quinta-feira, agosto 23

para sempre, de repente

ainda bem que você foi embora sem nem ao menos me dizer "vou indo...", livrou-me da cena patética de te ver voltando dizendo que esqueceu as chaves.
.
.
.


nas variações de lógica, um dia pensei ser sublime quando no fundo era somente vão, no mal-amar dos bons-amores todos os sentidos carregam consigo tantas possibilidades...

.
.
.

já não me interessa as suas indagações sobre o tempo e a rapidez das coisas, tampouco a sua imagem cult-estudei-fora-sou-o-máximo que você teima em insistir bancar.

.
.
.

na verdade, sinceramente, eu devia estar bem doido quando disse que teamava, o amor tem dessas coisas, todo mundo sabe, todos uns cegos sem receios que rumam o atlântico sem mapa e sem bússola, sorridentes e confiantes, e foi assim também comigo e eu também me perdi, claro.

.
.
.

a canção de amy ainda ressoa pela casa, os versos densos ainda me dilaceram, gosto da canção e do que ela me traz de nostalgia e presságio - paradoxal e cálida - o volume precisa ser exato, no tilintar dos acordes que adentram em mim sem rodeios, trazendo você pra mais perto. recordo os seus olhos pequeninos, fechados, ouvindo o que há de mais cristalino em cada ressonância, a sua alma entregue àquele timbre escuro, dando a nuance exata do instante de entrega. aos poucos nossos pés encostam-se, displicentemente, e se acariciam rente às melodias-brisas que nos tomam, olhares perdidos que se encontram, mãos que se entrelaçam num tempo de intensidade, como quem toca o corpo querendo tocar a alma.

.
.
.


você, em seu todo, é uma extensa metáfora, dessas que nos põem em choque, pensando, refletindo, desvendando sentidos, mas você é oco, não há nada de relevante em suas entrelinhas, há vazio apenas, uma burrice bem-articulada de quem leu Neruda para passar num concurso do Estado, e a terrível nostalgia do garoto que queria ganhar o mundo, e hoje mora num apartamento cinzento de uma rua esquisita em Botafogo.

.
.
.

eu lembro que eu citei Ana Cristina César, assim que nos conhecemos: "Porque essa falta de concentração? Se você me ama, por que não se concentra?", você sorriu um sorriso frouxo, eu entendi como um sorriso de quem já leu tudo na vida e já não se surpreende com tamanha euforia num verso lido a esmo, para assim ficar urdindo com tranqüilidade a poesia que lhe surgiu de repente, mas não, era um sorriso que me falava "o que você está dizendo agora?", e eu ali, tecendo pensamentos tão bons, tão profundos, enquanto você à minha frente vagava em idéias tão rasas, tão equivocadas, tão nulas.

.
.
.

para onde vão os amores que se cessam?em que lugar eles descansam?qual o caminho que percorrem, será que se perdem e adentram em outros corpos?porque?porque teimamos em vislumbrar eternidades?só para doer ainda mais quando a realidade crua bater à porta? não seria mais simples - e mais inteligente - viver o eterno que habita em cada instante?

.
.
.

entenderam que o amor terminaria ali, olharam a ponte abissal que os separavam, compreenderam que não havia mais motivo para atravessá-la, que lhes restavam a dor e as sensações que pairavam no tempo, sentiram o amor se esvaindo, e isso é como passar uma faca bem afiada em suas almas já tão desgastadas, as mãos trêmulas, um vazio amargando a boca, o amor virando areia, o amor caminhando com seus próprios pés, tomando cada vez mais distância, até desaparecer por entre as dunas...

.
.
.

ele não percebeu quando ela se foi, ela não olhou pra trás quando decidiu ir embora; na verdade, ninguém sabe ao certo quem partiu primeiro.

.
.
.












.
.
.

Termino esta história com o mesmo silêncio que pairou sob a despedida, e antes ainda, sob todo o tempo em que ficamos juntos.Tempo de silêncios, de palavras vazias, de discursos frígidos.Paira por aqui este infindável silêncio, silêncio esse, que deve ter sido o discurso mais romântico, e verdadeiro, que você me ofereceu.

