segunda-feira, junho 13

O fotógrafo

Depois dos tropeços ébrios, infante desfiz trovões. Após densidades, adversidades, sigo na avenida incólume. Vejo, eternizo, dou um clique. Passo, há um passo há um grafite. Lembro das nuances de umas ancas. Faço, aprimoro, a luz é branda. Fragmentos de outros carnavais, raridades protegidas de tais temporais. A imensidão que fito, o silêncio de um vento leste, soberbas postas a mesa, conhaques, cigarros acesos, no jornal a economia é um erro, não ligo a tv faz tempo, leio Manoel, Leminski, Chacal, tô mais pelo mar que pelas tabelas numéricas, três cliques, quatro cliques, cinco, a lida, a labuta, o tecer da vida, o entardecer há de ser tão lírico que haverá de ser emoldurado...

Clóvis Struchel

Música

Aflorar meandros
Dissipar o ódio vândalo
Resolver anseios
Estar sempre inteiro
E nao mais partir ao meio
Culminar auroras
Esquecer as horas
Ser par
Ganhar vintém
Abraçar alguém
Voar
Ir mais além
Desfazer desdém

Só quero amor
Love amour
Amore
Levo um verso no bolso
E pétalas no outro
Só quero aloha
Liebe ni hefe
Niedfe
Corações que se erguem

domingo, junho 12

PrayOrlando

O ódio cego
Que dilacera
E ensanguenta
Bizarrice cinzenta
A quem só quer dizer teamo

terça-feira, junho 7

Garrafas

Pra aprimorar nuances que caibam no fulgor dum presságio, dar tons de auroras incandescentes no intuito do verbo. Pra sorver os instintos ferinos, bascos, enumerar cada mosaico abstrato. Pra culminar girassois e quimeras, fulgurar do sentido seu brio mais cintilado. E no torpor enaltecido vislumbrar o encanto pleno, deixar soar verso sereno, oriundo, que aninhe o tempo e o casulo, o breu, o obscuro, dar luz ao lúdico. Intuito. Lançar garrafas nos mares do mundo.

Clóvis Struchel

Ainda

Para o romper do tédio imponho uma inclinação impropério divago um som sem mistério deflagro um tom de impérios. Para a exatidão do sentido refaço o movimento contido explodo extrapolo os brios de certo aprimoro e sigo. Para a nuance instante preciso aciono um regar de margaridas exponho sonho seco as feridas movo refaço o novo ainda.

Clóvis Struchel

Do verbo Delírio

Ode a Manoel de Barros

A rima
Que unifica
A ordem lírica
Dos fragmentos de lumes
Trepidações de costumes
Do valoroso rimar
Claridao
Clamor
Condutas
Oscilações oriundas
Do verbo em si delirar

segunda-feira, junho 6

Findou

Acabou
A arruaça
O dissabor
A desgraça
Sim, findou
A ressaca
O fervor
Que se instala
Terminou
Toda a tara
Trepidou
Cessara
Nunca mais
Tanto faz
O romper
Da toada
Vai daqui
Por ai
Pega uma estrada
Nao sou teu colibri
Sai da minha sala

Marasmos

Do marasmo
Fato
Rastro
Das medidas
De um conhaque
Um momento
Um tom relapso
Preenchendo
Um peito farto
Refazendo os mesmos marasmos os mesmos marasmos os mesmos marasmos

Imagem

Percalços
Divergindo o verso
Incauto
Todo o movimento
Dos carros
Arde
Nostálgico
Um jazz enaltece meus poros
Cilindros
De tramas
De empórios
Visão de senão
E além mar
Vistoso
Fragmento
Sórdido
Trôpego
Os zelos tão nossos
Malogros
Desfazem-se
A arrebatar
No denso fulgor
Na rotina
Café
Cansadas retinas
Milagres em par
Elucidam

domingo, junho 5

Verve

A verve
O fluxo
Lépido
O instante
Que precede
O sexo
Fulgores
Suores
Febres
E que seja eterno
Enquanto breve

sábado, junho 4

Grafites

Com sono
De dias idos
Por becos esquivos
Liricos
Durmo e sonho
Com becos esquivos
Líricos
Acordo
Sigo matutino
Jamais findo
Este verso contínuo

Dentro da sua blusa

A poesia é uma solidão confusa
Parece que tem alguém
Dentro da sua blusa
Pegar um trem
Não tem vintém
Partir, chegar
Perto de um rio
Em algum lugar
Morrer de frio
Sentir saudade
Dar um sumiço
Se embebedar
Ter fé, ter par
Não ter declínio
Aquilo, isto
De Deus eu não duvido
A poesia é o emoldurar da plenitude
A poesia é isso


Ser teu

O frio
Que dá na nuca
Quando suas mãos
Perpassam
Delírio que continua
Iluminados pela lua

O clima
A conversa solta
Dos corpos
Nenhuma roupa
Indecentes palavras no ouvido
Instinto ferino
Preciso

Vem olhar o mar
Comigo
Eu vou te contar
Estrelas
O romance definido
Do amor
E do que seja

Vem emoldurar
Meus versos
E iluminar meus breus
Vem to cada vez mais perto
De ser teu

sexta-feira, junho 3

Versos nossos

Robusto
Astuto
As vespas
Já não ladram
Rancores
Não me abalam
Ternura
É jardim de praça
Conjuntura
Milenar
Que arde
Presságios
Me arrebatam
Cata-vento
Seca o sal
Do tormento
Da minúcia
Do argumento
Da labuta
As coisas gurias
Me elucidam
Alquimias
Brados
Asas abertas
Um timbre rouco
Dum soul
Se esmera
O beck
O pileque
A gargalhada
Em alarde
No apogeu
Destes ares
Há versos nossos
Por toda parte

Hit

O que impregna-se, lampeja, desfaz discórdia. Soberbas inglórias. A cura da culpa. No ressoar de um brado, cíclico e cintilado, rompendo a aspereza, tomo um drinque, ponho um hit e danço em cima da mesa.

Clóvis Struchel

Durante

O cheiro
Que arrepia o pêlo
A fala
Mansa
Emoldurada
O lance
Fixo
Constante
Toda aresta
Cada nuance
O lapidar do amor
Constante
Nos dois o mar
O horizonte
O seu olhar ali
Defronte
No beijo
Sou mais feliz
Durante

Clóvis Struchel

Olhar

Os olhos fitam
Contemplam
Enumeram
Vislumbram
O prumo
A métrica
Os olhos atentos
Enxergam
Dilatam
Fluem
Desnudam
O mirar
Meus olhos
Gostam
De te olhar
Meus olhos
Gostam
De te olhar
Meus olhos
Gostam
De te olhar...

