Um conhaque
Um trago
As suas retinas
Marasmos
Eu fumo um cigarro
Outros vários
Algumas meninas
Me invadem
De certo embriagado
Um samba que toca no carro
O mesmo sentido
Desvario
Respostas
Que as horas me trazem
De novo um novo conhaque
Lembrança a toa
Um embate
Teu corpo
Teu dorso
Tua margem
As fulgurações
Um alarde
O samba compassa a voltagem
Delírio
A pele que arde
De novo e de novo um conhaque
Os Deuses convidam pro baile
Dos sete mares
Que seja miragem
Ou arte
sábado, maio 14
O baile dos sete mares
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Clóvis Struchel
,
20:42
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Deixaram-se levar...
Ensaio sobre o mar de abril rascante
Caro leitor
Destes de almanaque
Tratados, ensaios
Os que veneram romances
Com poesia entra em transe
Se tem novela é seu lance
Carissimo
A rua até poderia rumar um mar de abril rascante a rua até poderia aprumar um mar de abril rascante a rua leitor poderia emoldurar um mar de abril preciso a rua até poderia enjeitar um bar de abril rascante a rua até poderia aprumar um bar de abril rascante um bar de abril preciso um mar de azul fulgurante a rua até poderia rumar um mar de azul rascante um abril delirante a rua até poderia rumar um mar defronte a rua até poderia entornar um bar de abril dançante a rua até poderia rumar um mar de abril rascante.
E seja o quanto antes.
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Clóvis Struchel
,
13:13
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Deixaram-se levar...
Benegrip
Texto de 2012
Porque te encontrar foi me rever num foco que ampliava as beiras dos meus horizontes, deixando transparecer o que estava além do presumido, pincelando de arvorecer minhas tardes de terça, e remontando o castelo de lego em multicores, fixando a princesa no alto da torre. Foi emancipar terrenos antes habitados por ratos andantes de pés encardidos, e fulgurar desejos de um filme abstrato com trilha do Otto. Emoldurando as vestes. Me vestindo de astúcias, dúzias delas. Foi como falar comigo, olhando as minhas retinas por sete minutos. E assim me ouvir cantando “Tatuagem” ou “Wake up Alone” num bar vazio numa noite cinza, quando os desamores rebelaram-se turvos, e o meu repertório validava as somas. Foi tudo ao contrário, como planejado. Sem forma de poema. Prosa. Sem maneiras ou modos. Samba. Suor. Vento no rosto. Itinerários. Coisas simples e sem adereços, que nem cabem por sobre linhas. E não impõem epílogos, nem almejam lirismos. Flui. Adiciona. Converge. Explode. Já não tenho tempo pra desfechos. Prosseguir é tudo que me transborda. Eu danço embaixo da chuva. Ileso. Você me traz benegrip e eu curo.
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Clóvis Struchel
,
09:19
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Deixaram-se levar...
sexta-feira, maio 13
Bacon e perna
Fragmento
Tua perna no tempo
Quando vejo de longe
Pareceu-me bacon
Lentamente
Fito, fixo, entendo
Cada qual com sua tara
Cada um com sua era
Mas o meu remelexo
Seja bacon e perna
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Clóvis Struchel
,
14:00
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Deixaram-se levar...
Rimas tolas
No salto
Um passo
Deixa o lastro
Descalço
Incauto
No torpor
Refaço
A linha
O traço
Bebo gim
Quebro pratos
E me mato de rir
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Clóvis Struchel
,
13:37
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Deixaram-se levar...