.
.
.

mas é que a felicidade cabe em cada espaçozinho ínfimo; creia, ultimamente dei pra dormir abraçado com ela...

18 comentários:

Carol Montone disse...

Puxa...confesso que chorei.....
das mesmas dúvidas e do mesmo susto ...assim como de iguais evidências...texto lindo...instigante.....como os amores vão , idos, vindos e findos...
um beijo grande
vc é um talento menino....
Carol Montone

diovvani mendonça disse...

Pô, camarada, trago du-bom, do seu pensamento... Resumo da ópera: coisa de quem, perdeu as chaves da lógica e encontrou o "segredo", de todas as mágicas. ^~~Abraço~~^

Felipe Dib disse...

nossa, muito bom
gostei muito mesmo!

Mariana O'Connor disse...

essas junções ficaram boas, apesar de serem fragmentos, eles formam um todo com um sentido pleno.

SAMANTHA ABREU disse...

putz.
texto ótimo!

tem um monte de coisa que me fez ver a mim mesma, e me sinto estranha quando isso acontece, sei lá porquê.
A história das chaves, por exemplo. A música de Amy.
"a canção de amy ainda ressoa pela casa, os versos densos ainda me dilaceram, gosto da canção e do que ela me traz de nostalgia e presságio "

me deu até calafrios.
beijos.

bruna maria disse...

Ótimo post.
O final, quando se fala emsilêncio, me lembra Silêncio", de Nelson Rodrigues.

Beijos.

Mel disse...

Fiquei em silêncio... Imaginando o abraço na felicidade!

Pedro Pan disse...

, e se a felicidade for ela, ou com ela vier a felicidade. aí será sublime...
, abraços meus.

Van disse...

Amei teu blog!
E ainda por cima é compositor?
Se você compõe música do mesmo jeito como compõe palavras, então ganhou uma fã. Parabéns!
;)
Também sou cantora, compositora. Não tanto de palavras, mais de música messsss.

Enfim, adorei!
Vou linkar você, assim não te perco.
Beijuca

alex pinheiro disse...

Estar no além,,, diferente,,, em dose de algo bem forte, seco e quente... Acreditos nos momentos ínfimos,,,
Ter felicidade pra abraçar dormindo é a soma,,, a dose que amarga noutro dia, mas que nunca rejeito,,, rs

Abraços e reveladoras invenções!

Palhaço disse...

nada melhor que encontrar com a felicidade! dormir ao seu lado entao...

abraços poeta!
bem vindo ao Picadeiro!
bem vindo à minha Trupe!

A czarina das quinquilharias disse...

lindas prosetas de desamor.
desamor, desamor, desamor.
aiai.

Edson Marques disse...

Clóvis,


belíssimos textos! E até a forma como você os (des)ligou está ótima.


Só fiquei pensando: o "garoto que mora numa rua escura em Botafogo" ainda pode conquistar o mundo. Se é que já não.



Abraços, flores, estrelas..



.

Line disse...

um instante eh o suficiente qndo esse instante eh pra sempre, diria o chico^^

adorei
=********

Marla de Queiroz disse...

De todas essas formas que a gente escolhe pra tentar falar de amor, tem sempre essa cena dolorida de desamor no meio.Tem essa espera, esse encontro e essa perda.E toda a poesia que permeia tudo.E faz valer a pena.
Você é um dos poetas contemporâneos mais incríveis, mais amoráveis que conheço.
Inda bem que é tão meu, que tá tão dentro e que somos tão cúmplices.

Amo-te além dessas linhas e entrelinhas.
Amo-te no calor do meu melhor abraço e dessa troca nossa que é tão grande.

Seu lindo!

SAMANTHA ABREU disse...

o layout novo ficou bem legal!

beijos

Gabriela Souza Gomes disse...

Eu até iria me pronunciar. Mas o que eu falasse ía ser apenas qualquer coisa.

Lorraine disse...

No começo falamos tanto... no fim, nunca se sobra o q dizer... Amei!!