Postes e muros

Chego perto. Olho o verso. Cheiro a pétala. Plenitude reverbera. No jardim silábico rego cada palavra: aurora, penduricalho, fulgor, sentimento, presságio, néctar, etc. Planto no chão a trama envolta. Hão de brotar ressonâncias, ritmos, climas. E vou colher com as mãos, sentir cada aresta, nuance, detalhe. Poema pra emoldurar, se colar, para quem for, pra quem passe, impera, plana, invade, em postes e muros dessa cidade.

Clóvis Struchel

Estado mar

Num estado mar
Tais oscilações
Naufrágios
Piratas
Ressacas
Nos pés
Grãos e conchas
Num estado mar
Marés
Manhãs
Com neblina
Estágio sargaço
Uma musa marítima
Versos nadadores
Tao molhados
Mergulhados
O pescador
Que vai navegar
Lançar sua rede
Labutar
Frases cintilam
Vozes confirmam
Vibram
Vindas de lá
Num estado mar
Estado mar
Mar

quinta-feira, junho 2

Conjuntura

A sensação de feriado
De um luck strike mentolado
A densidade
O rastro
A culpa
O demorado
O breve
O nunca
Sobressaltar
Sublimado
Gestos do sol
No telhado
Momentos sós
E calado
Ou junto muito
Ilhado
Na ruptura
Do ódio
Na conjuntura
Do signo
O universo
E seu ciclo
O ter
O ser
O ter sido
Variações
Climáticas
Ligo a tevê
Desgraças
No ardor
Da estrada que tange
Uma dor ainda urge
Laços
Cláridos
Sísmicos
Tempo é ido
É contínuo
Contexto e mais uma estrofe
A trama evapora-se

O mar ao lado

Incauto
O mar ao lado
Fumaças
Declínios
Outrora
Um poema
Que dilate
O impasse
Tempestade
Que rega
Meu corpo
E floresce
Enaltece
Prevalece
O verso preciso
Conciso
Das mãos
Que jamais
Se perdem
Das almas
E intempéries
Do brado
Do laço
Da pele

Espécie de transe

Sua nuance
Tange meu rosto
Em instantes
Irrompe os rompantes
Drinques
Papos
Delirantes
O sumo
O néctar
Defronte
Nós dois olhando
O horizonte
Sua mão cola na minha
E eu desconcertante
Te beijo sem freio
Durante
Clímax
Instinto
Relance
Brado
Espécie de transe

quarta-feira, junho 1

Verso amassado

Conforme marasmos desfazem-se, informo sobre o luar. Indago, reverbero, ando assim meio esquivo jeans blusa branca tão adentro das multidões. E de alquimias e lumes transcendentes, um rouxinol até me emudece, um verso amassado refaz toda a trama. No clímax, apogeu, pista plana, momento, o meu caminhar desnuda-se no movimento.

Imagina

Imagina a aurora
Uma roda gigante e pipoca
Toda aresta em volta
Nosso beijo
Toda rebordosa

Imagina a trama
Nuances de girassois
Nossa cama
Rompantes de rouxinois
Tudo clama
Pelos detalhes de nós
E chama

Imagina
A lira
A lida
Límpida
Imagina
Imagina

Imagina
Em par
Avenida
Só nos dois
Imperando o clima
Imagina
O fulgor
A magia
Imagina
Imagina

Rascunho oriundo de cafés

Como qual fosse tormenta, voraz, trovões arrebentam. Frenético movimento. Turvos tambores dilatam. A ressonância cintila, o tal clamor cessaria, dúvida e dor romperiam, no ar fulgor de impecilhos. Numa avenida esquiva, atravessado e com versos vivos.Na flama, lida, contínuos dias, clamo por planos de calmaria.

Ritmado

Não espere da poesia
Se não houver
Folia...

Companhia

É uma questão obtusa, de preenchimentos ébrios, contemplando nuances, reverberando latitudes. O mar bravo bate nas pedras, pensamento difuso, um amor obscuro, incauto, denso. Turvas brumas, um cigarro, miragens, fluxos, o tilintar das idéias fluídicas, horizonte laranja, uma crença, uma fé que valha, no seguimento das horas, na contemplação dos Deuses, na ruptura de breus, no corromper das condutas dúbias. Divago, mais um cigarro, o barulho do vento é o silêncio que escuto. E diz, proclama, dita. O rumo, o prumo, a lida. Fito em coisas miúdas, gurias. E tão somente só, sinas minhas, quando o compor da vida é sua melhor companhia.

terça-feira, maio 31

Manhã com neblina

A manhã com neblina e suores dos amantes, que ora salivantes, se mordem com fome. Uma canção pop. Café, seda, frestas. Fragmentos das suas arestas, sorvendo o clima que impera. A lira, a lida, a festa. O verso que se rebela. As maiores verdades da vida estão escritas na testa.

Clóvis Struchel

segunda-feira, maio 30

Rascunho noturno

Não seremos vorazes, os impasses cessaram, no romper das nuances, tange, aviva, dá cor aos olhos. E ainda que chova, monumentalmente, mesmo que houvesse música, daquelas únicas, não haveria beijo, transa impetuosa, tão somente alguma conversa ligeira, dois pedidos no bar perdido: uma cerveja e um suco de manga.