quinta-feira, maio 12
Todo mundo
Todo mundo possui os seus medos
De escuro, madrugada
Todo mundo finge que não sabe de nada
Todo mundo espera meio em cima do muro
Todo mundo
Todo mundo
Todo mundo alcança, mas não sabe o que
Todo mundo é cantor de karaokê
Todo mundo manda e todo mundo finge obedecer
Todo mundo sírio
Todo mundo sério
Todo mundo loiro
Todo mundo hetero
Todo mundo carnavalizando
Fora dos seus carnavais
Todo mundo estranho
Todo mundo trôpego
Todo mundo tamanho
Todo mundo caustico
Todo mundo infante
Todo mundo quer beber refrigerante
Aos sábados
Todo mundo de Caetano
E de Ciclano
Todo mundo é farto
Copo americano
Pra medir o fubá do bobó
Todo mundo novo para sempre
Todo mundo louco às vezes
Todo mundo vendo novela das oito
Todo mundo odeia ser como todo mundo junto
Todo mundo já previu o fim do mundo
Todo mundo já quis ser senador
Todo mundo odeia política
Todo mundo acha que é doutor
Todo mundo fez recuperação em física
Todo mundo sonha com o amor
Todo mundo manda alguém embora
Todo mundo surfa no Arpoador
Todo mundo quer e quer agora
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Clóvis Struchel
,
12:28
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Deixaram-se levar...
quarta-feira, abril 11
Pois se
Chovia
E assim
Como nos dias destes
Gotículas choravam sobre os fios
Chorava o dia
Inundado de noites
Pulsando agonia
Revivia o sonho
Da quimera de outrem
Na ventura do signo
Ascendendo energias
Primas
Secundárias das trilhas
Que passamos por cima
Da torrente e porque não...
Da vida?
Que, estremecida,
Fulgurou o momento
Do tormento, a temida
Rancor, tédio, pneumonia
Transmutou, pois se viva
Sim, amanheceria
(chovia
Chovia
Chovia
Chovia.)
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Clóvis Struchel
,
17:54
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Deixaram-se levar...
domingo, abril 1
06:29 AM
Saciada
A mente
Indaga
Crente
Que seremos
Somente a semente
E não a razão
Risonha, A vida
Partida
Urgida
Criada e querida
Vivida
Que um dia, vinda
Ainda ainda
Batendo firme
Se sim se não
Redemoinho
Vento, caminho
Quase tocando
A exatidão.
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Clóvis Struchel
,
05:30
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Deixaram-se levar...
quinta-feira, março 29
Pastor de ovelhas negras
Alívio,
E aos seus.
Comigo,
CS
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Clóvis Struchel
,
13:06
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Deixaram-se levar...
quinta-feira, janeiro 19
ÂMAGO
"ÂMAGO", MEU PRIMEIRO ROMANCE, JÁ ESTÁ DISPONÍVEL PRA COMPRA NO SITE DA EDITORA MULTIFOCO E EM ALGUMAS LIVRARIAS. ADENTRE, MOVA, ENCHA A TAÇA, O COPO, O CORPO, A METÁFORA ENFADONHA, AMOR IMPETUOSO, FERVOR LÍVIDO, COBERTOR, FOLHEIE RESPONDENDO, QUE EU TE EXPLICO PERGUNTANDO. COM QUANTOS 'EU TE AMO' SE COMPÕEM UM VAGO FOLHETIM?
GRATO! FLUINDO! IMPACTADO! E NATURAL...
;)
ADQUIRA SEU EXEMPLAR NESTE LINK ====>
http://www.editoramultifoco.IMPRENSA
VARAL FULT: O multitalento de Clóvis Struchel
http://varalfult.blogspot.com/
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Clóvis Struchel
,
00:33
1 Deixaram-se levar...
quarta-feira, novembro 2
Umbigos
das palavras, agora desembocam neste sobressaltar de dois ou três
segundos em que os olhos se encontram e se perdem, se pedem, e então
rejeitam qualquer migalha de certeza sobreposta de passados e futuros
que, em você, confundem-se lineares aos meus fragmentos de presságio.
Como quando te quero sobressaltadamente, e logo te extirpo do meu
rosto, cabelos, mãos – já não sabem onde tocar -, lábios, braços,
jantares e feriados. Porque também focar, e já não ser somente o foco
central que se permite acenar e sorrir de banalidades assusta e
reverbera esta minha ânsia de jamais querer o seu casulo, seu abrigo,
sua casa de palha, madeira, cimento. Então assopro, até passar, passa.
