora de matos distintos, a malícia das cartas, te amo te amo te amo te amo ass: foda-se. Ainda trago este ranço, e o sorriso manso rimando com ódio. Decido: Parto. Nascido o temporal, temperatura amena, a do vinho, cor de sangue branco, disformes tramas, tantas, tamanhas dissimulações, verdades feito feridas expostas, brotando pus, nojo, ojeriza, vômito, porra, PORRA! Vagante da lua, durmo em cima do telhado de casa, à espera do sol, este casaco nu, verossímil, fotógrafo. E as canções? As cançãozinhas? Os cães latindo, aperte o REC produtor, mosca na sopa, me chama de chão, pisa, sou seu alicerce, após cuspir em seu olhar que chora, meu cuspe, minha saliva, sua lágrima sou eu e vice-verso que lhe indica: A BUSCA É PERTO, ALI, EU FUI, DENTRO. Assombrosos pesares, família e caos, família e domingos, beijo de mãe, de puta, travesti, viado, frei, pastor de ovelhas negras, fãs de Amy. Não choverá, não mais. E quanto ao cais? A espera? Brusca?Busca?Rimas? Crônica?Poema?PORRA!PORRA NENHUMA! Um café, um cigarro, “nem palavras conseguem mais amenizar”, escute-se, vou te deixar quieto aí, assim ó: .......................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................pairou....tédio....saudade....ciúmes....cinismos...............pairou......o tempo, choveu, nasceu, brotou, exalou flores, murcharam, reguei, floresceram, morreram, plantei novas margaridas, amarelas, heróicas, frágeis porém....amavéis....pairou.....sim....a astucia, medo, coragem, vício, vicissitude, porradas, tapinhas, breus, postes acesos, manhãs nubladas de um verão infernal, pairou...porra...pairou, sim...isto, respire, mais uma vez, assim ó: .......................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................pairou, sentiu? Mesmo? Como? Sim, bastante. Fumo, bebo, fumo mais e mais e mais e bebo um tantinho.......estou ansioso, caramba, ansioso, e o desfecho? Onde? Cuma? Pairou......o grito inaudível...assim ó: AAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH, assim mesmo. Pairou, pára vai, pairou aqui, a cisma, a crista da onda, a bula preta, violão de aço, voz de nylon, nylon grosso, porém fino, como aqueles que inala e flui percebendo a fumaça mesclando-se à neblina, imunda dos suores dos amantes madrugais, em camas sujas de motéis imundos. Pairou, porra...pairou....a febre, a dor, a posse, a capa do livro mais besta, tipo mulher besta com bunda besta a nos abestar, pairou....pairou...repetindo, repetindo, repetindo...até que não entendam, não irão entender, sou imbecil oras, pois incompreensível, que merda! Merda! Não entenderão. Pairou, pairou, pairou, pairou porra. PORRA NENHUMA!

Alívio,
E aos seus.

Comigo,
CS

quinta-feira, janeiro 19

ÂMAGO

"ÂMAGO", MEU PRIMEIRO ROMANCE, JÁ ESTÁ DISPONÍVEL PRA COMPRA NO SITE DA EDITORA MULTIFOCO E EM ALGUMAS LIVRARIAS. ADENTRE, MOVA, ENCHA A TAÇA, O COPO, O CORPO, A METÁFORA ENFADONHA, AMOR IMPETUOSO, FERVOR LÍVIDO, COBERTOR, FOLHEIE RESPONDENDO, QUE EU TE EXPLICO PERGUNTANDO. COM QUANTOS 'EU TE AMO' SE COMPÕEM UM VAGO FOLHETIM?


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IMPRENSA



VARAL FULT: O multitalento de Clóvis Struchel




http://varalfult.blogspot.com/2011/10/o-multitalento-de-clovis-struchel.html

quarta-feira, novembro 2

Umbigos

Ainda penso. E as idéias que antes divagavam entre o ócio e a poeira
das palavras, agora desembocam neste sobressaltar de dois ou três
segundos em que os olhos se encontram e se perdem, se pedem, e então
rejeitam qualquer migalha de certeza sobreposta de passados e futuros
que, em você, confundem-se lineares aos meus fragmentos de presságio.
Como quando te quero sobressaltadamente, e logo te extirpo do meu
rosto, cabelos, mãos – já não sabem onde tocar -, lábios, braços,
jantares e feriados. Porque também focar, e já não ser somente o foco
central que se permite acenar e sorrir de banalidades assusta e
reverbera esta minha ânsia de jamais querer o seu casulo, seu abrigo,
sua casa de palha, madeira, cimento. Então assopro, até passar, passa.
Não acho natural, conveniente, palpável, me embrenhar em seu pescoço
desvendando suas montanhas, estradas, vales escondidos, naufrágios
póstumos, não reconheço as siglas, senhas, fendas, e em mim impera
uma frieza dissoluta que ora alterna em calor viril e logo dissipa,
arrediamente, reinando o inverno da Islândia nos meus desvarios de
lord inglês, que mal te percebeu num primeiro, segundo, quarto
momento, e não perceberia não fosse o seu ímpeto de sempre enxergar
nitidamente o que está além destas retinas fatigadas de tantos outros
que, juntos, não formam sequer um mosaico abstrato nas suas tentativas
de supremacia, rente aos meus oásis, lambendo de sede a minha língua,
fulgurando as tentativas de escape, o que não estava ciente é a
vitalidade da minha presença em seus traços, cores, formas,
inspiração. Como se a musa das minhas melodias construísse
visceralmente cada aresta meticulosa desta tela íngreme e revestida de
sutilezas que você esboça com a minúcia de artista besta que confunde
aplauso com companhia e amor com repúdio. Porque ter em tese o mundo
aos teus pés te impossibilita de estar nas mãos de alguém, e a gente
entende dessas coisas de lapidações, veemências, brados, cismas,
raridades. Porque comum é o amor, corriqueiro, arcaico. Amo, talvez. O
seu umbigo e o meu. Talvez, sim, sejamos absolvidos por ousar o
simples. O próximo. O possível. Fomos gerados por infinitudes, e ainda
não sabemos onde terminam os nós e desabrocham os Eus. Onde se
encerram os sustos e recomeçam as tramas. Embevecidas de gim, café,
conhaque, aspirina. Calendários, calores, carícias, inícios. Como
quando o mapa-mundi do meu corpo te transforma em universos e planetas
que só eu sei o nome. Caminhamos em outras luas. Outros mistérios.
Enquanto seus abismos amortecem os meus passos. E as
minhas fugas, ironicamente, confortam suas faltas.