Haikai

Goteja
Na folha morna
Lágrima seca
Adorna

Tudo bem

Tá tudo bem
Não tropeço nos silêncios
Saudoso, ímpar
Sereno
Na turbulência
É só sendo
Nas intempéries
Do tempo
Alinho
Passaredos
E tenho medo
É das vírgulas
Que mudam rumos
Desnudos destilam
A madrugada é minha lira

Clóvis Struchel

Faros

Nua
De certo
Em suma
Crua
Ainda havia lua
Pra iluminar seus rastros
No tilintar de auroras
Torpor
Fulgor
Outrora
Vertente que aprimora
Meus faros

domingo, maio 29

Esmero

Robusto
Contudo
Impero
E esmero
As tais latitudes
Fragmento ébrio
Olhar penetrante
Me tirando o sério
Delírio, rompante
É você que eu quero

Clóvis Struchel

Primavera de junho

Contudo
De sobressalto
Me impulso
No lance
Transe
Assunto
Na voraz lira
E difuso
Acerto a mira
E vou junto
Pra primavera de junho
Pra terra de seu Afonso
Pras águas das cachoeiras
Ligeiro
Verdade
No cais da sagacidade
Me ergo

Sinos

Resquícios
Marasmos
Cíclicos
Brados ínfimos
Senões
Ímpetos
Densidade
Instinto
Do alto ardor
De um vinho tinto
Tramas urbanas
Canções na cama
Toques vívidos
Límpidos
Ouviram-se tocar sinos
Na sutileza que insisto

Pra gente

Cigarro aceso
Pensamento terno
A vicissitude de um verso
É eterna
A protuberância do sentido
É etéreo, pra sempre
Há poemas que falam de todos
Já outros só dizem pra gente

O compasso visceral do tempo

Esta vertente inebriada da noite, torpores, intempéries, o afago preciso, esta brisa, esta música, a aurora linear que se inunda, no percorrer das horas idas, fluídicas, fragmentos de versos não lidos pelas retinas difusas dum amor tempestuoso. E o compasso visceral do tempo, aninhando, fluindo, sentindo, sendo...

Bug

Alinho
Costuro
Reconfiguro
Inauguro
Um coração com bug
Dum tal amor obscuro

Fresta

Na esfera
Docente ardor
Que se esmera
Fulguração
Que interpela
A mansidão
De uma pétala
O lapidar
De uma pedra
Juntando todas as peças
Desabrochar de arestas
Te ver desnuda, em festa
Por um detalhe, uma fresta
Entrar, deitar e me empresta
Este calor que rebela
Efervescência na certa
Me tremulando as pernas

sábado, maio 28

Brados

Fatigado
E os brados
Das pernas
Ora bambas
Rumam
Prumam
Voam
Num compassar
Destemido
Indago o sol
E prossigo
Infante
Ébrio
Sucinto
Neste relevo
Planície
Onde as tempestades
Residem

O que vai fazer no feriado

Não sei
Quanto aos seus cabelos
Ondulados
Nao sei
Eu nao sei
O que vai fazer no feriado
Talvez
Do seu jeito de olhar
Sei um bocado
Nao sei se lê sartre no sábado
Nao sei suas fomes
Seus medos.
Refaço indago teço
Impero reverbero um recomeço
Apenas saber seu nome merece um poema inteiro

Jazz de nostalgia

É relevante
O transe
A voz rouca
Da cantora
Num jazz de nostalgia
Os nossos drinques
Acesos os cigarros
Tramas urbanas
Jaquetas jeans
Um turbilhão de desejos
Nomenclatura de anseios
É visceral
Âmago
Transcendência
O mirar de um Farol
Distante
Iluminando tais corpos
Arfantes
Molhados
Entregues
Ao mar
Ao vento
Ao tempo
Ao breve

Pintor de telas

Um poema esquecido
Num obscuro brilho
De tilintar nuances
Um poema atrás da porta
Num envelope
Debaixo de um tapete persa
Poema de fulgurações
Demandas, senões
Poema de infante
Poema inca delirante
Poema sucinto
Nas indagações
Um poema rasgado
Robusto e embriagado
Para amansar leões
Para emanar multidões
Num bruto ardor de poeta
Poema solitário
Voraz e memorável
Sozinho como um pintor de telas
Que em um só traçado
Refaz com astúcia, mirado
A nuance do rosto dela

Vibe

Na vibe
Todos são azuis
Ou liláses


Encontro basco

Um encontro basco
Inebriado
Embriagado
Eu fiquei mudo
Você calado
Os nossos olhos
Incendiavam
Corpos sedentos
Rostos colados
Quanto as palavras
Que dissertávamos
Tramas urbanas
Um traço, um brado
De certo em suma
Enluarado
Por entre as brumas
De tais presságios
Na mente um clímax
No peito um baque
Lépido e denso
O movimento
O argumento
Similaridade
Estremecimento
Em tal fragmento
De voracidade

sexta-feira, maio 27

Nossa foto na mesa

Chegou e desperdiçou palavras
Como se o silêncio compusesse o tom
Desmedido
Fugaz
Brado intrínseco
Pediu um café sem querer
Acendeu seu cigarro de artista
Com seu nike surrado de pista
Pernas gurias, estremecidas
Derrubou nossa foto na mesa
Derrubou nossa foto na mesa
Derrubou nossa foto na mesa
Derrubou nossa foto na mesa

Noite dos gatos persas

Na rebordosa
Impondo o clímax
Das horas
Defronte
Instinto
A relevância
O vinho tinto
O sobressaltar
O brilho
Dos olhos mouros
A me fitar
Nas avenidas góticas
Rompendo a barreira
Da glória
Pra sermos nossos
Agora
Num bar num pub
Retórica
Te aninhar
E vambora:
A noite é dos gatos persas
Suas pernas
E tramas
A cama flutua
Entrância
De rimas
Fluídicas
Únicas
Proeminentes lisuras
Sem juros ou juras
Aquém das rupturas

As margaridas

Aprumo um jeito
Meio ao meio
Envolto
Algum receio
Não trovejo
Deixo o sol dar cor
Ao beijo
E se te vejo
Rego as margaridas
Do caminho

Poema ao relento

Uma palavra
Não soará
No tempo
Poema ao relento
Pra plantas silvestres
Mas o sentido
Este tal Deus destemido
Estará presente
Nos poros
Vísceras
Vestes
Aprumará um presságio
Quanto a palavra
O poema de folha rasgada
Apenas regarâo nascentes
Mas nada
E fulgurarão
Eloquentes
Na importância do poema presente
Transpirado
Aprumado
O poema largado
Por entre poeiras cósmicas
Lavrando a lama das botas
Livrando o caos e a discórdia
Do Sol e todas as notas
De um instrumento de cordas


Presságios ébrios

Toda astúcia
Divulga
A inauguração
Da lira
Tambores
Clarinetes
Saxofones
Rompem tédios
Anunciando intrépidos
Presságios
Ébrios  

Uma canção antiga

No silêncio da noite, um jazz rouco dispara na sala. Pensamentos soltos, distantes de agouros, na cintilância do tempo ora caos ora dengo. Me reverbero e me rendo. Não julgo astúcias ou delirios. Na estrada cíclica divago entre carícia e a vida, despida, desfez os nós dos tropeços...
A lira é lívida, certeira.
O amor uma canção antiga que diga:
Tomara que faça sol nas noites turvas e com brumas e com comentários do tipo eu não te conheci assim.