Não acho natural, conveniente, palpável, me embrenhar em seu pescoço
desvendando suas montanhas, estradas, vales escondidos, naufrágios
póstumos, não reconheço as siglas, senhas, fendas, e em mim impera
uma frieza dissoluta que ora alterna em calor viril e logo dissipa,
arrediamente, reinando o inverno da Islândia nos meus desvarios de
lord inglês, que mal te percebeu num primeiro, segundo, quarto
momento, e não perceberia não fosse o seu ímpeto de sempre enxergar
nitidamente o que está além destas retinas fatigadas de tantos outros
que, juntos, não formam sequer um mosaico abstrato nas suas tentativas
de supremacia, rente aos meus oásis, lambendo de sede a minha língua,
fulgurando as tentativas de escape, o que não estava ciente é a
vitalidade da minha presença em seus traços, cores, formas,
inspiração. Como se a musa das minhas melodias construísse
visceralmente cada aresta meticulosa desta tela íngreme e revestida de
sutilezas que você esboça com a minúcia de artista besta que confunde
aplauso com companhia e amor com repúdio. Porque ter em tese o mundo
aos teus pés te impossibilita de estar nas mãos de alguém, e a gente
entende dessas coisas de lapidações, veemências, brados, cismas,
raridades. Porque comum é o amor, corriqueiro, arcaico. Amo, talvez. O
seu umbigo e o meu. Talvez, sim, sejamos absolvidos por ousar o
simples. O próximo. O possível. Fomos gerados por infinitudes, e ainda
não sabemos onde terminam os nós e desabrocham os Eus. Onde se
encerram os sustos e recomeçam as tramas. Embevecidas de gim, café,
conhaque, aspirina. Calendários, calores, carícias, inícios. Como
quando o mapa-mundi do meu corpo te transforma em universos e planetas
que só eu sei o nome. Caminhamos em outras luas. Outros mistérios.
Enquanto seus abismos amortecem os meus passos. E as
minhas fugas, ironicamente, confortam suas faltas.
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Clóvis Struchel
,
13:14
2
Deixaram-se levar...
quarta-feira, outubro 5
Me dá um cigarro
- Ô prayboy! Erva, cocaína e crack. Erva de 10 e 25. Cocaína de 30. Crack de 5. O crack tá “envolvente”, saca de “envolvente”, né mermão? Tá “envolvente” pra caralho, pray!
Ele faz que não com a cabeça e continua a sua caminhada, escutando a seguir a mesma chamada do aprendiz de traficante para outro transeunte.
- Ô prayboy! Erva, cocaína e crack. Erva de 10 e 25. Cocaína de 30. Crack de 5. O crack tá “envolvente”, saca de “envolvente”, né mermão? Tá “envolvente” pra caralho, pray!
Dessa vez o trafica teve mais sorte, o “pray” do momento resolveu fazer compras no mercadinho, e passou apressadamente por ele cheirando a trouxa de maconha para definir a qualidade do produto, até sumir completamente de sua visão dobrando uma próxima esquina. O herói sem mocinha atravessa o sinal já sentindo o baque incessante e impetuoso bombeando seus músculos e artérias, rumando a direção da praia, logo avista o seu prédio, agora dela, cumprimenta uns vizinhos que passeiam com os cachorros, vizinhos estes agora dela, entra rispidamente no edifício, agora dela, e faz uma piada infame sobre o último jogo do Flamengo com o porteiro, agora dela. Abre a porta do elevador, aperta o botão número 7, e fica alternando entre se observar no grande espelho ou se perceber registrado pela câmera acima de sua cabeça, bobagens com o intuito de esmaecer o conjunto de reverberações ensurdecedoras que lhes cabe. Espirra três ou quatro vezes, enumera respostas a serem ditas de imediato, sem deixar restar qualquer instante de desconfiança, sombreia uma maneira particularmente peculiar de direcionar o seu olhar quando a avistar vestindo uma blusa velha, grande, com o desenho do Mickey à frente, e seus cabelos deliciosamente presos num coque, enfatizando ainda mais as formas delicadas de seu rosto, a sua face fingindo