quarta-feira, outubro 5

Me dá um cigarro

Deu a última tragada, lançou a binga como num arremesso frenético o qual se pretende fazer uma cesta de três pontos, aquela que salvaria toda uma partida visceral e ofegante, em seus últimos instantes de bola quicando, pegou do bolso o maço já amarrotado e roto e, sem encarar por mais que dois segundos aquela face sórdida de rato-humano à sua frente, ofertou o pedido sem mesmo esboçar qualquer fisionomia contendo sequer um mínimo de animosidade e logo adiantou o ritmo demasiado de seu andar, puto dentro das calças, extremamente puto, muitíssimo puto, puto pra caralho, envolto de pensamentos que emergiam no mesmo abismo gélido e aborrecido que havia se deparado em suas tantas buscas labirínticas e mordazes, bêbadas, turvas, ziguezagueando por demais esquizofrênico, feito um mosquito que, após sugar o sangue quente de uma coxa robusta, sofre um tapa incerto, embora impactante, e alça um vôo desmedido e irregular, sentindo a dor terrível nas mesmas patas imundas que agora limpam o sangue dos cantos da boca, quase sorridente, em sua ínfima importância de ser só e tão somente o alvo preferido de uma guerrilha munida de sprays e pastilhas, prontas para mandar aqueles lixos alados para o inferno, “que mordam o diabo!”, mas eu dizia do moleque que pediu cigarro irritando ainda mais o juízo já efervescente de nosso herói sem mocinha, não pelo cigarro, foda-se o cigarro, mas pela chateação grotesca de ser parado no meio da rua e imediatamente desviado de suas conclusões e disparates mais cretinos e insanos. Desceu as escadarias do metrô, universitários barbudos e punheteiros, garotas com roupas que mais lembravam uma nítida regressão a uma infância decadente, muito pouco, ou basicamente nada construtiva, alguns trabalhadores engravatados com a face rude, contendo alarmantes olheiras, de quem simplesmente degusta uma realidade com cheiro de merda e pinho-sol, se ajeita num canto mais destacado, como se fosse possível em plena 18 hs na estação Cinelândia, uma bossa-nova enfadonhamente careta e regrada ressoa das caixas laterais, cessando toda a malandragem e descompromisso dos reais motivadores desta manifestação musical, e os dizeres redigidos em letras garrafais transmitidos nas tevês de plasma, em português e inglês, enfatizando o espírito “maravilha” dos cariocas e convidando cinicamente os turistas a embarcar neste movimento, quando o que se percebia ao redor era um amontoado de ações fugidias e vorazes, abstrai estes pormenores até escutar o ferro dos trilhos estremecer e logo avistar o transporte se aproximando, entra sem olhar para os lados e tenta se acomodar com tamanhos olhares que mutuamente se revezam em sua direção, já que dentro do metrô não há mesmo um menu extenso de possibilidades no que diz respeito ao que será olhado, o jeito então é cada um se encarar sutilmente ou almejar se distrair com a escuridão atordoante por detrás dos vidros, segue contando mentalmente o número de estações, já sabendo de cor o que dirá a voz fantasmagórica da locutora, chega a sua vez, “Próxima estação, General Osório, desça à direita”, sai esbaforido daquele compartimento, sobe as escadas rolantes observando, por rotina, os quadros e mosaicos que decoram o ambiente, enfim chega à calçada e então caminha pensativo pelas ruas de Ipanema, já elaborando todo o texto que será dito para desmistificar todo o caos, pensa inclusive no tom mais preciso para se iniciar a primeira frase, a entonação ideal que virá a seguir e assim por diante, tudo minuciosamente planejado e arquitetado pelo herói sem mocinha, enraizando desmedidamente furor e agonia em seu peito dilacerado da falta latente e crua das coisas mais simplórias e habituais, o café recém passado e o jornal sobre a mesa, o baticum dos saltos dela sobre o chão da sala, o desconcerto de ambos ao ter que escolher produtos que jamais usaram nas compras do mês, a revista de moda que ela lia o fazendo gargalhar de suas fisionomias deslumbradas, o romance de Sacheri que compartilhavam nas tardes de sábado, os tênis e meias que ele deixava relapsamente sobre o tapete do banheiro, a sua pinta na bochecha que ela adorava beijar e agora habita solitária e nostálgica em sua face pálida e descabida.

- Ô prayboy! Erva, cocaína e crack. Erva de 10 e 25. Cocaína de 30. Crack de 5. O crack tá “envolvente”, saca de “envolvente”, né mermão? Tá “envolvente” pra caralho, pray!

Ele faz que não com a cabeça e continua a sua caminhada, escutando a seguir a mesma chamada do aprendiz de traficante para outro transeunte.

- Ô prayboy! Erva, cocaína e crack. Erva de 10 e 25. Cocaína de 30. Crack de 5. O crack tá “envolvente”, saca de “envolvente”, né mermão? Tá “envolvente” pra caralho, pray!

