quarta-feira, junho 29

No cimento

A tormenta aproximando-se em passos largos encobrindo o horizonte, vejo-te longe, ainda mais que a tormenta, bem mais, além, ali ao lado, ouvindo Aretha Franklin entre diálogos surdos, não ouço, não digo também, fumo um cigarro na janela fingindo enxergar algum ponto, sem nó nem nós, estas metáforas cafonas emoldurando as vestes, os cadarços sujos, o sorriso assim de lado, com a graciosidade de um besouro ou um camaleão. A fuga dos dias, cafés requentados, minúcias expostas em formato macro, os versos relidos, desgastados pelo tempo dos sentidos que tornaram-se ambíguos, vãos, vão-se trêmulos, encarnados num rompante de reverberações e cismas, um montante inumerável de fraquezas brutas, a ruptura do ciclo, este desfecho reticente, anunciação de veemências e rastros de seus passos no cimento fresco, baque impetuoso, pancada brusca, revés de trovoadas vindas de dentro do que há de mais dentro de suas variações, idéias vagas, rasas razões, hora de partir, de partir-me, um duo de um, apenas um, mais um cigarro e outro e outro e outro café requentado. Que a tormenta desbaste este eco, este oco de protuberâncias ínfimas, e lavre...lavre...lavre...livre inunde...a cadeia das horas que já não nos cabem.

quinta-feira, junho 23

Como vão as ondas?

Como vão as ondas

Da sua televisão?

O que os outros vãos

Tudo é contramão

Não é nada não

É que eu sou tranqüilo

Vivo com as mãos no chão

Andando com os pés no céu

E essa coluna?

E as tantas colunas

Que já não suportam

Seu peso sem asas

Tomara que caia

E o sabor das brumas

O temor das rimas

O estar por cima

Sem querer gozar

Ainda, ainda...

As tantas lembranças

O trabalho às pampas

Se sujar, se lança

Se for cor, carmim

Caminho na chuva

Sigo enluarado

Mas fazendo sol

Em domingos

E feriados

terça-feira, abril 12

Desdobrando os labirintos

Rememorando fábulas, estremecendo rancores, não abro as cortinas, o horizonte me elucida de furor e amplidão, e o que almejo é tão...simplório, sutil anseio, lépido presságio. Acendo um cigarro, espirro três ou quatro vezes, rio, rio, rio de mim mesmo, depois de você, depois de nós dois juntos naqueles patinhos da Lagoa revelando-nos que não há qualquer romantismo lúdico por entre as pedaladas freneticamente intensas que tínhamos que ofertar pra fazer aquilo estar em movimento continuo, com alguma direção relevante, quase enfartamos, e quando atingimos à proa, tontos de taquicardia, comemoramos aturdidos a nossa chegada desta prova de veemente resistência, “pedala você agora...”, “porra, to pedalando...”, “pedala mais, caralho, eu quero sair daqui...”, quando todo este impulso de baques impetuosos soavam “ porra, eu continuo te amando”, “te amo mais, caralho, eu quero estar com você” , estes sentidos implícitos que nos tomam de fervor e fúria, mas não era bem isto, isto é, o texto, não aspirava escrever sobre nós, você já sabe me ler de forma extremosa e cada verso teu ressoa em mim de modo plural, qual fosse nosso, entende? Entende, entende sim. Olho os quadros dadaístas na parede, caminho errante pela sala, de um lado a outro, desdobrando os labirintos, estes momentos sós, a solidão prediz perguntas, respostas, perguntas, perguntas, é vital concebê-las, nos molda em estado de amplidão, enxergando as perspectivas em paralelos relevantes, factuais. Preciso de um argumento, um frenesi tempestuoso que faça valer cada linha exposta e sobreposta entre tantas palavras embaralhadas que, juntas, podem até formar um mosaico abstrato, de cor carmim, com nuances nuas. O sentido é seu, a loucura é crua, a porra é quente, o suor é frio, quando perpassamos por entre estes becos esquivos e ratos-ratos e ratos-humanos nos pedem cigarros ou cobram quatro reais por um boquete, breus que trago à tona, emaranhados, sublimados, enfeitados em seu mais vigoroso cerne, vírgula à vírgula, tudo premeditado aos caos, onde já não caio mais, foi o precipício quem me revelou, quando o surto se cessa e o que resta de ti é simplesmente o infinito, ora quantas estradas pra trilhar, eu já lhe disse isso, vou repetir, de-va-gar-zi-nho, sussurrando em seus ouvidos que comportam estes brincos de pérolas falsas, caso não forem, foda-se, não me implicam penduricalhos e ínfimos adereços, vou te dizer, é o seguinte, você poderá tentar, sentir o peito se abrir e revelar todos os pormenoresemaiores e tormentos tão chulos que não valem sequer um bocejo teu, não é tão fácil adestrar os que tem asas, diria Caio F. mais ou menos assim ou exatamente assim, e você as possui, eu vejo, claramente nestes turvos NÓS nos cadarços sujos de seu tênis, e quanto à NÓS, ein?Você é foda!Não um foda do tipo “nossa, que habilidade mental no quesito reflexões impactantes”, é um foda do tipo “Você é um filho da puta, mas cara, veja, eu também sou, então podemos andar juntos”, é o seguinte, contra as demências, psicoses, alienações, desvarios, ainda existe um elixir, isto se você quiser, quiser mesmo, intensa e grandiosamente, lá no fundo do seu mais vital casulo, guarde isto em seu bolso, esta vibração de meamdros, essa bula de remédio: QUANDO PULEI DO ABISMO, DESCOBRI QUE SOU PASSARINHO...E VOEI.