surpresa, enquanto lhe diz numa frieza também calculada que já está terminando de pintar as unhas dos pés, desnudos e salientes bem ali próximo aos seus lábios que anseiam lambê-los, e que assim que der a última pincelada irá passar um café fresquinho, quando ele dirá que não precisa, que ele mesmo pode passar o café e que ela pode, isso ele dirá obviamente irônico, continuar a sua experimentação acerca dos desfrutes aborígenes de colorir o próprio corpo, ela responderá prontamente, retirando o palito que segura com a boca, que tira o excesso de esmalte nos cantos das unhas, já que ambas as mãos estão ocupadas entre pincel, frasco, algodão e acetona, que nunca ouviu falar disso e que ele não tem consistência real e relevante do que acabou de citar, ele prontamente irá dizer que leu no Google, e ela cairá em gargalhadas, deixando o pincel cair para alivio dele, dizendo que o Google não possui fontes realmente plausíveis e que qualquer filho da puta pode criar um site e dizer, por exemplo, que possui o manual secreto que acarreta no modelo de conduta de um casamento exemplar do tipo que o marido, em nenhuma hipótese, transaria em cima da mesa do escritório com a putinha da secretária que mal fez dezoito anos, o que fará com que sua face exploda num fogo transparentemente visível e o deixe consternado buscando qualquer explicação notória, que faça um mínimo de sentido, excluindo imediatamente todas as possibilidades de respostas e pensamentos os quais ele já vem elaborando a dias, incansavelmente e incessantemente. O elevador pára no quinto andar, as portas se abrem, uma bichinha com reflexos nos cabelos lhe pergunta, mais feminina que a sua sobrinha enquanto brinca de boneca, pondo os braços dentro do elevador para fazer com que, propositalmente, ele não prossiga.
- Tá descendo?
O herói sem mocinha indica com os dedos que está subindo, a bichinha ainda faz mais algumas retaliações sobre o elevador até que finalmente deixa ele seguir o seu destino, o indicador digital prediz sexto andar, respira fundo, sétimo andar, chegou o momento de então desfazer todas as atrocidades que pairam nas entranhas já abarrotadas de cismas, neuroses, mágoas, olhos marejados, fragmentos de um passado onde juntos esboçaram planos e idealizações, e andaram com ar de casal vinte pela orla, é o momento de desfazer qualquer insulto e despudor da cena catastrófica o qual foi surpreendido por ela, a hora de cessar esta lacuna densa onde habita o inverno da Islândia, caminha demasiado pelo corredor, reconhecendo-se em cada parte mais minúscula daquele caminho, até chegar frente à sua porta, agora dela, que escutará o barulho das chaves do herói sem mocinha, como em todas as noites em que viveram ali, e fatalmente irá dizer lá de dentro que o jantar está quase pronto e se ele sabe onde pôs as taças que sua mãe trouxe de Curitiba, hoje não disse coisa alguma, ele já esperava, reformula olhando para a porta todas as frases de impacto que almeja dizê-la, abre cautelosamente, em passos curtos, todas as lâmpadas apagadas, “ela deve estar dormindo”, acende a luz da sala num rompante de nervosismo e desespero, seu olhar confunde-se entre o pânico e a desgraça, não há ninguém ali, sendo mais exato, claro, é o que vocês esperam, não, não há nada ali, mobílias, luminária, tevê, quadros, bar, chinelos, fios de cabelo pelo chão, cheiro de café, não há nada, o que ali habita é um cheiro de ócio, de tempo parado, de instantes corrosivos e parcos, o apartamento lhe parece ter envelhecido algumas décadas, o seu corpo se esmera para não tombar neste ambiente inóspito e lúgubre, o herói sem mocinha insiste em caminhar pela sala, depois até a cozinha, se impressiona porque nestes momentos de tormenta é tomado por uma calma quase dadaísta, fica anestesiado, ao ponto de entrar no banheiro e fazer um