Dessa vez o trafica teve mais sorte, o “pray” do momento resolveu fazer compras no mercadinho, e passou apressadamente por ele cheirando a trouxa de maconha para definir a qualidade do produto, até sumir completamente de sua visão dobrando uma próxima esquina. O herói sem mocinha atravessa o sinal já sentindo o baque incessante e impetuoso bombeando seus músculos e artérias, rumando a direção da praia, logo avista o seu prédio, agora dela, cumprimenta uns vizinhos que passeiam com os cachorros, vizinhos estes agora dela, entra rispidamente no edifício, agora dela, e faz uma piada infame sobre o último jogo do Flamengo com o porteiro, agora dela. Abre a porta do elevador, aperta o botão número 7, e fica alternando entre se observar no grande espelho ou se perceber registrado pela câmera acima de sua cabeça, bobagens com o intuito de esmaecer o conjunto de reverberações ensurdecedoras que lhes cabe. Espirra três ou quatro vezes, enumera respostas a serem ditas de imediato, sem deixar restar qualquer instante de desconfiança, sombreia uma maneira particularmente peculiar de direcionar o seu olhar quando a avistar vestindo uma blusa velha, grande, com o desenho do Mickey à frente, e seus cabelos deliciosamente presos num coque, enfatizando ainda mais as formas delicadas de seu rosto, a sua face fingindo surpresa, enquanto lhe diz numa frieza também calculada que já está terminando de pintar as unhas dos pés, desnudos e salientes bem ali próximo aos seus lábios que anseiam lambê-los, e que assim que der a última pincelada irá passar um café fresquinho, quando ele dirá que não precisa, que ele mesmo pode passar o café e que ela pode, isso ele dirá obviamente irônico, continuar a sua experimentação acerca dos desfrutes aborígenes de colorir o próprio corpo, ela responderá prontamente, retirando o palito que segura com a boca, que tira o excesso de esmalte nos cantos das unhas, já que ambas as mãos estão ocupadas entre pincel, frasco, algodão e acetona, que nunca ouviu falar disso e que ele não tem consistência real e relevante do que acabou de citar, ele prontamente irá dizer que leu no Google, e ela cairá em gargalhadas, deixando o pincel cair para alivio dele, dizendo que o Google não possui fontes realmente plausíveis e que qualquer filho da puta pode criar um site e dizer, por exemplo, que possui o manual secreto que acarreta no modelo de conduta de um casamento exemplar do tipo que o marido, em nenhuma hipótese, transaria em cima da mesa do escritório com a putinha da secretária que mal fez dezoito anos, o que fará com que sua face exploda num fogo transparentemente visível e o deixe consternado buscando qualquer explicação notória, que faça um mínimo de sentido, excluindo imediatamente todas as possibilidades de respostas e pensamentos os quais ele já vem elaborando a dias, incansavelmente e incessantemente. O elevador pára no quinto andar, as portas se abrem, uma bichinha com reflexos nos cabelos lhe pergunta, mais feminina que a sua sobrinha enquanto brinca de boneca, pondo os braços dentro do elevador para fazer com que, propositalmente, ele não prossiga.

- Tá descendo?

O herói sem mocinha indica com os dedos que está subindo, a bichinha ainda faz mais algumas retaliações sobre o elevador até que finalmente deixa ele seguir o seu destino, o indicador digital prediz sexto andar, respira fundo, sétimo andar, chegou o momento de então desfazer todas as atrocidades que pairam nas entranhas já abarrotadas de cismas, neuroses, mágoas, olhos marejados, fragmentos de um passado onde juntos esboçaram planos e idealizações, e andaram com ar de casal vinte pela orla, é o momento de desfazer qualquer insulto e despudor da cena catastrófica o qual foi surpreendido por ela, a hora de cessar esta lacuna densa onde habita o inverno da Islândia, caminha demasiado pelo corredor, reconhecendo-se em cada parte mais minúscula daquele caminho, até chegar frente à sua porta, agora dela, que escutará o barulho das chaves do herói sem mocinha, como em todas as noites em que viveram ali, e fatalmente irá dizer lá de dentro que o jantar está quase pronto e se ele sabe onde pôs as taças que sua mãe trouxe de Curitiba, hoje não disse coisa alguma, ele já esperava, reformula olhando para a porta todas as frases de impacto que almeja dizê-la, abre cautelosamente, em passos curtos, todas as lâmpadas apagadas, “ela deve estar dormindo”, acende a luz da sala num rompante de nervosismo e desespero, seu olhar confunde-se entre o pânico e a desgraça, não há ninguém ali, sendo mais exato, claro, é o que vocês esperam, não, não há nada ali, mobílias, luminária, tevê, quadros, bar, chinelos, fios de cabelo pelo chão, cheiro de café, não há nada, o que ali habita é um cheiro de ócio, de tempo parado, de instantes corrosivos e parcos, o apartamento lhe parece ter envelhecido algumas décadas, o seu corpo se esmera para não tombar neste ambiente inóspito e lúgubre, o herói sem mocinha insiste em caminhar pela sala, depois até a cozinha, se impressiona porque nestes momentos de tormenta é tomado por uma calma quase dadaísta, fica anestesiado, ao ponto de entrar no banheiro e fazer um xixi, pensa, repensa, transpõe as mais variadas lógicas e os mais mórbidos sensos, quanta aberração, quanto surto, e estas entrelinhas dando margem à esta infinita variação metafórica, qual o sentido, a coerência, o porquê. Ou ela esperava o primeiro vacilo realmente feroz do herói sem mocinha para simplesmente dar no pé? Não, ela não esperava. Ela o amava, ela o disse que o amava, várias vezes, muitas vezes, de todas as maneiras. Fica paralisado até sentir um misto de soluços e gargalhas, procura um sofá, não há mais sofá ali, lembra-se, e continua enlouquecendo nesta conseqüência de choro e riso nada eloqüente. Vai fumar na janela, um, dois, três cigarros, sem café. Porra, sem ela e sem café. Quanto desespero! Quanta abstinência! Ele ainda não entrou no quarto, será por demais forte pra ele adentrar no local onde muitas vezes se amaram, e disseram-se coisas deles, tão deles que não me cabem trazer à tona, tampouco cabem mais neste espaço oco onde a ressonância da voz trêmula não responde com o mesmo eco, parece dizer “Tenha calma. Ou não tenha calma. Não importa. O fato é que você já não tem ela, herói sem mocinha. Então rezar um terço ou socar a parede só resultará na ignorância eminente de quem seca gelo para resolver uma equação de álgebra. Portanto, soque o terço e reze a parede. Ou então, vá comer de novo a putinha! Ou pedir cigarro na rua, ou vender crack de 5, ou dar a bunda embaixo da bandeira, otário!”, a porta do quarto ainda está fechada, ele a abre laconicamente, não a vê deitada na cama – imaginária - assistindo a novela das sete, bocejante e frágil, linda assim sem maquiagem, linda assim sem colar de pérolas, linda só de blusão e calcinha, sua. Avista de imediato o seu violão num canto enfadonho, abaixo do instrumento, encontra um papel dobrado, meticulosamente dobrado, cuidadosamente dobrado, senta ligeiro no chão, desdobra ágil o papel, é ela, é a letra dela, cara, veja, é um bilhete dela, mais valioso que todas as mobílias e fios de cabelo pelo chão, um bilhete dela, pra ele.