segunda-feira, março 7

Embora

Não te prometo amor. Não almejo lisuras, salivas embevecidas de um conhaque, um gim, um anti-ácido, uma porra. Te olho enquanto você fuma assim deitado de lado na cama, ouvindo Madeleine como quem adentra num sem fundo de destemperanças, tenho muito a fazer, meu amor, muito a caminhar, depois parar um pouco, tirar as pedras dos sapatos, então seguir me equilibrando entre os abismos, lembrarei, lembrarás, recordarei dos fatos, das tramas, das transas, dos tapas. Mas hei de ir, eu sei, você deseja um tempo breve, uma semana, duas, talvez suporte três, embora o meu descompassar de dias não lhe caberá no calendário roto demasiadamente descontrolado, como não coube meus descaminhos, meu riso frouxo, a barba por fazer, a blusa com o escrito “Amy way of life”, ok meu bem, deixo ela pra você, a Amy, a barba por fazer, o riso frouxo, os descaminhos, sigo como quem sacia a fome devorando a carne crua e quente de um besouro, um marimbondo, deixando aquele ranço rascante e turvo na garganta, passará este vácuo, livrará estes sustos, me permito ainda algum delírio, um anseio, uma lástima, parto sem o coração, este dos apaixonados desenhado em vermelho entrecortado por flechas, resta-me um músculo, paredes, artérias, pouco partido, claro, partindo, um tanto perdido, confesso, mas não posso permitir desmoronar o meu Farol, cuide, cuide sim, cuide muito, por favor, da tosse, dos surtos, das plantas, dos quadros dadaístas na parede, dos discos emblemáticos que, convenhamos, você os amou mais que a mim, é agora, exatamente, assim meio ao meio, meio a esmo, partirei rumo ao meu abrigo, cá dentro, meu arpoador, um inferno blue, quiçá, paraíso cinza, com flores resistindo à crueza do asfalto e reinando frígidas pelas frestas que lhes restam. Bambo num talvez, num jamais, em nunca, nunca mais voltar. Porque me basta este baque impetuoso de fúria e vendaval que fere os lábios. Oscilo o fim, o desfecho, o término brutal. É este, este aqui, o mórbido adeus. O trôpego. O sórdido, mítico. Adeus-Adeus. Até o romper da aurora inatingível pincelando o horizonte, lá de onde você me olha, encharcando os pés no mar. Deixo a chave embaixo do xaxim, e uma xicara de chá posta sobre a mesa juntando-se a uns versos que se esmeram em desespero e despedida. Em tristeza desmedida, só para rimar com sutileza. Uma esperança amarga. Um corromper de brados. Não volto, não rogo, não choro. Não agora. Enquanto te vejo emaranhado, encolhido em cócoras, disfarçando a loucura. Adeus. Adeus, você. Mas não te prometo, amor.

terça-feira, agosto 3

Seu sim

Rude
Mesmo quando diz sim
Não pelo o que há de liberto
Em simplório gesto
Vê-se pequeno
Menor que os insetos
Que sugam suas coxas
E logo rumam pra outra

Seu sim
Espécie de alforria
Brancos libertos
A dizer:
Quase morro
Quando subo o morro

Sim
Som que espalha-se
Por entre as cortinas
Revistas antigas
Canteiros, cantigas

Sim
Prossiga
Em caso de dúvida
Liga
Jamais siga tendências
Elas tendem a desabrochar
Nenhum modo nem moda
Siga atentamente
Bobagem se preocupar
Com o jeito de caminhar

Tragos e conhaques
Esqueça os desastres
Lembre de sonhar
Não cure a ferida
Vil também vívida
Dói dos ralos cabelos
Até o vão calcanhar

Sim
Para travestis e putas
Vagantes, bruxas
E bruxos
Cortiços, luxos
Cantina, bar
Sim
Para o esfarrapado
E o burocrata
Sim sem ensaios
Sem jogadas
Sim

Ah sim...
Pra não negar
O osso
O esgoto
O desgosto
O cachorro
Sem molho
Ou com molho
Pronto pra salgar
O dente doído
Elo corrompido
O pai, o marido
O vão do umbigo
A centralizar
O que há de ser
O que há de sarar
Num tempo quando
Onde, ontem
Amanhecerá.

segunda-feira, julho 12

O frio e a frigidez

Insone, busco a palavra que apraz o desassossego, a agonia impetuosa, a ardorosa fuga sobre o apego, a ventura inacabada, o destino em reles trapos, desatino que impera a madrugada que observo pela janela, passantes esquivos, estranhos, malditos, caminhantes que se esmeram abstraindo o frio e a frigidez, eu cá elucido alguns fardos, o desamor cru e palpável, esvaziando a cama, esvaecendo os faros, o aroma do café e do cigarro, e o corpo emaranhado de desaventuras, fragilizado e entregue às assolações presentes, cada distorção, e raspo brevemente o insolente e despudorado espasmo de verdades incontidas, jamais ditas, expressas em dubiedades que inundam lençóis e tapetes, releio poemas, bulas de remédios, bilhetes, acaricio sutilmente cada densa linha, e costuro aos descompassos dez compassos abstratos, minimalistas, incomuns, num papel antes amassado, liberto de entendimentos, previamente desprezado, todo ele reticente, ...................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... o sentido é o que habita nas vagas idéias, que nada dizem, não afagam, não imprimem, sequer existem, nenhuma trama ou qualquer moldura de frases meticulosas, isto não vale coisa alguma, isto é, o que restou de nós.

terça-feira, junho 22

Nu

Quando chegar, tire em imediato suas roupas, eu quero ver-te nu, exposto, imposto aos meus devaneios, quero apalpar a rispidez e a lisura, anseio o foco sobre o teu pênis ainda amanhecido, te espero trêmula, esmero uma canção antiga, um verso de outrora que dilacere cada enfermidade, a deformar os sentidos, transfigurar as sutilezas, quero ver-te nu, como havia dito, e apalpar cada emaranhado de pêlos e cruas carnes, mornas, cálidas, austeras, almejo ampliar o foco, eternizar em polaróides o lúbrico cerne do corpo que me penetra, em una moradia substancial e lasciva, a língua, a saliva, a porra, a face inebriada e ardorosa, não conte-me sobre os fatos, não diga-me segredos, anule as urgentes notícias, pode me chamar de puta, desvairada, insana e torpe, o porre que compartilhamos, a falta sórdida que agora esvai-se, goze sobre os meus lábios, minhas ancas, meios seios, arruíne esta distancia, aproxime-se faminto e sujo, me coma, alimente-se do meu liberto sexo, e já saciado implore por lamber meus pés, saliente e impuro, a deflorar as horas, dias, meses, e imperar o alicerce que nos une num baque de tempestades, intensos brios, vorazes ímpetos, quero beber o teu suor pra sentir sede de você.

segunda-feira, junho 7

O lábio e o labirinto

As feridas expostas, remotas e frígidas, assopro com sutileza, e a cada ardor mais espesso, rememoro o cálido olhar, pra me enxergar de um outro foco, e testemunhar uma felicidade distante, distinta, como os teus pés nos meus num qualquer dia, entre edredons e cafés, e um revés de emoções, a acarretar um conglomerado de sentidos vãos, mal sinto, já não reconheço o amor, esvai-se entre remotos espasmos e o calendário que teima em perpassar os dias, a barba por fazer a emaranhar a minha frágil face, o lábio e o labirinto, o afago de deus e do diabo, os passos que rumam rente ao mapa em branco, páginas que esmero com o despudor e a rispidez que me cabe, onde me coube as carícias, as malícias de terça, os cigarros acesos, a esperar um esmero presságio, vago, vário, vagante e mundano, como as paixões repentinas, alusões, ilusões postas à prova, castelos de areia arruinados por uma brusca tempestade de verão, restou-me os poemas esquivos, a bermuda rota, as sandálias de couro e a sua bússola disforme, que aponta um brado, um diálogo, uma dúvida, tomo aspirinas com pura vodka, não quero querer, e anseio, não mais seus pigarros, seu catarro, seu chulé, a densidade imposta em que se finda o concreto sentimento, cimento e tijolo, o lobo mau dispensará seus murros, protejo-me das adversidades, dos encontros inesperados no jornaleiro, do telefonema madrugal desdizendo conjuras, e um amontoado de quinquilharias que apertam meu peito, a fotografia na cortiça, o bilhete hermético, o orgasmo lascivo, represento, aumento o tom, minto banalidades, desfaço perguntas, invento uma alegria estática, pra não imperar tristes fatos, cinzentas entrelinhas, fardos que não compartilho, hei de herdar o peso incomum, a parca lisura, o reles impacto, "e ninguém aqui vai notar que eu jamais serei a mesma".