Clóvis Struchel 

quinta-feira, maio 26

O barulho que a chuva faz

Deserto
De certo
O verso
Nomeará
O verbo
Chuva
Chuva
Chuva
Neste teu lábio
De alvorecer
(inunda)

Jazz

No rompante de indagações
Me ponho a ladrar senões
Ligeiros impasses
Livramento de desastres
Alcunhas para honrar
Na lida
A mente erguida
Corpo moído
O dente sisu lateja
Defronte
É madrugada
Um conhaque
Um dopante
Uma baga apertada
Insinuante
Longínquo
Perto
O bastante
Na mesa ao fundo
Sorvendo
Cada clímax e delírio
Na batida jazz
Um viés sucinto
A cantora bêbada incita
Nada a temer na vida
Um gozo, uma trama
Escrita

"o mar quando quebra na praia"

Ode a Caymmi

Da nascença
De um apogeu
Duma crença
Insisto na dança que emana
Derrama
O pesar
No mar eu fico
Com onda sereia ressaca
No mar e em mergulho
No mar eu me fulguro

Das idas de Santiago

Fragmento
Uivo e ouvo o tempo
Madrugada
Terapia
É lavar louça na pia
Despojada
Disporia
Num arranha-céu
Arranharia
Mira
Te ligo
Te vejo
Dois ou três
Ansejos
Milhares de vendavais
Teço
Do pôr do sol eu amanheço
Aqui entre nós, presságios
Debaixo dos prós,  arpejos
São mil relevâncias mesmo
Das idas de Santiago

sexta-feira, maio 20

Lampejo e sorte

Intrépido
Ligeiro
Desfazendo receios
Sem freio
E voraz
No suntuoso lume
Que dispara em feixes
E cada vez mais
As malas prontas
Peito aberto
De certo
Será climax
Impero sóis
Eu quero bons presságios
E ventos sublimes

O reconvexo
A jura
O senhor do bomfim
Apreço ébrio
As fulguracoes de um jardim
Nuances pares
As notas de um bandolim
Lampejo e sorte
Os Deuses que estão aqui

terça-feira, maio 17

A silaba

A silaba astuta
A silaba beijo
A silaba turva
Prevejo
A silaba solar
A silaba mar
A silaba soar
No ar
A silaba moura
A silaba louca
A silaba branda
A silaba dança
A silaba espasmo
A silaba espaço
A silaba fardo
A silaba sábado
A silaba voraz
A silaba paz
A silaba chuva
A silaba rua
A silaba negra
A silaba seja
A silaba veja
A silaba incita
A silaba
A silaba
A silaba

domingo, maio 15

Trilha fincada

Madrugada. E os lábaros das foices que aniquilavam os tormentos cessaram num ímpeto. Já não se ouviam as vespas, e os minutos soaram em imensidões de estremecimentos, tal como o corpo mergulhado em vigor de tal prazer sugerido. Na fulguração das cismas. Estas intempéries do acaso desfolhando impressões. Deste outono orvalhado, tal qual seria o imo desta estação. Do amor fez-se a colina. Dos dias passados, o alcance e a trilha fincada. Nesta busca que insulta a razão. Os Deuses são chamados por nomes de rios. Trovejam e inundam os rios. Os Deuses são chamados. Pulsam. Afloram.  Destinam-se. Transbordam. A massa é pura solidez de ferro ou louça. Divina é a sutileza. Esta que não apruma os jeitos.  

O sexo

Entre rimas calidas
Brados causticos
Berros épicos
E suores epiléticos
Deixemos urgir, surgir, fluir
O sexo

sábado, maio 14

O baile dos sete mares

Um conhaque
Um trago
As suas retinas
Marasmos
Eu fumo um cigarro
Outros vários 
Algumas meninas
Me invadem 
De certo embriagado
Um samba que toca no carro
O mesmo sentido
Desvario
Respostas
Que as horas me trazem
De novo um novo conhaque
Lembrança a toa
Um embate
Teu corpo
Teu dorso
Tua margem
As fulgurações
Um alarde
O samba compassa a voltagem
Delírio
A pele que arde
De novo e de novo um conhaque
Os Deuses convidam pro baile
Dos sete mares
Que seja miragem
Ou arte

Ensaio sobre o mar de abril rascante

Caro leitor
Destes de almanaque
Tratados, ensaios
Os que veneram romances
Com poesia entra em transe
Se tem novela é seu lance
Carissimo
A rua até poderia rumar um mar de abril rascante a rua até poderia aprumar um mar de abril rascante a rua leitor poderia emoldurar um mar de abril preciso a rua até poderia enjeitar um bar de abril rascante a rua até poderia aprumar um bar de abril rascante um bar de abril preciso um mar de azul fulgurante a rua até poderia rumar um mar de azul rascante um abril delirante a rua até poderia rumar um mar defronte a rua até poderia entornar um bar de abril dançante a rua até poderia rumar um mar de abril rascante.
E seja o quanto antes.

Benegrip

Texto de 2012

Porque te encontrar foi me rever num foco que ampliava as beiras dos meus horizontes, deixando transparecer o que estava além do presumido, pincelando de arvorecer minhas tardes de terça, e remontando o castelo de lego em multicores, fixando a princesa no alto da torre. Foi emancipar terrenos antes habitados por ratos andantes de pés encardidos, e fulgurar desejos de um filme abstrato com trilha do Otto. Emoldurando as vestes. Me vestindo de astúcias, dúzias delas. Foi como falar comigo, olhando as minhas retinas por sete minutos. E assim me ouvir cantando “Tatuagem” ou “Wake up Alone” num bar vazio numa noite cinza, quando os desamores rebelaram-se turvos, e o meu repertório validava as somas. Foi tudo ao contrário, como planejado. Sem forma de poema. Prosa. Sem maneiras ou modos. Samba. Suor. Vento no rosto. Itinerários. Coisas simples e sem adereços, que nem cabem por sobre linhas. E não impõem epílogos, nem almejam lirismos. Flui. Adiciona. Converge. Explode. Já não tenho tempo pra desfechos. Prosseguir é tudo que me transborda. Eu danço embaixo da chuva. Ileso. Você me traz benegrip e eu curo. 

sexta-feira, maio 13

Bacon e perna

Fragmento
Tua perna no tempo
Quando vejo de longe
Pareceu-me bacon

Lentamente
Fito, fixo, entendo
Cada qual com sua tara
Cada um com sua era
Mas o meu remelexo
Seja bacon e perna