“As feridas em carne viva. Ponho merthiolate, arde tanto, eu sopro, sopro e sopro de novo. Até passar, não passa. Não tenho mágoa, não tenho ódio, tampouco almejo vingança, nem. Me perguntam de você, digo que não sei, então se espantam em demasia e eu quase enlouqueço. Nunca perguntam de mim, porque caso perguntarem, direi que não sei também. Iriam tentar me internar, talvez, ou me indicarem um cruzeiro, uma vodka, um marido. Eles teimam em insistir numa fisionomia áspera e decisiva, como quem sabe realmente o que fazer quando acaba a luz e não há ninguém em casa para dividir as suas faltas. E, sabe, tem me faltado tudo. Inclusive você. Quanta ironia! Pra me fazer curativos e um chá de pitanga que cure esta gripe, adquirida, claro, pela baixa imunidade que você me causou. Você é o culpado, é também um canalha, um pervertido, é portanto, homem e, sinceramente, não há mesmo mutações nesta espécie que faça, de fato, diferenciar nitidamente um do outro. Eu sou outra. Você é outro. Será exatamente isso? Acho que não, não mesmo. Eu acho um monte de coisas, seus óculos, suas meias, seus livros de cifras, suas revistas velhas, minha saudade, meu amor doído, este que necessita de um antipirético, um antialérgico, um antigripal, um antes. Antes daquilo. Antes disso, destas feridas, destes abismos. Antes das 22, te espero aqui, Rua Assis n° 18, ainda estou arrumando toda a bagunça, preciso de alguém que ponha os quadros, as cortinas e troque a lâmpada do quarto. Preciso de alguém que sorria dos meus trejeitos, que implique com os meus barulhos de manhã e que me faça crescer até quando me encontro emaranhada de tristezas que não cabem neste meu coração carnavalesco, acalorado, exaltado de sentimentos que transbordam. Você é um filho da puta! E eu? Eu sou tua.”

quarta-feira, junho 29

No cimento

A tormenta aproximando-se em passos largos encobrindo o horizonte, vejo-te longe, ainda mais que a tormenta, bem mais, além, ali ao lado, ouvindo Aretha Franklin entre diálogos surdos, não ouço, não digo também, fumo um cigarro na janela fingindo enxergar algum ponto, sem nó nem nós, estas metáforas cafonas emoldurando as vestes, os cadarços sujos, o sorriso assim de lado, com a graciosidade de um besouro ou um camaleão. A fuga dos dias, cafés requentados, minúcias expostas em formato macro, os versos relidos, desgastados pelo tempo dos sentidos que tornaram-se ambíguos, vãos, vão-se trêmulos, encarnados num rompante de reverberações e cismas, um montante inumerável de fraquezas brutas, a ruptura do ciclo, este desfecho reticente, anunciação de veemências e rastros de seus passos no cimento fresco, baque impetuoso, pancada brusca, revés de trovoadas vindas de dentro do que há de mais dentro de suas variações, idéias vagas, rasas razões, hora de partir, de partir-me, um duo de um, apenas um, mais um cigarro e outro e outro e outro café requentado. Que a tormenta desbaste este eco, este oco de protuberâncias ínfimas, e lavre...lavre...lavre...livre inunde...a cadeia das horas que já não nos cabem.

quinta-feira, junho 23

Como vão as ondas?

Como vão as ondas

Da sua televisão?

O que os outros vãos

Tudo é contramão

Não é nada não

É que eu sou tranqüilo

Vivo com as mãos no chão

Andando com os pés no céu

E essa coluna?

E as tantas colunas

Que já não suportam

Seu peso sem asas

Tomara que caia

E o sabor das brumas

O temor das rimas

O estar por cima

Sem querer gozar

Ainda, ainda...

As tantas lembranças

O trabalho às pampas

Se sujar, se lança

Se for cor, carmim

Caminho na chuva

Sigo enluarado

Mas fazendo sol

Em domingos

E feriados

terça-feira, abril 12

Desdobrando os labirintos

Rememorando fábulas, estremecendo rancores, não abro as cortinas, o horizonte me elucida de furor e amplidão, e o que almejo é tão...simplório, sutil anseio, lépido presságio. Acendo um cigarro, espirro três ou quatro vezes, rio, rio, rio de mim mesmo, depois de você, depois de nós dois juntos naqueles patinhos da Lagoa revelando-nos que não há qualquer romantismo lúdico por entre as pedaladas freneticamente intensas que tínhamos que ofertar pra fazer aquilo estar em movimento continuo, com alguma direção relevante, quase enfartamos, e quando atingimos à proa, tontos de taquicardia, comemoramos aturdidos a nossa chegada desta prova de veemente resistência, “pedala você agora...”, “porra, to pedalando...”, “pedala mais, caralho, eu quero sair daqui...”, quando todo este impulso de baques impetuosos soavam “ porra, eu continuo te amando”, “te amo mais, caralho, eu quero estar com você” , estes sentidos implícitos que nos tomam de fervor e fúria, mas não era bem isto, isto é, o texto, não aspirava escrever sobre nós, você já sabe me ler de forma extremosa e cada verso teu ressoa em mim de modo plural, qual fosse nosso, entende? Entende, entende sim. Olho os quadros dadaístas na parede, caminho errante pela sala, de um lado a outro, desdobrando os labirintos, estes momentos sós, a solidão prediz perguntas, respostas, perguntas, perguntas, é vital concebê-las, nos molda em estado de amplidão, enxergando as perspectivas em paralelos relevantes, factuais. Preciso de um argumento, um frenesi tempestuoso que faça valer cada linha exposta e sobreposta entre tantas palavras embaralhadas que, juntas, podem até formar um mosaico abstrato, de cor carmim, com nuances nuas. O sentido é seu, a loucura é crua, a porra é quente, o suor é frio, quando perpassamos por entre estes becos esquivos e ratos-ratos e ratos-humanos nos pedem cigarros ou cobram quatro reais por um boquete, breus que trago à tona, emaranhados, sublimados, enfeitados em seu mais vigoroso cerne, vírgula à vírgula, tudo premeditado aos caos, onde já não caio mais, foi o precipício quem me revelou, quando o surto se cessa e o que resta de ti é simplesmente o infinito, ora quantas estradas pra trilhar, eu já lhe disse isso, vou repetir, de-va-gar-zi-nho, sussurrando em seus ouvidos que comportam estes brincos de pérolas falsas, caso não forem, foda-se, não me implicam penduricalhos e ínfimos adereços, vou te dizer, é o seguinte, você poderá tentar, sentir o peito se abrir e revelar todos os pormenoresemaiores e tormentos tão chulos que não valem sequer um bocejo teu, não é tão fácil adestrar os que tem asas, diria Caio F. mais ou menos assim ou exatamente assim, e você as possui, eu vejo, claramente nestes turvos NÓS nos cadarços sujos de seu tênis, e quanto à NÓS, ein?Você é foda!Não um foda do tipo “nossa, que habilidade mental no quesito reflexões impactantes”, é um foda do tipo “Você é um filho da puta, mas cara, veja, eu também sou, então podemos andar juntos”, é o seguinte, contra as demências, psicoses, alienações, desvarios, ainda existe um elixir, isto se você quiser, quiser mesmo, intensa e grandiosamente, lá no fundo do seu mais vital casulo, guarde isto em seu bolso, esta vibração de meamdros, essa bula de remédio: QUANDO PULEI DO ABISMO, DESCOBRI QUE SOU PASSARINHO...E VOEI.