quinta-feira, maio 6

Um riso

Estes rabiscos publicáveis, em páginas de jornal classe média, com ar supremo de quem visitou a esmo - ensaiando versos - todos os pontos mais out desta cidade empolvorosa, e todos chamam teu nome, você acena amélie, como quem eterniza um instante em fotografia polaroid, toda ela, logo some, dilui-se...criança.E criam momentos de extrema sensíbilidade, lhe deixam flores e minúcias, e vão-se. E vão-se soa...soa-me vago, existe e parte-se, um café morno com bolachas de morango. Será mesmo a cisma? Acho que não gosto de você. Assim como concordo com teus pés nos meus pés, em dias assim, em busca da proa. E se você me ouvisse, se por a caso, quem sabe ontem, você me disse "eu não lhe guardo meu rancor, querido", e mais ainda, ainda que por mais que insista, nada me valha, e vale a pena escrever quando não sinto a linha, costuras disformes, visto você de asneiras, dissimulações, conhaques e tecidos rotos, porque...porque posso, amélie. Te invento, transformo, informo e pronto, eles acreditam. E então me levanto -assim-rápido-sem pausas-sem-pensar - ajeito os cabelos, acendo um cigarro, esqueço-te no cinzeiro, e canto joão neste seu impróprio violão de aço. O sol na cortina verde-musgo, não gostei e pronto. Você não sabe de cores, não tá na moda verde-musgo, não tá na moda bancar ser além, germinar sementes semânticas, e também não vi, em todas as bundas que vislumbro mensalmente na playboy, qualquer versinho seu que me soe realmente seu. Entende? então Foda-se. Hoje eu não acordei para escrever metáforas, e consertar palavras, e ajeitar parágrafos. Na verdade, mal reli qualquer entrega, e se você for ler, por favor, chore. Já não tenho tempo, ainda resta um trago ou dois no cigarro esquecido em meu cinzeiro, e se por ventura decidir partir, de repente, para sempre, não esqueça de levar as chaves, novamente.

Um riso,
C.

sábado, novembro 28

Âmago

Trecho do meu livro, ainda em processo, flores nos jarros, chuvas à sós.



Pega um livro sobre a estante, “Terras baixas” de Joseph O’neill, lê nove capítulos numa só entrega, alimenta-se de tais palavras qual fosse seu alicerce, um porto-seguro, afagos sutis em seus cabelos rasos e sedosos. Anota num bloco algumas frases de impacto, quer pensar sobre elas, almeja encontrar algum sentido que lhe faça balbuciar o seu peito, esquece do tempo, esquece de si e de tais feridas, não sente vontade ligar para alguém e contar suas já antigas lamúrias, por um instante se esquece de todas as dores que tanto o assusta, em noites de frio e vagos cafés, aprimora seus faros ainda há pouco tão desarmados, quer fuçar cada lástima e todo o desvario, plantar qualquer semente que faça florescer este gosto de novos ares em seu peito cansado de tais compaixões, deseja somente seguir este fluxo, encontrar seu caminho, caminhar rente aos seus destinos, que fazem-se junto aos seus tantos passos, tudo cíclico, brados contínuos, como o descompassar deste coração temeroso, escondido em seu casulo de puras penas, maltratado e por vezes ignorado, como então agir firmemente tendo sobre o peito um gélido órgão pulsante e sem vida?Quer removimentar, reinstaurar cada bloco de pedras, quebra-las com as mãos, e talvez até construir algo que valha quiçá um verso, ou apenas um riso. Ou então jogar fora estas quinquilharias, esquece-las de uma vez por todas, permitir-se alterar os climas, mudar os quadros na parede, deixar a barba por fazer, barba de quatro ou cinco dias, mostrar-se cru, nu aos olhares dispersos e atentos a cada gesto mais afoito do primoroso músico, não mais compactuara com estes ensaios de bom moço, não quer mostrar-se feito um fantoche esquizóide elaboradamente fantasiado por um pálido executivo do atual mercado fonográfico pop, quer apenas mostrar-se como é, e isto, pensando racionalmente, não é pedir muito. Lhe custa abundantemente caro estes retratos de sorrisos prontos, não se percebe ali, parece um personagem, não um personagem vanglorioso como estes dos bons romances que lê, mas um personagenzinho mediado, igual aos demais, um belo rosto de propagandas de margarina, com roteiros felizes e insuportavelmente perfeitos, feitos e refeitos, elaborados por equipes especificas, tudo criado detalhadamente para impressionar, causar impacto, ressoar gritinhos de “u-hul” em adolescentes fantasiosos e deslumbrados, não quer mais este estigma, não pode mais admitir tal brutalidade contra a sua própria natureza. Decidiu mandar uma meia-dúzia ir para a puta que o pariu, caso fosse necessário. Mas já não fará este tipo de cena, com textos decorados, luz prontamente idealizada, palavras encantadoras e singelas. Sente nojo, um certo despudor, quer andar um pouco, escutar umas canções em seu Ipod, olhar o mar, fechar os olhos e sentir a brisa calmamente acariciando seu rosto, depois comer em alguma lanchonete onde se sirva uma batata-frita decente e coca-cola sem gelo, quer apenas isso, agora.Poderia querer mais, poderia alugar um jatinho e ir ver a noite caindo em Barcelona, ou então arrendar a suíte presidencial do Copacabana Palace e dar uma festa só para putinhas de classe média, todas moradoras da Zona sul, sedentas por pirocas cravejadas de brilhantes e farta quantidade de cocaína sobre um tampão de vidro. Mas não, não pensa em coito agora, não se impulsiona a tal aventura jovial. Quer apenas comer as suas batatas, tomar sua coca e ouvir Rosa Passos tranquilamente, sem pressa, sem procuras nem autógrafos ou fotos posadas com eufóricos transeuntes. É o que fará, encontra um boné em seu closed abarrotado por roupas enviadas pelos mais badalados estilistas do país, veste uma calça “Diesel”, apanha suas havaianas e uma camiseta branca, confortável e fresca, pega sua carteira e as chaves sobre a mesa, e sai sem destino prévio, não leva o celular, não quer ser encontrado por ninguém, adora fazer isso, enlouquecer de preocupação suas sempre disponíveis assessoras, ultimamente, inclusive, este tem sido o seu esporte predileto.