Rimas tolas

No salto
Um passo
Deixa o lastro
Descalço
Incauto
No torpor
Refaço
A linha
O traço
Bebo gim
Quebro pratos
E me mato de rir

quinta-feira, maio 12

Todo mundo

Todo mundo possui os seus medos
De escuro, madrugada
Todo mundo finge que não sabe de nada
Todo mundo espera meio em cima do muro
Todo mundo
Todo mundo

Todo mundo alcança, mas não sabe o que
Todo mundo é cantor de karaokê
Todo mundo manda e todo mundo finge obedecer
Todo mundo sírio
Todo mundo sério
Todo mundo loiro
Todo mundo hetero
Todo mundo carnavalizando
Fora dos seus carnavais
Todo mundo estranho
Todo mundo trôpego
Todo mundo tamanho
Todo mundo caustico
Todo mundo infante
Todo mundo quer beber refrigerante
Aos sábados
Todo mundo de Caetano
E de Ciclano
Todo mundo é farto
Copo americano
Pra medir o fubá do bobó
Todo mundo novo para sempre
Todo mundo louco às vezes
Todo mundo vendo novela das oito
Todo mundo odeia ser como todo mundo junto
Todo mundo já previu o fim do mundo

Todo mundo já quis ser senador
Todo mundo odeia política
Todo mundo acha que é doutor
Todo mundo fez recuperação em física

Todo mundo sonha com o amor
Todo mundo manda alguém embora
Todo mundo surfa no Arpoador
Todo mundo quer e quer agora

quarta-feira, abril 11

Pois se

Chovia
E assim
Como nos dias destes
Gotículas choravam sobre os fios
Chorava o dia
Inundado de noites
Pulsando agonia
Revivia o sonho
Da quimera de outrem
Na ventura do signo
Ascendendo energias
Primas
Secundárias das trilhas
Que passamos por cima
Da torrente e porque não...
Da vida?
Que, estremecida,
Fulgurou o momento
Do tormento, a temida
Rancor, tédio, pneumonia
Transmutou, pois se viva
Sim, amanheceria
(chovia
Chovia
Chovia
Chovia.)

domingo, abril 1

06:29 AM

Saciada
A mente
Indaga
Crente
Que seremos
Somente a semente
E não a razão
Risonha, A vida
Partida
Urgida
Criada e querida
Vivida
Que um dia, vinda
Ainda ainda
Batendo firme
Se sim se não
Redemoinho
Vento, caminho
Quase tocando
A exatidão.

quinta-feira, março 29

Pastor de ovelhas negras

Era canção que soava. Canção de chuva. Emaranhada, torpe, viva, morrendo a lama seca do asfalto corroído por passos insones. A vida, esta vida, a sua, a minha existência emana, flui, flora de matos distintos, a malícia das cartas, te amo te amo te amo te amo ass: foda-se. Ainda trago este ranço, e o sorriso manso rimando com ódio. Decido: Parto. Nascido o temporal, temperatura amena, a do vinho, cor de sangue branco, disformes tramas, tantas, tamanhas dissimulações, verdades feito feridas expostas, brotando pus, nojo, ojeriza, vômito, porra, PORRA! Vagante da lua, durmo em cima do telhado de casa, à espera do sol, este casaco nu, verossímil, fotógrafo. E as canções? As cançãozinhas? Os cães latindo, aperte o REC produtor, mosca na sopa, me chama de chão, pisa, sou seu alicerce, após cuspir em seu olhar que chora, meu cuspe, minha saliva, sua lágrima sou eu e vice-verso que lhe indica: A BUSCA É PERTO, ALI, EU FUI, DENTRO. Assombrosos pesares, família e caos, família e domingos, beijo de mãe, de puta, travesti, viado, frei, pastor de ovelhas negras, fãs de Amy. Não choverá, não mais. E quanto ao cais? A espera? Brusca?Busca?Rimas? Crônica?Poema?PORRA!PORRA NENHUMA! Um café, um cigarro, “nem palavras conseguem mais amenizar”, escute-se, vou te deixar quieto aí, assim ó: .......................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................pairou....tédio....saudade....ciúmes....cinismos...............pairou......o tempo, choveu, nasceu, brotou, exalou flores, murcharam, reguei, floresceram, morreram, plantei novas margaridas, amarelas, heróicas, frágeis porém....amavéis....pairou.....sim....a astucia, medo, coragem, vício, vicissitude, porradas, tapinhas, breus, postes acesos, manhãs nubladas de um verão infernal, pairou...porra...pairou, sim...isto, respire, mais uma vez, assim ó: .......................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................pairou, sentiu? Mesmo? Como? Sim, bastante. Fumo, bebo, fumo mais e mais e mais e bebo um tantinho.......estou ansioso, caramba, ansioso, e o desfecho? Onde? Cuma? Pairou......o grito inaudível...assim ó: AAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH, assim mesmo. Pairou, pára vai, pairou aqui, a cisma, a crista da onda, a bula preta, violão de aço, voz de nylon, nylon grosso, porém fino, como aqueles que inala e flui percebendo a fumaça mesclando-se à neblina, imunda dos suores dos amantes madrugais, em camas sujas de motéis imundos. Pairou, porra...pairou....a febre, a dor, a posse, a capa do livro mais besta, tipo mulher besta com bunda besta a nos abestar, pairou....pairou...repetindo, repetindo, repetindo...até que não entendam, não irão entender, sou imbecil oras, pois incompreensível, que merda! Merda! Não entenderão. Pairou, pairou, pairou, pairou porra. PORRA NENHUMA!

Alívio,
E aos seus.

Comigo,
CS

quinta-feira, janeiro 19

ÂMAGO

"ÂMAGO", MEU PRIMEIRO ROMANCE, JÁ ESTÁ DISPONÍVEL PRA COMPRA NO SITE DA EDITORA MULTIFOCO E EM ALGUMAS LIVRARIAS. ADENTRE, MOVA, ENCHA A TAÇA, O COPO, O CORPO, A METÁFORA ENFADONHA, AMOR IMPETUOSO, FERVOR LÍVIDO, COBERTOR, FOLHEIE RESPONDENDO, QUE EU TE EXPLICO PERGUNTANDO. COM QUANTOS 'EU TE AMO' SE COMPÕEM UM VAGO FOLHETIM?