segunda-feira, março 7

Embora

Não te prometo amor. Não almejo lisuras, salivas embevecidas de um conhaque, um gim, um anti-ácido, uma porra. Te olho enquanto você fuma assim deitado de lado na cama, ouvindo Madeleine como quem adentra num sem fundo de destemperanças, tenho muito a fazer, meu amor, muito a caminhar, depois parar um pouco, tirar as pedras dos sapatos, então seguir me equilibrando entre os abismos, lembrarei, lembrarás, recordarei dos fatos, das tramas, das transas, dos tapas. Mas hei de ir, eu sei, você deseja um tempo breve, uma semana, duas, talvez suporte três, embora o meu descompassar de dias não lhe caberá no calendário roto demasiadamente descontrolado, como não coube meus descaminhos, meu riso frouxo, a barba por fazer, a blusa com o escrito “Amy way of life”, ok meu bem, deixo ela pra você, a Amy, a barba por fazer, o riso frouxo, os descaminhos, sigo como quem sacia a fome devorando a carne crua e quente de um besouro, um marimbondo, deixando aquele ranço rascante e turvo na garganta, passará este vácuo, livrará estes sustos, me permito ainda algum delírio, um anseio, uma lástima, parto sem o coração, este dos apaixonados desenhado em vermelho entrecortado por flechas, resta-me um músculo, paredes, artérias, pouco partido, claro, partindo, um tanto perdido, confesso, mas não posso permitir desmoronar o meu Farol, cuide, cuide sim, cuide muito, por favor, da tosse, dos surtos, das plantas, dos quadros dadaístas na parede, dos discos emblemáticos que, convenhamos, você os amou mais que a mim, é agora, exatamente, assim meio ao meio, meio a esmo, partirei rumo ao meu abrigo, cá dentro, meu arpoador, um inferno blue, quiçá, paraíso cinza, com flores resistindo à crueza do asfalto e reinando frígidas pelas frestas que lhes restam. Bambo num talvez, num jamais, em nunca, nunca mais voltar. Porque me basta este baque impetuoso de fúria e vendaval que fere os lábios. Oscilo o fim, o desfecho, o término brutal. É este, este aqui, o mórbido adeus. O trôpego. O sórdido, mítico. Adeus-Adeus. Até o romper da aurora inatingível pincelando o horizonte, lá de onde você me olha, encharcando os pés no mar. Deixo a chave embaixo do xaxim, e uma xicara de chá posta sobre a mesa juntando-se a uns versos que se esmeram em desespero e despedida. Em tristeza desmedida, só para rimar com sutileza. Uma esperança amarga. Um corromper de brados. Não volto, não rogo, não choro. Não agora. Enquanto te vejo emaranhado, encolhido em cócoras, disfarçando a loucura. Adeus. Adeus, você. Mas não te prometo, amor.

terça-feira, agosto 3

Seu sim

Rude
Mesmo quando diz sim
Não pelo o que há de liberto
Em simplório gesto
Vê-se pequeno
Menor que os insetos
Que sugam suas coxas
E logo rumam pra outra

Seu sim
Espécie de alforria
Brancos libertos
A dizer:
Quase morro
Quando subo o morro

Sim
Som que espalha-se
Por entre as cortinas
Revistas antigas
Canteiros, cantigas

Sim
Prossiga
Em caso de dúvida
Liga
Jamais siga tendências
Elas tendem a desabrochar
Nenhum modo nem moda
Siga atentamente
Bobagem se preocupar
Com o jeito de caminhar

Tragos e conhaques
Esqueça os desastres
Lembre de sonhar
Não cure a ferida
Vil também vívida
Dói dos ralos cabelos
Até o vão calcanhar

Sim
Para travestis e putas
Vagantes, bruxas
E bruxos
Cortiços, luxos
Cantina, bar
Sim
Para o esfarrapado
E o burocrata
Sim sem ensaios
Sem jogadas
Sim

Ah sim...
Pra não negar
O osso
O esgoto
O desgosto
O cachorro
Sem molho
Ou com molho
Pronto pra salgar
O dente doído
Elo corrompido
O pai, o marido
O vão do umbigo
A centralizar
O que há de ser
O que há de sarar
Num tempo quando
Onde, ontem
Amanhecerá.

segunda-feira, julho 12

O frio e a frigidez

Insone, busco a palavra que apraz o desassossego, a agonia impetuosa, a ardorosa fuga sobre o apego, a ventura inacabada, o destino em reles trapos, desatino que impera a madrugada que observo pela janela, passantes esquivos, estranhos, malditos, caminhantes que se esmeram abstraindo o frio e a frigidez, eu cá elucido alguns fardos, o desamor cru e palpável, esvaziando a cama, esvaecendo os faros, o aroma do café e do cigarro, e o corpo emaranhado de desaventuras, fragilizado e entregue às assolações presentes, cada distorção, e raspo brevemente o insolente e despudorado espasmo de verdades incontidas, jamais ditas, expressas em dubiedades que inundam lençóis e tapetes, releio poemas, bulas de remédios, bilhetes, acaricio sutilmente cada densa linha, e costuro aos descompassos dez compassos abstratos, minimalistas, incomuns, num papel antes amassado, liberto de entendimentos, previamente desprezado, todo ele reticente, ...................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... o sentido é o que habita nas vagas idéias, que nada dizem, não afagam, não imprimem, sequer existem, nenhuma trama ou qualquer moldura de frases meticulosas, isto não vale coisa alguma, isto é, o que restou de nós.