Embaraçado. É assim que se sente. Desde o fio mais escasso dos seus cabelos, até a ponta do dedo mindinho dos seus pés robustos e brancos como nuvem. “Tudo é uma questão de respirar fundo, contar até dez, respirar novamente”, já escutou este conselho centenas de vezes, e chega a ficar impaciente quando o mesmo se repete. Tem tentado seguir esta máxima, mas confessa que isto não está lhe oferecendo nenhum ganho específico, pelo contrário, se sente um monge gordo tibetano, daqueles que se dizem levitar, e logo nota-se ridiculamente idiota, por ambos os casos: um por ter tentado seguir esta técnica de respiração atenta, em vão, dois por ter zombado anarquicamente dos tais monges gordos tibetanos, que nada tem a ver com esta trama. “Se for pra me foder, que seja com você meu bem...” , pensa isto e cai em gargalhadas, e logo emenda outros pensamentos tão insignificantes e inglórios como este, idéias irrelevantes, feito bilhetes entregues por baixo das portas, poeiras antigas por sobre os tapetes, esquemas de refúgio para singelos namorados comerem todas as negras que encontram no cardápio, simplicidades e abstrações, já deu no saco esta palavra: abstração. Acho que ninguém agüenta mais ouvi-la, portanto não direi mais, procurarei um sinônimo, um destes bem acertados, ajeitados detalhadamente, lapidados em frias têmperas, editados e publicados no auge de seu mais sublime sentido. Mas agora não, nem daqui a pouco. Agora somente me cabe contar as suas astúcias, quer mesmo pensar em asneiras, falar umas safadezas por telefone, tocar uma punheta, acender um cigarro. Pode parecer simplório aos olhares esquivos de estranhos leitores, talvez soe um tanto rebelde, palavras assim, tão desajeitadas, mas onde me movo, e o que posso ver, é mais disforme do que os labirintos dos sonhos derradeiros, ressonâncias mórbidas, cheiro de um perfume “doce travesti”. Existem três tipos básicos de perfume: masculino, feminino e “doce travesti”. Era justamente este último que Sofia usava, inalando seu cheiro por todo o apartamento, inebriando homens e garotos e até algumas mulheres mais atiradinhas. Ao final de sua gargalhada repentina, lembra-se da água que havia deixado no fogão, vai preparar uma massa, faz tanto tempo que não cozinha para si, depois abrirá um vinho de boa safra e ficará ali, com sua massa e o seu vinho, e os seus pensamentos irrelevantes tal como aquele que lhes contei, “se for pra me foder, que seja com você meu bem” pensa de novo, mas dessa vez não ri, pelo menos não tanto como na primeira vez, talvez por ter caído na real, entendido exatamente o que quer dizer isso, precisa de um terapeuta, pra agora, num tempo de urgências, quer esmurrar a porta de um consultório e entrar aos solavancos, contar todos os seus abismos e tempestades, atirar para o teto cada vômito e tormento, seus dedos goela abaixo mostrando-lhe evidencias que jamais quis escutar, mas já está um pouco tarde, passou das 22 horas, vai ter que deixar isso pra depois, ele sempre deixa “isso” pra depois mesmo, precisa pensar melhor, nunca aceitou muito bem o fato de expor suas feridas com tamanha clareza e, no fundo, também tem a plena consciência de que terapeutas igualmente choram descompassados em noites cinzas, fazem massas só para si, tomam vinhos de safra ruim, argumentam pensamentos chulos, recitam versos de Ana Cristina César assim meio-para-alguém-meio-para-o-vento, ajustam ponteiros e contam minutos, desabam suas facetas de super poderosos a cada toque mais sutil e femíneo, são humanos, portanto, sofrem de amor e odeiam suas mães, como todos, e pasmem, é verdade, até fazem cocô.


- Alô?
-Oi Júlio, sou eu...

Naquele Eu reconheceu todas as suas dúvidas, seus descompassos, tantos tropeços. Enxergou com minúcia cada palavra não-dita, no torpe silêncio que precede algum desfecho, algum caminho. Ressonância atordoante, feito trovoadas, naquele baque monumental, intenso, voraz. Foi neste Eu que um dia perdeu-se inteiro, e se entregou num labirinto de pernas, nucas, peitos, braços, lábios, e numa noite dessas lacrimejou lembranças, entristeceu todos os porta-retratos, emoldurou canções de amores findos, recolheu cada aroma que restara, qualquer rastro sutil, algum bilhete, uma blusa esquecida, algum pequeno presságio, neste Eu que um dia fora ele em tantas formas, em muitas forças, entrega plena que desfaz-se bruscamente, sem restar tempo algum para compreensões, entendimentos, indagações, ferida ainda aberta que incessantemente pulsa, lembrando, segundo a segundo, o estrago devastador de uma rude tempestade, já não há casa, já não há folhas, versos, já não há risos, não há cortiça, nem planos, nem quartos, as portas já não batem, as chaves se perderam, todas as chaves, trancando em si também todos os vãos sentidos.

- Ah sim, pode falar, Sofia.

Júlio responde em tom ríspido, faz toda a força que lhe cabe para parecer seguro.

-É com relação aos papéis, como você sabe estou noiva, e chega um momento em que é preciso se decidir, não dá pra ficar adiando...
-É verdade, não podemos deixar as coisas pela metade!
-Te liguei para saber como faremos...
-Faremos do jeito que você quiser!
-Falei com meu advogado, ele disse que vai precisar de algumas assinaturas, somente. Não será tão burocrático!
-Ótimo então! Peça pra que entre em contato com o meu, te mando os detalhes por e-mail.
-Ok, pode ser. Está tudo bem contigo?

“Como está tudo bem comigo? Irônica. Sarcástica. Insolente e frígida!”

-Tudo maravilhoso e com você?
-A vida anda corrida, mas nada que me desanime!
-Que ótimo!Você nunca foi desanimada mesmo...
-Pois é!Estou voltando pro Brasil para cuidar de tudo e resolver algumas pendências na empresa.

Júlio sabe que Sofia nunca se importou com a empresa do pai, um arquiteto renomado, investidor do mercado imobiliário. Acredita piamente que ela só virá para assinar os cujos papéis, sua carta de alforria programadamente elaborada.

- Quando chega?
-Dia 14 de setembro, uma terça-feira!
-Tudo bem, a gente se fala...
-Tentei te ligar ontem à noite!
-Ontem à noite eu nem existia...
-O quê?
-Nada, apenas um pequeno devaneio...

“Porque eu fui falar assim, meu deus? Essa minha mania cafona em emoldurar frases de impacto.”