xixi, pensa, repensa, transpõe as mais variadas lógicas e os mais mórbidos sensos, quanta aberração, quanto surto, e estas entrelinhas dando margem à esta infinita variação metafórica, qual o sentido, a coerência, o porquê. Ou ela esperava o primeiro vacilo realmente feroz do herói sem mocinha para simplesmente dar no pé? Não, ela não esperava. Ela o amava, ela o disse que o amava, várias vezes, muitas vezes, de todas as maneiras. Fica paralisado até sentir um misto de soluços e gargalhas, procura um sofá, não há mais sofá ali, lembra-se, e continua enlouquecendo nesta conseqüência de choro e riso nada eloqüente. Vai fumar na janela, um, dois, três cigarros, sem café. Porra, sem ela e sem café. Quanto desespero! Quanta abstinência! Ele ainda não entrou no quarto, será por demais forte pra ele adentrar no local onde muitas vezes se amaram, e disseram-se coisas deles, tão deles que não me cabem trazer à tona, tampouco cabem mais neste espaço oco onde a ressonância da voz trêmula não responde com o mesmo eco, parece dizer “Tenha calma. Ou não tenha calma. Não importa. O fato é que você já não tem ela, herói sem mocinha. Então rezar um terço ou socar a parede só resultará na ignorância eminente de quem seca gelo para resolver uma equação de álgebra. Portanto, soque o terço e reze a parede. Ou então, vá comer de novo a putinha! Ou pedir cigarro na rua, ou vender crack de 5, ou dar a bunda embaixo da bandeira, otário!”, a porta do quarto ainda está fechada, ele a abre laconicamente, não a vê deitada na cama – imaginária - assistindo a novela das sete, bocejante e frágil, linda assim sem maquiagem, linda assim sem colar de pérolas, linda só de blusão e calcinha, sua. Avista de imediato o seu violão num canto enfadonho, abaixo do instrumento, encontra um papel dobrado, meticulosamente dobrado, cuidadosamente dobrado, senta ligeiro no chão, desdobra ágil o papel, é ela, é a letra dela, cara, veja, é um bilhete dela, mais valioso que todas as mobílias e fios de cabelo pelo chão, um bilhete dela, pra ele.
“As feridas em carne viva. Ponho merthiolate, arde tanto, eu sopro, sopro e sopro de novo. Até passar, não passa. Não tenho mágoa, não tenho ódio, tampouco almejo vingança, nem. Me perguntam de você, digo que não sei, então se espantam em demasia e eu quase enlouqueço. Nunca perguntam de mim, porque caso perguntarem, direi que não sei também. Iriam tentar me internar, talvez, ou me indicarem um cruzeiro, uma vodka, um marido. Eles teimam em insistir numa fisionomia áspera e decisiva, como quem sabe realmente o que fazer quando acaba a luz e não há ninguém em casa para dividir as suas faltas. E, sabe, tem me faltado tudo. Inclusive você. Quanta ironia! Pra me fazer curativos e um chá de pitanga que cure esta gripe, adquirida, claro, pela baixa imunidade que você me causou. Você é o culpado, é também um canalha, um pervertido, é portanto, homem e, sinceramente, não há mesmo mutações nesta espécie que faça, de fato, diferenciar nitidamente um do outro. Eu sou outra. Você é outro. Será exatamente isso? Acho que não, não mesmo. Eu acho um monte de coisas, seus óculos, suas meias, seus livros de cifras, suas revistas velhas, minha saudade, meu amor doído, este que necessita de um antipirético, um antialérgico, um antigripal, um antes. Antes daquilo. Antes disso, destas feridas, destes abismos. Antes das 22, te espero aqui, Rua Assis n° 18, ainda estou arrumando toda a bagunça, preciso de alguém que ponha os quadros, as cortinas e troque a lâmpada do quarto. Preciso de alguém que sorria dos meus trejeitos, que implique com os meus barulhos de manhã e que me faça crescer até quando me encontro emaranhada de tristezas que não cabem neste meu coração carnavalesco, acalorado, exaltado de sentimentos que transbordam. Você é um filho da puta! E eu? Eu sou tua.”