terça-feira, junho 22

Nu

Quando chegar, tire em imediato suas roupas, eu quero ver-te nu, exposto, imposto aos meus devaneios, quero apalpar a rispidez e a lisura, anseio o foco sobre o teu pênis ainda amanhecido, te espero trêmula, esmero uma canção antiga, um verso de outrora que dilacere cada enfermidade, a deformar os sentidos, transfigurar as sutilezas, quero ver-te nu, como havia dito, e apalpar cada emaranhado de pêlos e cruas carnes, mornas, cálidas, austeras, almejo ampliar o foco, eternizar em polaróides o lúbrico cerne do corpo que me penetra, em una moradia substancial e lasciva, a língua, a saliva, a porra, a face inebriada e ardorosa, não conte-me sobre os fatos, não diga-me segredos, anule as urgentes notícias, pode me chamar de puta, desvairada, insana e torpe, o porre que compartilhamos, a falta sórdida que agora esvai-se, goze sobre os meus lábios, minhas ancas, meios seios, arruíne esta distancia, aproxime-se faminto e sujo, me coma, alimente-se do meu liberto sexo, e já saciado implore por lamber meus pés, saliente e impuro, a deflorar as horas, dias, meses, e imperar o alicerce que nos une num baque de tempestades, intensos brios, vorazes ímpetos, quero beber o teu suor pra sentir sede de você.

segunda-feira, junho 7

O lábio e o labirinto

As feridas expostas, remotas e frígidas, assopro com sutileza, e a cada ardor mais espesso, rememoro o cálido olhar, pra me enxergar de um outro foco, e testemunhar uma felicidade distante, distinta, como os teus pés nos meus num qualquer dia, entre edredons e cafés, e um revés de emoções, a acarretar um conglomerado de sentidos vãos, mal sinto, já não reconheço o amor, esvai-se entre remotos espasmos e o calendário que teima em perpassar os dias, a barba por fazer a emaranhar a minha frágil face, o lábio e o labirinto, o afago de deus e do diabo, os passos que rumam rente ao mapa em branco, páginas que esmero com o despudor e a rispidez que me cabe, onde me coube as carícias, as malícias de terça, os cigarros acesos, a esperar um esmero presságio, vago, vário, vagante e mundano, como as paixões repentinas, alusões, ilusões postas à prova, castelos de areia arruinados por uma brusca tempestade de verão, restou-me os poemas esquivos, a bermuda rota, as sandálias de couro e a sua bússola disforme, que aponta um brado, um diálogo, uma dúvida, tomo aspirinas com pura vodka, não quero querer, e anseio, não mais seus pigarros, seu catarro, seu chulé, a densidade imposta em que se finda o concreto sentimento, cimento e tijolo, o lobo mau dispensará seus murros, protejo-me das adversidades, dos encontros inesperados no jornaleiro, do telefonema madrugal desdizendo conjuras, e um amontoado de quinquilharias que apertam meu peito, a fotografia na cortiça, o bilhete hermético, o orgasmo lascivo, represento, aumento o tom, minto banalidades, desfaço perguntas, invento uma alegria estática, pra não imperar tristes fatos, cinzentas entrelinhas, fardos que não compartilho, hei de herdar o peso incomum, a parca lisura, o reles impacto, "e ninguém aqui vai notar que eu jamais serei a mesma".

quinta-feira, maio 6

Um riso

Estes rabiscos publicáveis, em páginas de jornal classe média, com ar supremo de quem visitou a esmo - ensaiando versos - todos os pontos mais out desta cidade empolvorosa, e todos chamam teu nome, você acena amélie, como quem eterniza um instante em fotografia polaroid, toda ela, logo some, dilui-se...criança.E criam momentos de extrema sensíbilidade, lhe deixam flores e minúcias, e vão-se. E vão-se soa...soa-me vago, existe e parte-se, um café morno com bolachas de morango. Será mesmo a cisma? Acho que não gosto de você. Assim como concordo com teus pés nos meus pés, em dias assim, em busca da proa. E se você me ouvisse, se por a caso, quem sabe ontem, você me disse "eu não lhe guardo meu rancor, querido", e mais ainda, ainda que por mais que insista, nada me valha, e vale a pena escrever quando não sinto a linha, costuras disformes, visto você de asneiras, dissimulações, conhaques e tecidos rotos, porque...porque posso, amélie. Te invento, transformo, informo e pronto, eles acreditam. E então me levanto -assim-rápido-sem pausas-sem-pensar - ajeito os cabelos, acendo um cigarro, esqueço-te no cinzeiro, e canto joão neste seu impróprio violão de aço. O sol na cortina verde-musgo, não gostei e pronto. Você não sabe de cores, não tá na moda verde-musgo, não tá na moda bancar ser além, germinar sementes semânticas, e também não vi, em todas as bundas que vislumbro mensalmente na playboy, qualquer versinho seu que me soe realmente seu. Entende? então Foda-se. Hoje eu não acordei para escrever metáforas, e consertar palavras, e ajeitar parágrafos. Na verdade, mal reli qualquer entrega, e se você for ler, por favor, chore. Já não tenho tempo, ainda resta um trago ou dois no cigarro esquecido em meu cinzeiro, e se por ventura decidir partir, de repente, para sempre, não esqueça de levar as chaves, novamente.

Um riso,
C.

sábado, novembro 28

Âmago

Trecho do meu livro, ainda em processo, flores nos jarros, chuvas à sós.