-Não quero que tudo fique distante entre a gente!
-Mas as coisas estão distantes, não podemos fugir do que é óbvio!Neste momento, por exemplo, um oceano inteiro nos separa!
-Às vezes até me esqueço disso!
-Tudo bem, Sofia, mas eu não!
-Desculpe...
-Não tem que se desculpar!A vida é como é, e eu sinceramente mal sei o que te dizer...
-Então não diga nada, apenas sinta!
- ( )
- ( )

Uma pausa abissal toma o corpo de ambos, como modificar este tom?Porque então não trataram logo de se esquivar de qualquer assunto que remetesse ao que viveram? Poderiam ser mais simples, apenas tratar dos papéis e pronto, mas não...lá vem o passado todo desenvolto, pronto para dilacerar o presente já tão enfadonho e deixar um quê, um nó sem gravatas, num futuro próximo.

-Eu vou ter que desligar, meu querido! Te quero bem...

Odeia quando lhe chamam assim. Ele entoa a voz.

-Também te quero!
-Me promete uma coisa?
-Se não for algo exageradamente sacrificante...
-Acho que não é, só queria te ouvir ao violão cantando “Turvos olhares”...
-Vou pensar e te digo...

Ele ri, impactado. Ela não entende a resposta, mas faz que entendeu.Não quer desconsertar a conversa mais do que já está desconsertada.

-Então, sendo assim, pense direitinho...
-Você só pode estar brincando comigo!
-Eu estou falando sério!
- Faça o seguinte, ponha o disco pra tocar e ouça duzentas vezes...
-Você sabe que não é a mesma coisa!
-É, eu sei exatamente que não é a mesma coisa! Nada entre a gente é a mesma coisa!
-Eu não quero mais falar da gente!
-Foi você quem me ligou!
-Para falar dos papéis...
-Danem-se os pápeis!
- Bom, eu vou encerrar esta conversa! Me desculpe, mais uma vez...

Júlio desliga o telefone sem se despedir, antes mesmo de Sofia terminar sua frase. Um desacato, um sorriso frouxo bem na sua cara, cara pálida de quem esqueceu o caminho de casa, de quem perdeu o dinheiro da passagem e caminha insolente pelas ruas de Praga, algum solavanco lhe toma o peito, já não sente suas pernas, quer tomar um banho demorado, uma ducha perfeitamente morna, precisa abundantemente se sentir limpo, limpo de toda aquela sujeira, daquele assunto deslavado, daquela voz meticulosamente serena, sente-se um pierrô com roupas rotas e abafadas, quer esquecer este telefonema, esquecer estes papéis, esquecer o nome da mulher que ama e tal oceano o qual ela mesma disse por ora esquece-lo. O telefone toca de novo, Júlio atende impaciente.

- Sou eu ainda...
-O que você quer?Acabar com minha noite?
-Quero dizer que eu vou te ver quer você queira ou não...
-Ok, Sofia. Boa noite pra você!

Ele desliga de novo, num só ímpeto, encosta numa das bordas do confortável sofá, acende um cigarro, e chora feito um menino arredio que se perdeu da mãe, em plena avenida paulista, tomada por gente, carros, buzinas, monóxido de carbono e amores distintos, desfeitos, confusos, na contramão dos instintos mais precisos, viscerais, opostos aos sentidos palpáveis, cintilantes, tudo vago, vário, lacunas partidas, exaustivo breu.

sexta-feira, setembro 18

O parto

Para mim


Não, não é pra ninguém estas palavras que arrebento, embora liberto de tais comiserações, ainda trago algum ranço de raiva ou descaso, puras lástimas, fortes apegos. Já não me movo pela casa, o quarto é o meu abrigo mais redentor, não almejo sinas nem estradas, apenas algum vento norte que entre pelas frestas alardeando algum presságio. Nenhuma sigla eminente, as senhas revelaram-se frágeis e deveras claras, não almejo o verbo mais intrínseco, não sei dos versos que esboço, meu nome é um amontoado de memórias e instintos, ao ponto de levar-me ao pé do mais poroso abismo, todos os perigos, uma noite escura. Agora mesmo ponho-me a dilacerar tais feridas, esquecer cada frase insuspeita, hesitar um poema perdido, por entre gavetas, bem no fundo do sem fundo das coisas que deixei para trás, a poeira sobre os livros, alardeando os dias e cada clima esperado, a fonte que deságua ininterrupta, segundos e sentidos que se rompem, sua noite é um embaraçar de suores e desejos, sonhos de brancas nuvens, infantis idealizações, príncipes e sapos, bucetas e pererecas, nenhum trafego comedido, tudo frio e um tanto desalmado, as putas fumando nos becos, os velhos catando quinquilharias, é o que lhes restam, é o que me cabe, já não vejo suas cores, cinzas de um diário popular, quase algum arroubo, uma espera bêbada, talvez um descanso – estaria repetindo? - qualquer distanciamento, ou breves lembranças, escuras e sórdidas, não assino abaixo, nem sequer existo. (vozes que enchem singelos balões, olhos que preenchem o vôo, a fuga repentina, o enjôo dos meses, logo, o ovo se parte, três ou quatro quimeras, um sorriso afável, o parto, o horário, eis o nascimento.)

