eu hoje revejo os seus versos
e me ponho a pensar em seus badulaques azuis-
cor de mar
somos jovens pra pensar no fim do mundo
foi você quem disse
somos o mundo quando transformarmo-nos em três
que logo depois serão quatro
- eu lhe disse
a chave está com o porteiro
entre sem fazer barulho
eu posso estar dormindo-
acordado buscando
os tons reais do
caminho lúdico
nos sons que
transcrevo
minha cara
no espelho
remete-me
ao tempo
em que
dançamos
descompassos
num dia
de chuva
e de frio
minha cara, minha cara, minha cara
sinta-se em casa...
regue as plantas, leia os jornais
pinte as unhas de vermelho-escarlate
prenda os cabelos, passe um café
ajeite os portas-retratos, ria da minha desordem
experimente usar o meu perfume
e faça um bolo de limão
quando sair
deixe um bilhete-
poesia
e guarde a imagem
dos meus sonhos
azuis
oscilando
entre canções
de amores
multi-coloridos
eu posso acordar de repente
querendo sonhar sonhos seus...
segunda-feira, março 26
acessos
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Deixaram-se levar...
sexta-feira, março 23
dadá
bailavam cegas
andorinhas de inverno
vermelhas e cinzas
como o céu de outrora
e ainda que inertes
ao tempo e ao clima
bailavam bailavam
sorriam pra mim
mas não me viam
ou viam as cores
da alma que é minha?
ou não sorriam
tratava-se apenas do vão irreal
de minha mente já posta à venda?
ou era fuga do marasmo vivo
num riso de andorinhas vermelhas-vermelhas?
ou eram cinzas dos dias mais quentes
disformes no frio de um vôo só meu?
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Clóvis Struchel
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13:47
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Deixaram-se levar...
terça-feira, março 13
Carta para os novos dias
Por hoje quero apenas este dia ensolarado, por hoje quero esta tarde, quero este mar, quero a canção bonita da Gal, quero o poema florido de Alice, quero caminhar no Arpoador, quero brindar o crepúsculo e voltar pra casa sem pressa, percebendo as pessoas, enxergando as munuciosidades que, ao seu lado, eu jamais perceberia.
Por hoje, eu já não te quero.
Por hoje eu decidi me querer.
Por hoje olharei no espelho e direi "Eu te amo!".
Por hoje escrevo para não pensar em você, para não viver em você, para não escrever pra você.
Hoje, suavemente, já percebo com clareza o quanto é essencial, sublime e renovador, deixar as lamúrias num canto, respirar fundo, e tirar uns dias apenas para se amar intensamente.
E eis que, de repente, as brisas são afagos, os ares são mais leves, o céu tem seus próprios tons, e nossa...o mar é poesia.
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Clóvis Struchel
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13:39
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Deixaram-se levar...
domingo, março 4
de nada
meu poema não é pra você
não há poesia em sua boca
não há poesia em seu beijo
não há poesia em seu seio
não há poesia em você
não há poesia em mim
não há poesia no amor que vivemos
não há poesia
nessa poesia
então eu fico por aqui
sem poema, sem poesia
sem dilema, sem alegria
sem teoremas, sem teorias
sem dores, nem choros
nada de gritos, nada de esporros
tudo pra chegar ao nada
meu poema é sobre nada
e é tudo o que posso dizer
meu poema não fala de amor
meu poema não é pra você
sinto dizer,
mas não é.
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Clóvis Struchel
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14:58
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Deixaram-se levar...
domingo, fevereiro 4
Leve
um surto de loucura se instala
na sala um trem invade minha televisão
espasmos de memórias
histórias
bruxas e fadas vindo pela contramão
susurros e gemidos
vozes em meu ouvido me chamam pra sair
lá fora chove, é madrugada
asfalto molhado
passos rumo ao tudo e ao nada
poemas deixados num canto
encantos milenares bailam ao meu redor
olhares atentos de deusas e putas
conhaques, berros, fodas
corpo enxarcado de chuva e suor
sementes não mentem
há vida lá fora
há vida aqui dentro e um bocado de sangue
estanque este amor, minha maior loucura
mas deixe a minha vida intacta...socorro!
se o amor morrer eu morro
se o amor morrer eu morro
e eu quero esta dança
insanidade e caos me deixam tão leve
e eu quero dançar, eu quero esta dança
mesmo que seja breve, mesmo que seja breve
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Clóvis Struchel
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13:40
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Deixaram-se levar...
domingo, janeiro 28
Sereia Urbana
Gritos num dilúvio
de suores, de suores
murmúrios, os melhores
desde sua adolescência
Era morena
seus seios cabiam nas mãos
pequenos, redondos
profundos, os melhores
repletos de malemolências
Dançava pra ele
despia-se feito uma sereia urbana
falava de conhaque e de umbanda
pedia grana, queria jóias
Jóia rara a morena-sereia
Se encontravam na Lapa
noites quentes, noites quentes
num quarto abafado, no fundo de um beco
amavam-se com fome de amor
ele mais que ela, mas isso já não importava
ele a amava
Conforme passaram-se os dias
monotonia tomou conta da sereia
[urbana
já não queria carro, já não queria grana
pensava em samba, em boêmia
ele a queria, ela se foi
Nas noites insanas
a procurava pelos bondes
pelos bares, pelos becos
em todos os lugares
Morena-Sereia de seios redondos
partiu, não deixou carta, nem beijos, nem planos
Enlouqueceu de amor por ela
amava a sereia com todo o clamor
nas pedras do Arpoador, jogou-se no mar
e quis nadar com a sereia
brincadeira louca
morte mais insana
a sereia sambava e sorria no asfalto
era uma sereia-urbana
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Clóvis Struchel
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13:57
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Deixaram-se levar...
sábado, janeiro 20
reflexões em dó maior
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Clóvis Struchel
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