GRATO! FLUINDO! IMPACTADO! E NATURAL...
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IMPRENSA



VARAL FULT: O multitalento de Clóvis Struchel




http://varalfult.blogspot.com/2011/10/o-multitalento-de-clovis-struchel.html

quarta-feira, novembro 2

Umbigos

Ainda penso. E as idéias que antes divagavam entre o ócio e a poeira
das palavras, agora desembocam neste sobressaltar de dois ou três
segundos em que os olhos se encontram e se perdem, se pedem, e então
rejeitam qualquer migalha de certeza sobreposta de passados e futuros
que, em você, confundem-se lineares aos meus fragmentos de presságio.
Como quando te quero sobressaltadamente, e logo te extirpo do meu
rosto, cabelos, mãos – já não sabem onde tocar -, lábios, braços,
jantares e feriados. Porque também focar, e já não ser somente o foco
central que se permite acenar e sorrir de banalidades assusta e
reverbera esta minha ânsia de jamais querer o seu casulo, seu abrigo,
sua casa de palha, madeira, cimento. Então assopro, até passar, passa.
Não acho natural, conveniente, palpável, me embrenhar em seu pescoço
desvendando suas montanhas, estradas, vales escondidos, naufrágios
póstumos, não reconheço as siglas, senhas, fendas, e em mim impera
uma frieza dissoluta que ora alterna em calor viril e logo dissipa,
arrediamente, reinando o inverno da Islândia nos meus desvarios de
lord inglês, que mal te percebeu num primeiro, segundo, quarto
momento, e não perceberia não fosse o seu ímpeto de sempre enxergar
nitidamente o que está além destas retinas fatigadas de tantos outros
que, juntos, não formam sequer um mosaico abstrato nas suas tentativas
de supremacia, rente aos meus oásis, lambendo de sede a minha língua,
fulgurando as tentativas de escape, o que não estava ciente é a
vitalidade da minha presença em seus traços, cores, formas,
inspiração. Como se a musa das minhas melodias construísse
visceralmente cada aresta meticulosa desta tela íngreme e revestida de
sutilezas que você esboça com a minúcia de artista besta que confunde
aplauso com companhia e amor com repúdio. Porque ter em tese o mundo
aos teus pés te impossibilita de estar nas mãos de alguém, e a gente
entende dessas coisas de lapidações, veemências, brados, cismas,
raridades. Porque comum é o amor, corriqueiro, arcaico. Amo, talvez. O
seu umbigo e o meu. Talvez, sim, sejamos absolvidos por ousar o
simples. O próximo. O possível. Fomos gerados por infinitudes, e ainda
não sabemos onde terminam os nós e desabrocham os Eus. Onde se
encerram os sustos e recomeçam as tramas. Embevecidas de gim, café,
conhaque, aspirina. Calendários, calores, carícias, inícios. Como
quando o mapa-mundi do meu corpo te transforma em universos e planetas
que só eu sei o nome. Caminhamos em outras luas. Outros mistérios.
Enquanto seus abismos amortecem os meus passos. E as
minhas fugas, ironicamente, confortam suas faltas.

quarta-feira, outubro 5

Me dá um cigarro

Deu a última tragada, lançou a binga como num arremesso frenético o qual se pretende fazer uma cesta de três pontos, aquela que salvaria toda uma partida visceral e ofegante, em seus últimos instantes de bola quicando, pegou do bolso o maço já amarrotado e roto e, sem encarar por mais que dois segundos aquela face sórdida de rato-humano à sua frente, ofertou o pedido sem mesmo esboçar qualquer fisionomia contendo sequer um mínimo de animosidade e logo adiantou o ritmo demasiado de seu andar, puto dentro das calças, extremamente puto, muitíssimo puto, puto pra caralho, envolto de pensamentos que emergiam no mesmo abismo gélido e aborrecido que havia se deparado em suas tantas buscas labirínticas e mordazes, bêbadas, turvas, ziguezagueando por demais esquizofrênico, feito um mosquito que, após sugar o sangue quente de uma coxa robusta, sofre um tapa incerto, embora impactante, e alça um vôo desmedido e irregular, sentindo a dor terrível nas mesmas patas imundas que agora limpam o sangue dos cantos da boca, quase sorridente, em sua ínfima importância de ser só e tão somente o alvo preferido de uma guerrilha munida de sprays e pastilhas, prontas para mandar aqueles lixos alados para o inferno, “que mordam o diabo!”, mas eu dizia do moleque que pediu cigarro irritando ainda mais o juízo já efervescente de nosso herói sem mocinha, não pelo cigarro, foda-se o cigarro, mas pela chateação grotesca de ser parado no meio da rua e imediatamente desviado de suas conclusões e disparates mais cretinos e insanos. Desceu as escadarias do metrô, universitários barbudos e punheteiros, garotas com roupas que mais lembravam uma nítida regressão a uma infância decadente, muito pouco, ou basicamente nada construtiva, alguns trabalhadores engravatados com a face rude, contendo alarmantes olheiras, de quem simplesmente degusta uma realidade com cheiro de merda e pinho-sol, se ajeita num canto mais destacado, como se fosse possível em plena 18 hs na estação Cinelândia, uma bossa-nova enfadonhamente careta e regrada ressoa das caixas laterais, cessando toda a malandragem e descompromisso dos reais motivadores desta manifestação musical, e os dizeres redigidos em letras garrafais transmitidos nas tevês de plasma, em português e inglês, enfatizando o espírito “maravilha” dos cariocas e convidando cinicamente os turistas a embarcar neste movimento, quando o que se percebia ao redor era um amontoado de ações fugidias e vorazes, abstrai estes pormenores até escutar o ferro dos trilhos estremecer e logo avistar o transporte se aproximando, entra sem olhar para os lados e tenta se acomodar com tamanhos olhares que mutuamente se revezam em sua direção, já que dentro do metrô não há mesmo um menu extenso de possibilidades no que diz respeito ao que será olhado, o jeito então é cada um se encarar sutilmente ou almejar se distrair com a escuridão atordoante por detrás dos vidros, segue contando mentalmente o número de estações, já sabendo de cor o que dirá a voz fantasmagórica da locutora, chega a sua vez, “Próxima estação, General Osório, desça à direita”, sai esbaforido daquele compartimento, sobe as escadas rolantes observando, por rotina, os quadros e mosaicos que decoram o ambiente, enfim chega à calçada e então caminha pensativo pelas ruas de Ipanema, já elaborando todo o texto que será dito para desmistificar todo o caos, pensa inclusive no tom mais preciso para se iniciar a primeira frase, a entonação ideal que virá a seguir e assim por diante, tudo minuciosamente planejado e arquitetado pelo herói sem mocinha, enraizando desmedidamente furor e agonia em seu peito dilacerado da falta latente e crua das coisas mais simplórias e habituais, o café recém passado e o jornal sobre a mesa, o baticum dos saltos dela sobre o chão da sala, o desconcerto de ambos ao ter que escolher produtos que jamais usaram nas compras do mês, a revista de moda que ela lia o fazendo gargalhar de suas fisionomias deslumbradas, o romance de Sacheri que compartilhavam nas tardes de sábado, os tênis e meias que ele deixava relapsamente sobre o tapete do banheiro, a sua pinta na bochecha que ela adorava beijar e agora habita solitária e nostálgica em sua face pálida e descabida.