sábado, agosto 15

Restos de cigarros no asfalto bruto

Ainda posso rememorar, e assim descobrir cada astúcia e o desastre, todas as minúcias de um dia abafado, sem enredo ou turva trama, somente o solavanco dos passos sorrateiros, doces aromas embevecidos de mentiras sutis, disformes cores sobre a pele pálida, os lábios pintados meticulosamente, manchando colarinhos e desalinhando certezas, como num descompassar de dúbias aventuras, dois adolescentes inebriados com a fuga e a liberdade, expondo seus modos mais viris e as feridas de outrora, instintos cálidos, transas no antigo porão, poeiras cósmicas a desatinar fantasias, estrelas contadas nos dedos, desenhadas num parco papel, sem espaço para os versos íntimos, o sentido se fez contrário, difusas imagens, cores entrelaçadas, o quadro mais belo dos quadros, comprado em fartas parcelas, para emoldurar o silêncio e a noite, e esta falta de sono dialogando cada traço, a canção distraída, o marasmo dos mares e as ondas que retornam e explodem, invadindo pormenores, dissolvendo cartas presas em garrafas de cobre, repletas de ânsias e vãos devaneios. Os seios da sereia, ilusões postas à prova, promessas bêbadas de amor, promessas sóbrias de amores embriagados, destinos ofegantes, restos de cigarros no asfalto bruto. Pares? Palavra distinta e previsível, quem caminha lado a lado ruma um mesmíssimo percurso. Novidades num jornal popular, notas enfadonhas de um célebre estúpido. Frenesi de encantamentos? Entregas prontamente vívidas, junção de certeiros signos, mapas astrológicos, lógicas vendidas a prazo, num torpe ensinamento de encaixes perfeitos e cenas de tevê, requintados diálogos, notáveis constatações. Os romances dão conta da exata textura, a concepção de um beijo acalorado, idealizações esquizóides e acadêmicas, católicos princípios, salivas e pirocas confundem-se à culpa e ao dissabor, velhos fragmentos de inúteis poemas, poetas nasceram para morrer de asma e nada mais, artistas se drogam por entre as coxias, a história de um lorde abastado de temores, confunde-se aos escassos cafés requentados das tardes de quinta. Roteiros não chegam ao fim, amarguram sílabas em entrelinhas, o cinema é um show privê, gélido e estranho, não me reconheço, centenas de mãos perdidas em zíperes enfadonhos, toda a finalidade é dissimulada, risos frouxos ao final do tórrido ato, e o término das palmas apenas iniciam a jornada dos dias obscuros, cortinas escondem o sol, colóquios mascaram evidencias, a sombra arredia perdida entre os corredores, os olhares esquivos, a resposta inexata. Sobre o fim o que resta é o vácuo, a lacuna partida, frestas entreabertas. O final é o anti-poético, é a soma das sobras, aéreo, fantasioso, amanhãs desenganados, o vestido esquecido, é o toque longínquo, a destreza dos ratos, o sórdido entendimento, a fragilidade. Não há prosa eminente que aponte o tom exato, a contradição de firmes veracidades, madrugadas a fio, livros nunca lidos alastrando retóricas desprezíveis, nada mais importante e digno que o rosto lavado e a nova caminhada, luzes abertas no semáforo, rumos incertos na contramão. Nada além do fim se faz anunciado ou requer elegâncias em usuais concepções. A trêmula voz destemida, o impulso invariável, o cheiro da cinza e o preço do cigarro, o barulho da porta, as chaves esquecidas. A história contada a cada tortuoso passo, já não me cabem suas tramas, nem mesmo os telefonemas, habituei-me ao equivoco. O celular tocou incessantemente às 2:40 e era apenas engano, vulgares colóquios de avassaladoras crônicas, coincidências já desgastadas, assustadoramente usuais, nomes desconhecidos, cotidianos fatos, corpos entregues ao frio, um conhaque ou um gim, algo que inebrie, qualquer frase maldita e insana, algum grito que se faça inteiro, claro ópio. Este quadro ao centro da sala, qual fosse seu sarcasmo, suas culpas e vínculos, nada transparecido ou quiçá transtornado. Sua presença distinta, seu sarro nas esquinas, a velha mobília e os tropeços. Já não mais possuo a verve dos seus tantos passos, os que ditam os gestos, a lamúria e o desprezo. Não anseio costurar desfechos equivocados, eu mal sei de você, meu inicio é o vago jantar que preparo aos frangalhos, os temperos apimentados e alucinógenos, o seu fim pode ser inventado, desvairado de instintos, incerto e difuso. Os seus passos que ditam seu filme retrô, ar de afetuosa donzela, almodóvar-blue tão repleto de meias-verdades. Quanto a mim alimento-me de singelezas, minhas palavras se bastam no vácuo, escrevo para saciar urgências, páginas lançadas do oitavo andar, irregulares e torpes, inexatas na memória de um passante que, igualmente dilacerado, entre pontos e vírgulas e consternações, desvenda sutilezas em minúcias e espasmos, acolhendo sentidos que já não nos cabem.

quinta-feira, agosto 13

Labaredas

Labaredas de fogo
ondas submersas, gozos
alvos estrelados, raros
bárbaros, soldados rasos
acidentes sem percursos
saliências no saguão de trem
a voz do filho que partiu e a noite
a ânsia o anzol a linha o desalinho a falta de rima e a rima
a flama de um mar vermelho
vestido de escarlatina.

domingo, dezembro 7

Quem delira sem ter febre

Quando liguei, mal sabia o número. Fiz questão de decorar a esmo, se meu erro era o impulso, que me fosse escuro, quase claro, mal me via. Desejei você e quis sair sozinho, nunca te digo o que te move, nos movemos entre trânsitos; o nome das ruas são distintos, nada me dizem, Diga. Para onde? Fecho os olhos, quase caio num rochedo mas não sangro. Sinto falta, fome, despudor e medo. Só o vão despe o vazio em aquarelas. Você me entende? Falo sozinho. Quase te beijo. Olho suas mãos que apontam lumes. Me perco e me encontro, quase durmo. Estou sem sono. Você me incita os nervos, canto calmo e grito. Sua canção-segredo. Todos os abismos, todas as toadas. Não faz sentido, por isso escrevo. Para entender depois, talvez. Não quero mais doer em ti. Sarar suas feridas, assoprar com sutileza cada corte. Instante muda. Tudo flui. você e eu e aquela gente estranha. Nos olham esquivos, e pedem cigarros. Você me diz a hora? Eu quero estar comigo. O meu amor é cíclico, o seu amor desaba num azul mais puro. Não há amor, bem sei. Você não sabe quase nada e ri. Pede um cigarro, me olha estranho. Qual o seu nome? E segue andando como quem devora seus próprios instintos. Não mais. Tantas vezes dito. Vê se some somente mas volte pra contar-me estrelas. Ainda tenho um tempo. Ainda estou sem sono. Ainda não entendo. Apenas sinto e tão intensamente que lhe deixo ir, e assim deixando, sem consensos, me permito ir também. Tudo vazio e vão e frio e lua cheia de destinos. A sua noite triste insiste em alegrar meus dias cinzas.

segunda-feira, novembro 17

Enquanto isso

O mar, inteiro.Tampouco ando, nem tento.Paro e sinto, rio.O dia é cinza e gosto, também faz frio agora.E docemente as ondas, e levemente as curvas e toda energia. Faz tempo não te escrevo, Lúcia. Me falta um tanto. O livro, a cama, o cheiro, a xícara. Me basta o céu às vezes, descortinando os dias. Eu tenho uns medos meus, alguma aresta a ser podada, um susto. Mas nada de tempestades. Canalizando naturezas, e revelando lumes. Um tempo adentro, sem demoras porque não há esperas. Apenas ciclos, ventos, climas, brilhos. E ainda resta o mar.

quinta-feira, julho 3

Inst-antes.