Pega um livro sobre a estante, “Terras baixas” de Joseph O’neill, lê nove capítulos numa só entrega, alimenta-se de tais palavras qual fosse seu alicerce, um porto-seguro, afagos sutis em seus cabelos rasos e sedosos. Anota num bloco algumas frases de impacto, quer pensar sobre elas, almeja encontrar algum sentido que lhe faça balbuciar o seu peito, esquece do tempo, esquece de si e de tais feridas, não sente vontade ligar para alguém e contar suas já antigas lamúrias, por um instante se esquece de todas as dores que tanto o assusta, em noites de frio e vagos cafés, aprimora seus faros ainda há pouco tão desarmados, quer fuçar cada lástima e todo o desvario, plantar qualquer semente que faça florescer este gosto de novos ares em seu peito cansado de tais compaixões, deseja somente seguir este fluxo, encontrar seu caminho, caminhar rente aos seus destinos, que fazem-se junto aos seus tantos passos, tudo cíclico, brados contínuos, como o descompassar deste coração temeroso, escondido em seu casulo de puras penas, maltratado e por vezes ignorado, como então agir firmemente tendo sobre o peito um gélido órgão pulsante e sem vida?Quer removimentar, reinstaurar cada bloco de pedras, quebra-las com as mãos, e talvez até construir algo que valha quiçá um verso, ou apenas um riso. Ou então jogar fora estas quinquilharias, esquece-las de uma vez por todas, permitir-se alterar os climas, mudar os quadros na parede, deixar a barba por fazer, barba de quatro ou cinco dias, mostrar-se cru, nu aos olhares dispersos e atentos a cada gesto mais afoito do primoroso músico, não mais compactuara com estes ensaios de bom moço, não quer mostrar-se feito um fantoche esquizóide elaboradamente fantasiado por um pálido executivo do atual mercado fonográfico pop, quer apenas mostrar-se como é, e isto, pensando racionalmente, não é pedir muito. Lhe custa abundantemente caro estes retratos de sorrisos prontos, não se percebe ali, parece um personagem, não um personagem vanglorioso como estes dos bons romances que lê, mas um personagenzinho mediado, igual aos demais, um belo rosto de propagandas de margarina, com roteiros felizes e insuportavelmente perfeitos, feitos e refeitos, elaborados por equipes especificas, tudo criado detalhadamente para impressionar, causar impacto, ressoar gritinhos de “u-hul” em adolescentes fantasiosos e deslumbrados, não quer mais este estigma, não pode mais admitir tal brutalidade contra a sua própria natureza. Decidiu mandar uma meia-dúzia ir para a puta que o pariu, caso fosse necessário. Mas já não fará este tipo de cena, com textos decorados, luz prontamente idealizada, palavras encantadoras e singelas. Sente nojo, um certo despudor, quer andar um pouco, escutar umas canções em seu Ipod, olhar o mar, fechar os olhos e sentir a brisa calmamente acariciando seu rosto, depois comer em alguma lanchonete onde se sirva uma batata-frita decente e coca-cola sem gelo, quer apenas isso, agora.Poderia querer mais, poderia alugar um jatinho e ir ver a noite caindo em Barcelona, ou então arrendar a suíte presidencial do Copacabana Palace e dar uma festa só para putinhas de classe média, todas moradoras da Zona sul, sedentas por pirocas cravejadas de brilhantes e farta quantidade de cocaína sobre um tampão de vidro. Mas não, não pensa em coito agora, não se impulsiona a tal aventura jovial. Quer apenas comer as suas batatas, tomar sua coca e ouvir Rosa Passos tranquilamente, sem pressa, sem procuras nem autógrafos ou fotos posadas com eufóricos transeuntes. É o que fará, encontra um boné em seu closed abarrotado por roupas enviadas pelos mais badalados estilistas do país, veste uma calça “Diesel”, apanha suas havaianas e uma camiseta branca, confortável e fresca, pega sua carteira e as chaves sobre a mesa, e sai sem destino prévio, não leva o celular, não quer ser encontrado por ninguém, adora fazer isso, enlouquecer de preocupação suas sempre disponíveis assessoras, ultimamente, inclusive, este tem sido o seu esporte predileto.


Embaraçado. É assim que se sente. Desde o fio mais escasso dos seus cabelos, até a ponta do dedo mindinho dos seus pés robustos e brancos como nuvem. “Tudo é uma questão de respirar fundo, contar até dez, respirar novamente”, já escutou este conselho centenas de vezes, e chega a ficar impaciente quando o mesmo se repete. Tem tentado seguir esta máxima, mas confessa que isto não está lhe oferecendo nenhum ganho específico, pelo contrário, se sente um monge gordo tibetano, daqueles que se dizem levitar, e logo nota-se ridiculamente idiota, por ambos os casos: um por ter tentado seguir esta técnica de respiração atenta, em vão, dois por ter zombado anarquicamente dos tais monges gordos tibetanos, que nada tem a ver com esta trama. “Se for pra me foder, que seja com você meu bem...” , pensa isto e cai em gargalhadas, e logo emenda outros pensamentos tão insignificantes e inglórios como este, idéias irrelevantes, feito bilhetes entregues por baixo das portas, poeiras antigas por sobre os tapetes, esquemas de refúgio para singelos namorados comerem todas as negras que encontram no cardápio, simplicidades e abstrações, já deu no saco esta palavra: abstração. Acho que ninguém agüenta mais ouvi-la, portanto não direi mais, procurarei um sinônimo, um destes bem acertados, ajeitados detalhadamente, lapidados em frias têmperas, editados e publicados no auge de seu mais sublime sentido. Mas agora não, nem daqui a pouco. Agora somente me cabe contar as suas astúcias, quer mesmo pensar em asneiras, falar umas safadezas por telefone, tocar uma punheta, acender um cigarro. Pode parecer simplório aos olhares esquivos de estranhos leitores, talvez soe um tanto rebelde, palavras assim, tão desajeitadas, mas onde me movo, e o que posso ver, é mais disforme do que os labirintos dos sonhos derradeiros, ressonâncias mórbidas, cheiro de um perfume “doce travesti”. Existem três tipos básicos de perfume: masculino, feminino e “doce travesti”. Era justamente este último que Sofia usava, inalando seu cheiro por todo o apartamento, inebriando homens e garotos e até algumas mulheres mais atiradinhas. Ao final de sua gargalhada repentina, lembra-se da água que havia deixado no fogão, vai preparar uma massa, faz tanto tempo que não cozinha para si, depois abrirá um vinho de boa safra e ficará ali, com sua massa e o seu vinho, e os seus pensamentos irrelevantes tal como aquele que lhes contei, “se for pra me foder, que seja com você meu bem” pensa de novo, mas dessa vez não ri, pelo menos não tanto como na primeira vez, talvez por ter caído na real, entendido exatamente o que quer dizer isso, precisa de um terapeuta, pra agora, num tempo de urgências, quer esmurrar a porta de um consultório e entrar aos solavancos, contar todos os seus abismos e tempestades, atirar para o teto cada vômito e tormento, seus dedos goela abaixo mostrando-lhe evidencias que jamais quis escutar, mas já está um pouco tarde, passou das 22 horas, vai ter que deixar isso pra depois, ele sempre deixa “isso” pra depois mesmo, precisa pensar melhor, nunca aceitou muito bem o fato de expor suas feridas com tamanha clareza e, no fundo, também tem a plena consciência de que terapeutas igualmente choram descompassados em noites cinzas, fazem massas só para si, tomam vinhos de safra ruim, argumentam pensamentos chulos, recitam versos de Ana Cristina César assim meio-para-alguém-meio-para-o-vento, ajustam ponteiros e contam minutos, desabam suas facetas de super poderosos a cada toque mais sutil e femíneo, são humanos, portanto, sofrem de amor e odeiam suas mães, como todos, e pasmem, é verdade, até fazem cocô.