- Ô prayboy! Erva, cocaína e crack. Erva de 10 e 25. Cocaína de 30. Crack de 5. O crack tá “envolvente”, saca de “envolvente”, né mermão? Tá “envolvente” pra caralho, pray!

Ele faz que não com a cabeça e continua a sua caminhada, escutando a seguir a mesma chamada do aprendiz de traficante para outro transeunte.

- Ô prayboy! Erva, cocaína e crack. Erva de 10 e 25. Cocaína de 30. Crack de 5. O crack tá “envolvente”, saca de “envolvente”, né mermão? Tá “envolvente” pra caralho, pray!

Dessa vez o trafica teve mais sorte, o “pray” do momento resolveu fazer compras no mercadinho, e passou apressadamente por ele cheirando a trouxa de maconha para definir a qualidade do produto, até sumir completamente de sua visão dobrando uma próxima esquina. O herói sem mocinha atravessa o sinal já sentindo o baque incessante e impetuoso bombeando seus músculos e artérias, rumando a direção da praia, logo avista o seu prédio, agora dela, cumprimenta uns vizinhos que passeiam com os cachorros, vizinhos estes agora dela, entra rispidamente no edifício, agora dela, e faz uma piada infame sobre o último jogo do Flamengo com o porteiro, agora dela. Abre a porta do elevador, aperta o botão número 7, e fica alternando entre se observar no grande espelho ou se perceber registrado pela câmera acima de sua cabeça, bobagens com o intuito de esmaecer o conjunto de reverberações ensurdecedoras que lhes cabe. Espirra três ou quatro vezes, enumera respostas a serem ditas de imediato, sem deixar restar qualquer instante de desconfiança, sombreia uma maneira particularmente peculiar de direcionar o seu olhar quando a avistar vestindo uma blusa velha, grande, com o desenho do Mickey à frente, e seus cabelos deliciosamente presos num coque, enfatizando ainda mais as formas delicadas de seu rosto, a sua face fingindo surpresa, enquanto lhe diz numa frieza também calculada que já está terminando de pintar as unhas dos pés, desnudos e salientes bem ali próximo aos seus lábios que anseiam lambê-los, e que assim que der a última pincelada irá passar um café fresquinho, quando ele dirá que não precisa, que ele mesmo pode passar o café e que ela pode, isso ele dirá obviamente irônico, continuar a sua experimentação acerca dos desfrutes aborígenes de colorir o próprio corpo, ela responderá prontamente, retirando o palito que segura com a boca, que tira o excesso de esmalte nos cantos das unhas, já que ambas as mãos estão ocupadas entre pincel, frasco, algodão e acetona, que nunca ouviu falar disso e que ele não tem consistência real e relevante do que acabou de citar, ele prontamente irá dizer que leu no Google, e ela cairá em gargalhadas, deixando o pincel cair para alivio dele, dizendo que o Google não possui fontes realmente plausíveis e que qualquer filho da puta pode criar um site e dizer, por exemplo, que possui o manual secreto que acarreta no modelo de conduta de um casamento exemplar do tipo que o marido, em nenhuma hipótese, transaria em cima da mesa do escritório com a putinha da secretária que mal fez dezoito anos, o que fará com que sua face exploda num fogo transparentemente visível e o deixe consternado buscando qualquer explicação notória, que faça um mínimo de sentido, excluindo imediatamente todas as possibilidades de respostas e pensamentos os quais ele já vem elaborando a dias, incansavelmente e incessantemente. O elevador pára no quinto andar, as portas se abrem, uma bichinha com reflexos nos cabelos lhe pergunta, mais feminina que a sua sobrinha enquanto brinca de boneca, pondo os braços dentro do elevador para fazer com que, propositalmente, ele não prossiga.

- Tá descendo?