Tento palavras, você me desconcerta. Almejo quem sabe um modo. Um jeito de livrar-me do ardor insípido ou te extirpar de mim. Não há qualquer vestígio de seus olhos mansos ou dos seus sutis barulhos enquanto passa algum café ou liga o secador. Também não há beleza, tudo tão opaco. Luzes que entram pelas frestas alardeando a fumaça dos cigarros, aqui apenas alguns quadros, o rádio ligado pra quebrar o eco do silêncio atordoante, estas fotos sobre a mesa envoltas em sorrisos ensaiados - como as detesto! - e uns papéis recém escritos pra ninguém, tal como este que agora esboço. Agora É o meu instante, o que escrevo é hoje, e pulsa intensa a madrugada em que passo sem sono. Não mais relutar. Não mais vislumbrar. Poetizar o breu é mergulhar num vão profundo de tantas feridas. Mas é preciso. É necessário quebrar pedras com as mãos para ver brotar depois, quem sabe, alguma flor de lótus entre os tantos destroços. Não mais relutar. Não mais vislumbrar. Ando fazendo chuva, e germinando com cautela cada sutileza destes desapontamentos. Mais um cigarro e um papel deixado a esmo. Deve ser tarde, deve ser cedo. O nosso encontro então marcado, no ponteiro às noves fora zero.

quarta-feira, março 26

Berê

O quarto é o mesmo, e amanso meus versos. Não escrevo carta alguma, tenho estado ausente ao mundo. Fumando um tanto, tragando em mim sensações de outrora. Não quero nenhuma sina, almejo um tempo de vagas idéias. Nenhum livro. Talvez um filme. Sempre canções. E lembranças, tantas delas em você. Você? Quem é? O telefone mudo. Não quero imaginar coisa alguma. Deixo um bilhete colado à geladeira, Berê chegará em instantes. "O mar me avistou pela janela, ando escrevendo versos em rastros de areia. Beijos. C!". Berê nunca entende as minhas linhas e escreve atrás das folhas a pequena lista de ingredientes que nos resta para o mês, tenho escrito exclusivamente pra Berê: palavras nulas, histórias vãs. Berê talvez nunca escutou um EU TE AMO debaixo de uma tempestade intensa, nem nunca recitou Drummond bem baixinho numa noite qualquer de uma quinta enfadonha. Berê fala bem manso e usa um lenço branco sobre os cabelos crespos. Não releio o bilhete, desligo o som e pego ligeiro alguma blusa deixada a esmo pela cama. Berê deve rir deveras de mim, Berê é feliz que só ela. O amor quando desfeito é um estrondoso caos em formato de aquarela lúdica, e Berê - minha preta querida! - mal sabe quem foi William Blake.

segunda-feira, março 10

Retórica

E resta em mim uma aventura dúbia de rumar algum caminho, qualquer que seja, que seja meu. Uma esperança insípida que quer colorir-se, invento um traço, transformo imagens em opacos lumes. Penso que estou tentando disfarçar o fato. Paro um pouco. Repenso em tudo o que está por trás do nada que habito agora, esta sala vazia, estes livros antigos. Penso em algo que vi dia desses, num sorriso desconhecido numa sessão de cinema, não...não é de amor que escrevo, é do sorriso largo e vivo, tentei buscar o rosto do rapaz e me perdi em tantos corpos, cenas ensaiadas de um roteiro vago. No final de tudo, olhando os letreiros passando, gostei mais do sorriso. Vivi mais o sorriso, estranho, esquivo, livre. A história do sorriso inesperado, alarmando um frenesi de batimentos em meu peito. Gosto de cinema. Da fila do cinema, das escadas rolantes, dos cartazes enormes, dos atores bonitos, das atrizes peitudas; gosto mais dos diálogos, do prenuncio de sentidos meus. Uma história emoldurando tantas outras, olhos atentos à imagem que nos conta o que a pessoa rude ao lado já viveu, ou viverá. Aquele sorriso me contou um conto, só pensava realmente na retórica de um trejeito sutil, quase escuro. Quis um instante de singeleza, conversar um pouco, falar de minhas sensações. Ando tão sozinho. Busquei no celular algum número latente, e emburrei meu rosto pálido ao me deparar com tantos dois e três e noves e nenhum alguém inteiro, parece difícil lidar com gente, nunca sei ao certo o que dizer, nem o que sentir. Se sinto demais, sangro inteiro. Se nada me atrai eu me firo, pareço perdido em tamanho vazio. Não liguei pra ninguém. Nunca ligo. Também não tocou meu telefone, e já me acostumei. Voltei buscando um caminho, olhando os postes e faróis, lumes reluzindo a escuridão da noite, andei à procura de uma sutileza ínfima, talvez uma flor entre as pedras, ou um papel escrito com caneta meio a copos de plástico, mas o sorriso ainda ressoava em mim, inteiro e cálido, confortante e meu, lembrei de uma canção antiga e não olhei para o relógio, devia ser tarde, devia ser cedo, queria um algo, desconhecia alguns passos, eu me encontrava nos vãos. A noite me ditava nada e era tudo o que eu esperava dela, coisa alguma, nenhum acontecimento, nada de extraordinário, tinha brisa e lua e carros e breus e eu começava a gostar do roteiro, o filme terminava com uma canção antiga e alguém sorriu pra mim meio ao clarão dos refletores, Era você, você aí se indagando sobre os modos e os climas da história, mas juro, escrevi somente pra dizer que seu sorriso me ditou tantos caminhos que, sentado na poltrona de uma sala gélida, eu vaguei por muitos mundos, e lhe disse sete vezes que te amava. É sério. Sorri de volta. A música era linda. E eu sabia a letra inteira.

segunda-feira, janeiro 28

Ressonâncias

Não escolha a fonte, não vislumbre frases, escreva o que te vem, como te vêem, assim aos descompassos, fale. Indague um trago mais afoito, alguma imagem mais voraz, uma taça quebrada, algum amor mais torpe, beba. Queira algum presságio, caso ventar, feche os olhos. Se não ventar, invente alguma sensação calidamente fria, feito brisa marítima. Acalente num telefonema algum amigo distante, diga o que quiser dizer, mas com o coração aberto, acessível ao mais sutil afago, acaricie. Logo caminhe pela rua mais inóspita, procure cores, encontre vãos, bata à porta e diga. Entre tantas palavras não me encontro em qualquer sílaba, nenhuma pausa, qualquer sentido que me invada. Olho o mar somente, o mar que guardo cá dentro, o mar distante que em mim habita, feito um órgão pulsante e vital, o mar e as oscilações, e a sua mais sublime força, e o seu ressoar mais lépido. O mar é inteiro e basta-se. É azul quando assim desejar, e verde se quiser em si florestas d’água. Entendem? Não é floresta o que desejo escrever, mas algo aquém do desejo humano, acima dos pormenores que espreitamos sentados na areia, vislumbrando um mar de pensamentos variados e tempestuosos. Seria a brisa o solfejo do mar? Um sussurro mais leve? Um quê de tranqüilidade e satisfação? São tantos corpos, tantas bocas, frases, cheiros e pegadas, o mar é vasto e num instante plenamente habitou-me, ao lado alguém sem nome fuma e viaja solitário, parece estar triste, logo atrás uma mulher morena anota idéias num papel surrado, soa-me ter lacrimejado por uns vãos minutos, ao longe um casal sorridente articula inquietudes, mais distante ainda uma garota pálida apruma o seu vestido bege de leves tecidos, enquanto tira as sandálias e derrama os seus frágeis pés na suave areia, hipnotiza-me, parece um quadro, uma aquarela límpida, perco-me ressabiado entre pensamentos e indagações sobre a garota pálida, provavelmente pensa em alguém que sou eu, leva as mãos ao rosto, claramente deseja um instante de total introspecção, e quem sabe quer apenas um dia corriqueiro, o mais normal dos dias, não pretende-se inteira naquela tarde meio cinza, quer apenas um momento seu, criando em sua coletiva solidão um reconhecimento nosso, meu e dela, não entendo, o telefone toca, o táxi chega, me espera, entro sem saber o que dizer, não digo, ainda avisto o mar pelas janelas embaçadas, pra onde vai, senhor?não ouço.silêncio insípido.atordôo-me.Na terceira tentativa escuto um timbre impaciente, Gávea, por favor, desculpe, Gávea. Não diz mais nada, me calo e grito incessantemente seu nome por dentro, como quem pede o que não há nem houve em momento algum, talvez delírio, talvez. Jamais me escutaria, o carro movimenta-se, não compreendo, pelos vidros do ligeiro automóvel, pelas lentes dos meus óculos-escuros, avisto em mim, cá dentro, a pálida garota e os seus pequenos pés tão sensíveis e tão brancos, ainda vejo-me ao mar, pleno e cada vez mais distante, o táxi acelera num impulso único, mais distante, e mais e mais...