- Alô?
-Oi Júlio, sou eu...

Naquele Eu reconheceu todas as suas dúvidas, seus descompassos, tantos tropeços. Enxergou com minúcia cada palavra não-dita, no torpe silêncio que precede algum desfecho, algum caminho. Ressonância atordoante, feito trovoadas, naquele baque monumental, intenso, voraz. Foi neste Eu que um dia perdeu-se inteiro, e se entregou num labirinto de pernas, nucas, peitos, braços, lábios, e numa noite dessas lacrimejou lembranças, entristeceu todos os porta-retratos, emoldurou canções de amores findos, recolheu cada aroma que restara, qualquer rastro sutil, algum bilhete, uma blusa esquecida, algum pequeno presságio, neste Eu que um dia fora ele em tantas formas, em muitas forças, entrega plena que desfaz-se bruscamente, sem restar tempo algum para compreensões, entendimentos, indagações, ferida ainda aberta que incessantemente pulsa, lembrando, segundo a segundo, o estrago devastador de uma rude tempestade, já não há casa, já não há folhas, versos, já não há risos, não há cortiça, nem planos, nem quartos, as portas já não batem, as chaves se perderam, todas as chaves, trancando em si também todos os vãos sentidos.

- Ah sim, pode falar, Sofia.

Júlio responde em tom ríspido, faz toda a força que lhe cabe para parecer seguro.

-É com relação aos papéis, como você sabe estou noiva, e chega um momento em que é preciso se decidir, não dá pra ficar adiando...
-É verdade, não podemos deixar as coisas pela metade!
-Te liguei para saber como faremos...
-Faremos do jeito que você quiser!
-Falei com meu advogado, ele disse que vai precisar de algumas assinaturas, somente. Não será tão burocrático!
-Ótimo então! Peça pra que entre em contato com o meu, te mando os detalhes por e-mail.
-Ok, pode ser. Está tudo bem contigo?

“Como está tudo bem comigo? Irônica. Sarcástica. Insolente e frígida!”

-Tudo maravilhoso e com você?
-A vida anda corrida, mas nada que me desanime!
-Que ótimo!Você nunca foi desanimada mesmo...
-Pois é!Estou voltando pro Brasil para cuidar de tudo e resolver algumas pendências na empresa.

Júlio sabe que Sofia nunca se importou com a empresa do pai, um arquiteto renomado, investidor do mercado imobiliário. Acredita piamente que ela só virá para assinar os cujos papéis, sua carta de alforria programadamente elaborada.

- Quando chega?
-Dia 14 de setembro, uma terça-feira!
-Tudo bem, a gente se fala...
-Tentei te ligar ontem à noite!
-Ontem à noite eu nem existia...
-O quê?
-Nada, apenas um pequeno devaneio...

“Porque eu fui falar assim, meu deus? Essa minha mania cafona em emoldurar frases de impacto.”

-Não quero que tudo fique distante entre a gente!
-Mas as coisas estão distantes, não podemos fugir do que é óbvio!Neste momento, por exemplo, um oceano inteiro nos separa!
-Às vezes até me esqueço disso!
-Tudo bem, Sofia, mas eu não!
-Desculpe...
-Não tem que se desculpar!A vida é como é, e eu sinceramente mal sei o que te dizer...
-Então não diga nada, apenas sinta!
- ( )
- ( )

Uma pausa abissal toma o corpo de ambos, como modificar este tom?Porque então não trataram logo de se esquivar de qualquer assunto que remetesse ao que viveram? Poderiam ser mais simples, apenas tratar dos papéis e pronto, mas não...lá vem o passado todo desenvolto, pronto para dilacerar o presente já tão enfadonho e deixar um quê, um nó sem gravatas, num futuro próximo.

-Eu vou ter que desligar, meu querido! Te quero bem...

Odeia quando lhe chamam assim. Ele entoa a voz.

-Também te quero!
-Me promete uma coisa?
-Se não for algo exageradamente sacrificante...
-Acho que não é, só queria te ouvir ao violão cantando “Turvos olhares”...
-Vou pensar e te digo...

Ele ri, impactado. Ela não entende a resposta, mas faz que entendeu.Não quer desconsertar a conversa mais do que já está desconsertada.

-Então, sendo assim, pense direitinho...
-Você só pode estar brincando comigo!
-Eu estou falando sério!
- Faça o seguinte, ponha o disco pra tocar e ouça duzentas vezes...
-Você sabe que não é a mesma coisa!
-É, eu sei exatamente que não é a mesma coisa! Nada entre a gente é a mesma coisa!
-Eu não quero mais falar da gente!
-Foi você quem me ligou!
-Para falar dos papéis...
-Danem-se os pápeis!
- Bom, eu vou encerrar esta conversa! Me desculpe, mais uma vez...

Júlio desliga o telefone sem se despedir, antes mesmo de Sofia terminar sua frase. Um desacato, um sorriso frouxo bem na sua cara, cara pálida de quem esqueceu o caminho de casa, de quem perdeu o dinheiro da passagem e caminha insolente pelas ruas de Praga, algum solavanco lhe toma o peito, já não sente suas pernas, quer tomar um banho demorado, uma ducha perfeitamente morna, precisa abundantemente se sentir limpo, limpo de toda aquela sujeira, daquele assunto deslavado, daquela voz meticulosamente serena, sente-se um pierrô com roupas rotas e abafadas, quer esquecer este telefonema, esquecer estes papéis, esquecer o nome da mulher que ama e tal oceano o qual ela mesma disse por ora esquece-lo. O telefone toca de novo, Júlio atende impaciente.

- Sou eu ainda...
-O que você quer?Acabar com minha noite?
-Quero dizer que eu vou te ver quer você queira ou não...
-Ok, Sofia. Boa noite pra você!

Ele desliga de novo, num só ímpeto, encosta numa das bordas do confortável sofá, acende um cigarro, e chora feito um menino arredio que se perdeu da mãe, em plena avenida paulista, tomada por gente, carros, buzinas, monóxido de carbono e amores distintos, desfeitos, confusos, na contramão dos instintos mais precisos, viscerais, opostos aos sentidos palpáveis, cintilantes, tudo vago, vário, lacunas partidas, exaustivo breu.