Postado por
Clóvis Struchel
,
15:19
0
Deixaram-se levar...
quarta-feira, junho 29
No cimento
A tormenta aproximando-se em passos largos encobrindo o horizonte, vejo-te longe, ainda mais que a tormenta, bem mais, além, ali ao lado, ouvindo Aretha Franklin entre diálogos surdos, não ouço, não digo também, fumo um cigarro na janela fingindo enxergar algum ponto, sem nó nem nós, estas metáforas cafonas emoldurando as vestes, os cadarços sujos, o sorriso assim de lado, com a graciosidade de um besouro ou um camaleão. A fuga dos dias, cafés requentados, minúcias expostas em formato macro, os versos relidos, desgastados pelo tempo dos sentidos que tornaram-se ambíguos, vãos, vão-se trêmulos, encarnados num rompante de reverberações e cismas, um montante inumerável de fraquezas brutas, a ruptura do ciclo, este desfecho reticente, anunciação de veemências e rastros de seus passos no cimento fresco, baque impetuoso, pancada brusca, revés de trovoadas vindas de dentro do que há de mais dentro de suas variações, idéias vagas, rasas razões, hora de partir, de partir-me, um duo de um, apenas um, mais um cigarro e outro e outro e outro café requentado. Que a tormenta desbaste este eco, este oco de protuberâncias ínfimas, e lavre...lavre...lavre...livre inunde...a cadeia das horas que já não nos cabem.
Postado por
Clóvis Struchel
,
20:46
3
Deixaram-se levar...
quinta-feira, junho 23
Como vão as ondas?
Como vão as ondas
Da sua televisão?
O que os outros vãos
Tudo é contramão
Não é nada não
É que eu sou tranqüilo
Vivo com as mãos no chão
Andando com os pés no céu
E essa coluna?
E as tantas colunas
Que já não suportam
Seu peso sem asas
Tomara que caia
E o sabor das brumas
O temor das rimas
O estar por cima
Sem querer gozar
Ainda, ainda...
As tantas lembranças
O trabalho às pampas
Se sujar, se lança
Se for cor, carmim
Caminho na chuva
Sigo enluarado
Mas fazendo sol
Em domingos
E feriados
Postado por
Clóvis Struchel
,
18:25
0
Deixaram-se levar...
terça-feira, abril 12
Desdobrando os labirintos
Postado por
Clóvis Struchel
,
15:52
2
Deixaram-se levar...
segunda-feira, março 7
Embora
Postado por
Clóvis Struchel
,
18:14
4
Deixaram-se levar...
terça-feira, agosto 3
Seu sim
Rude
Mesmo quando diz sim
Não pelo o que há de liberto
Em simplório gesto
Vê-se pequeno
Menor que os insetos
Que sugam suas coxas
E logo rumam pra outra
Seu sim
Espécie de alforria
Brancos libertos
A dizer:
Quase morro
Quando subo o morro
Sim
Som que espalha-se
Por entre as cortinas
Revistas antigas
Canteiros, cantigas
Sim
Prossiga
Em caso de dúvida
Liga
Jamais siga tendências
Elas tendem a desabrochar
Nenhum modo nem moda
Siga atentamente
Bobagem se preocupar
Com o jeito de caminhar
Tragos e conhaques
Esqueça os desastres
Lembre de sonhar
Não cure a ferida
Vil também vívida
Dói dos ralos cabelos
Até o vão calcanhar
Sim
Para travestis e putas
Vagantes, bruxas
E bruxos
Cortiços, luxos
Cantina, bar
Sim
Para o esfarrapado
E o burocrata
Sim sem ensaios
Sem jogadas
Sim
Ah sim...
Pra não negar
O osso
O esgoto
O desgosto
O cachorro
Sem molho
Ou com molho
Pronto pra salgar
O dente doído
Elo corrompido
O pai, o marido
O vão do umbigo
A centralizar
O que há de ser
O que há de sarar
Num tempo quando
Onde, ontem
Amanhecerá.
Postado por
Clóvis Struchel
,
15:49
4
Deixaram-se levar...
segunda-feira, julho 12
O frio e a frigidez
Postado por
Clóvis Struchel
,
17:05
2
Deixaram-se levar...
terça-feira, junho 22
Nu
Postado por
Clóvis Struchel
,
15:02
2
Deixaram-se levar...
segunda-feira, junho 7
O lábio e o labirinto
Postado por
Clóvis Struchel
,
16:55
6
Deixaram-se levar...
quinta-feira, maio 6
Um riso
Um riso,
Postado por
Clóvis Struchel
,
10:29
2
Deixaram-se levar...