O herói sem mocinha indica com os dedos que está subindo, a bichinha ainda faz mais algumas retaliações sobre o elevador até que finalmente deixa ele seguir o seu destino, o indicador digital prediz sexto andar, respira fundo, sétimo andar, chegou o momento de então desfazer todas as atrocidades que pairam nas entranhas já abarrotadas de cismas, neuroses, mágoas, olhos marejados, fragmentos de um passado onde juntos esboçaram planos e idealizações, e andaram com ar de casal vinte pela orla, é o momento de desfazer qualquer insulto e despudor da cena catastrófica o qual foi surpreendido por ela, a hora de cessar esta lacuna densa onde habita o inverno da Islândia, caminha demasiado pelo corredor, reconhecendo-se em cada parte mais minúscula daquele caminho, até chegar frente à sua porta, agora dela, que escutará o barulho das chaves do herói sem mocinha, como em todas as noites em que viveram ali, e fatalmente irá dizer lá de dentro que o jantar está quase pronto e se ele sabe onde pôs as taças que sua mãe trouxe de Curitiba, hoje não disse coisa alguma, ele já esperava, reformula olhando para a porta todas as frases de impacto que almeja dizê-la, abre cautelosamente, em passos curtos, todas as lâmpadas apagadas, “ela deve estar dormindo”, acende a luz da sala num rompante de nervosismo e desespero, seu olhar confunde-se entre o pânico e a desgraça, não há ninguém ali, sendo mais exato, claro, é o que vocês esperam, não, não há nada ali, mobílias, luminária, tevê, quadros, bar, chinelos, fios de cabelo pelo chão, cheiro de café, não há nada, o que ali habita é um cheiro de ócio, de tempo parado, de instantes corrosivos e parcos, o apartamento lhe parece ter envelhecido algumas décadas, o seu corpo se esmera para não tombar neste ambiente inóspito e lúgubre, o herói sem mocinha insiste em caminhar pela sala, depois até a cozinha, se impressiona porque nestes momentos de tormenta é tomado por uma calma quase dadaísta, fica anestesiado, ao ponto de entrar no banheiro e fazer um xixi, pensa, repensa, transpõe as mais variadas lógicas e os mais mórbidos sensos, quanta aberração, quanto surto, e estas entrelinhas dando margem à esta infinita variação metafórica, qual o sentido, a coerência, o porquê. Ou ela esperava o primeiro vacilo realmente feroz do herói sem mocinha para simplesmente dar no pé? Não, ela não esperava. Ela o amava, ela o disse que o amava, várias vezes, muitas vezes, de todas as maneiras. Fica paralisado até sentir um misto de soluços e gargalhas, procura um sofá, não há mais sofá ali, lembra-se, e continua enlouquecendo nesta conseqüência de choro e riso nada eloqüente. Vai fumar na janela, um, dois, três cigarros, sem café. Porra, sem ela e sem café. Quanto desespero! Quanta abstinência! Ele ainda não entrou no quarto, será por demais forte pra ele adentrar no local onde muitas vezes se amaram, e disseram-se coisas deles, tão deles que não me cabem trazer à tona, tampouco cabem mais neste espaço oco onde a ressonância da voz trêmula não responde com o mesmo eco, parece dizer “Tenha calma. Ou não tenha calma. Não importa. O fato é que você já não tem ela, herói sem mocinha. Então rezar um terço ou socar a parede só resultará na ignorância eminente de quem seca gelo para resolver uma equação de álgebra. Portanto, soque o terço e reze a parede. Ou então, vá comer de novo a putinha! Ou pedir cigarro na rua, ou vender crack de 5, ou dar a bunda embaixo da bandeira, otário!”, a porta do quarto ainda está fechada, ele a abre laconicamente, não a vê deitada na cama – imaginária - assistindo a novela das sete, bocejante e frágil, linda assim sem maquiagem, linda assim sem colar de pérolas, linda só de blusão e calcinha, sua. Avista de imediato o seu violão num canto enfadonho, abaixo do instrumento, encontra um papel dobrado, meticulosamente dobrado, cuidadosamente dobrado, senta ligeiro no chão, desdobra ágil o papel, é ela, é a letra dela, cara, veja, é um bilhete dela, mais valioso que todas as mobílias e fios de cabelo pelo chão, um bilhete dela, pra ele.

“As feridas em carne viva. Ponho merthiolate, arde tanto, eu sopro, sopro e sopro de novo. Até passar, não passa. Não tenho mágoa, não tenho ódio, tampouco almejo vingança, nem. Me perguntam de você, digo que não sei, então se espantam em demasia e eu quase enlouqueço. Nunca perguntam de mim, porque caso perguntarem, direi que não sei também. Iriam tentar me internar, talvez, ou me indicarem um cruzeiro, uma vodka, um marido. Eles teimam em insistir numa fisionomia áspera e decisiva, como quem sabe realmente o que fazer quando acaba a luz e não há ninguém em casa para dividir as suas faltas. E, sabe, tem me faltado tudo. Inclusive você. Quanta ironia! Pra me fazer curativos e um chá de pitanga que cure esta gripe, adquirida, claro, pela baixa imunidade que você me causou. Você é o culpado, é também um canalha, um pervertido, é portanto, homem e, sinceramente, não há mesmo mutações nesta espécie que faça, de fato, diferenciar nitidamente um do outro. Eu sou outra. Você é outro. Será exatamente isso? Acho que não, não mesmo. Eu acho um monte de coisas, seus óculos, suas meias, seus livros de cifras, suas revistas velhas, minha saudade, meu amor doído, este que necessita de um antipirético, um antialérgico, um antigripal, um antes. Antes daquilo. Antes disso, destas feridas, destes abismos. Antes das 22, te espero aqui, Rua Assis n° 18, ainda estou arrumando toda a bagunça, preciso de alguém que ponha os quadros, as cortinas e troque a lâmpada do quarto. Preciso de alguém que sorria dos meus trejeitos, que implique com os meus barulhos de manhã e que me faça crescer até quando me encontro emaranhada de tristezas que não cabem neste meu coração carnavalesco, acalorado, exaltado de sentimentos que transbordam. Você é um filho da puta! E eu? Eu sou tua.”

quarta-feira, junho 29

No cimento

A tormenta aproximando-se em passos largos encobrindo o horizonte, vejo-te longe, ainda mais que a tormenta, bem mais, além, ali ao lado, ouvindo Aretha Franklin entre diálogos surdos, não ouço, não digo também, fumo um cigarro na janela fingindo enxergar algum ponto, sem nó nem nós, estas metáforas cafonas emoldurando as vestes, os cadarços sujos, o sorriso assim de lado, com a graciosidade de um besouro ou um camaleão. A fuga dos dias, cafés requentados, minúcias expostas em formato macro, os versos relidos, desgastados pelo tempo dos sentidos que tornaram-se ambíguos, vãos, vão-se trêmulos, encarnados num rompante de reverberações e cismas, um montante inumerável de fraquezas brutas, a ruptura do ciclo, este desfecho reticente, anunciação de veemências e rastros de seus passos no cimento fresco, baque impetuoso, pancada brusca, revés de trovoadas vindas de dentro do que há de mais dentro de suas variações, idéias vagas, rasas razões, hora de partir, de partir-me, um duo de um, apenas um, mais um cigarro e outro e outro e outro café requentado. Que a tormenta desbaste este eco, este oco de protuberâncias ínfimas, e lavre...lavre...lavre...livre inunde...a cadeia das horas que já não nos cabem.

quinta-feira, junho 23

Como vão as ondas?

Como vão as ondas

Da sua televisão?

O que os outros vãos

Tudo é contramão

Não é nada não

É que eu sou tranqüilo

Vivo com as mãos no chão

Andando com os pés no céu

E essa coluna?

E as tantas colunas

Que já não suportam

Seu peso sem asas

Tomara que caia

E o sabor das brumas

O temor das rimas

O estar por cima

Sem querer gozar

Ainda, ainda...

As tantas lembranças

O trabalho às pampas

Se sujar, se lança

Se for cor, carmim

Caminho na chuva

Sigo enluarado

Mas fazendo sol

Em domingos

E feriados