terça-feira, janeiro 22

Pré-história em pós-modernidade

Quando a saudade é um sentir distante, é lá. E faltam-me imagens, gestos afoitos, beijos inesperados, um algo previsível, contato com hora marcada, canções ensaiadas em programações de rádios madrugais, o drinque era sempre o mesmo, um baseado, às vezes, um trecho de qualquer autor contemporâneo, ora Fernanda Young, ora Martha Medeiros, eu ria, não dos trechos, mas de ti, dando a importância suprema para frases reescritas, editadas e feitas exclusivamente para emocionar doces meninas em momentos cruciais, calculados entre pausas, vírgulas estudadíssimas. Gosto das horas vagas, em mesas simples de bares quase-cheios-quase-vazios, da espera boa, dos pensamentos desconexos, e era um sorriso seu que logo alarmava-me a sua presença, chegando sempre quinze minutos antes, por prudência e uma certa educação irritante, coisa de gente que estudou em Londres, o que é o seu caso. Prefiro Nova Iorque pelo o que ela tem de despretensão e liberdade, odeio reis e rainhas e gente de postura irretocável, olhares minuciosos entre um trago e outro, me desculpo culpando o trânsito, fingindo irritação, e logo me aproximo de você, bem de pertinho. Alguém passou vendendo flores, você falara do aroma das rosas e eu nunca soube o que dizer depois, assim como do paladar de tudo, e dos sentidos mais abstratos, mulher dadaísta com fisionomias de impressionismo, eu via Tzara em cada gesto mais voraz, e você articulava sobre Pierre Auguste Renoir e eu bocejava e perguntava sobre o trabalho, falava das minhas destemperanças e xingava uma meia-dúzia de pessoas, você jamais se incomodava, mantinha-se sempre sereníssima, mas no fundo, bem sei, achava-me um anarquistazinho bom de cama, o que, para uma quase-londrina-quase-dadaísta-claramente-impressionista soava de bom grado, um vinho de boa qualidade, uns leves lençóis de seda putíssima, ops, puríssima, eu ria, pedia a conta e partíamos sem rumo enquanto decidíamos em que apartamento continuaríamos nossos pormenores, excitados com a aventura dúbia, pelo que tínhamos de extremidades, pela não linearidade dos casos, e das rotas, e dos ciclos. Eu queria Buarque, você ouvia Nina Simone, um desconcerto de toques, e peles, suores, sussurros, meia-entregas. 8 e 15 em ponto, você se foi e restou-me, claro, os aromas, algum paladar de sua boca, alguma pétala esquecida por entre um livro da Young e você...dadaísta, talvez mal lembra o meu nome e neste momento, meio a redação turbulenta de um jornal classe média, articula uma crônica quase-genial procurando um sentido pra ontem que enfeitará ironicamente uma página inteira do jornal da sexta, mudando os nomes, os perfumes e as flores, talvez orquídeas, quem sabe Kafka? O drinque muda, o bar também. Londres jamais, Leblon ou Botafogo, ainda há de pensar. Eu tomo um banho e corro pro trabalho, trânsito louco, chego atrasado, a secretária sorri ensaiada como em todos os dias, me entrega o jornal, eu dispenso. Abro a agenda, a peço que mande entrar o primeiro cliente, mais um dia de divã e devaneios, e banhos frios e ex-maridos, e paixões tórridas e vãs insanidades, escuto sonolento enquanto olho absurdado o relógio à frente, é hoje...às 8 e 15, sem falta, lá!
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Leitores queridos, este espaço fez 1 ano no último dia 20. Não sou muito atento a datas, mas sinto claramente, relendo as minhas publicações, uma intensa maturidade em meus escritos e vivencias poéticas. Agradeço cada carinho, cada mensagem bonita, cada e-mail recebido, cada scrap carinhoso, e a todos que se utilizam de meus devaneios para emoldurarem seus perfis no orkut e seus momentos mais reluzentes. É sempre muito importante para mim saber que as minhas palavras tomam rumos próprios e acariciam rostos, sorrisos e corações neste tempo de superficialidades em que vivemos. Muita inspiração e luz! Beijos e abraços.

terça-feira, dezembro 25

Rio, Dezembro.Qualquer dia, qualquer hora.

Parece outubro, e os dias vão aos poucos desfazendo-se em meus desalinhos, uso um moletom vermelho pra ver se impero uma nuance a mais no ambiente, e fico rindo bobo-bobo destas minhas aventuras. Seu disco da Rosa Passos toca incessantemente aqui em casa, "jurei te pertencer por toda a vida, guardar a sete chaves o nosso amor, a chave era só uma e foi perdida...", e eu me recordo das palavras todas, entre uma canção e outra escuto atento o silêncio voraz pra ver se entre as minúcias mais ínfimas ainda restam ressonâncias da sua voz em mim, bobagem não é? Mas é que te quero tanto bem, e fico vislumbrando fatos, revendo fotos, relendo cartas, corrigindo versos mais densos por outros mais lineares, é um contato pleno que me acaricia levemente, e eu me deixo ir sem rumo neste caminho que não é caminho, neste caminho que é somente vão. Quero saber se está dormindo bem, se tem alimentado a Poly, se comprou um quadro novo, fico pensando nos horários e nas viagens e quase esqueço-me da água que esquentei para o meu chá, penso que chá com biscoitos é o que há de mais reluzente no que diz respeito a solidão, e eu ando tão sozinho, confesso. Nem telefonemas, nem ombro de amigos, nem. Somos maduros demais para pedir a mão alheia, e no final das contas todo mundo tem de pensar no aluguel e no preço da gasolina, então me calo e vou levando sem sentido as minhas reentrâncias, vendo uns filmes que deixara pra depois, relendo Clarice, chorando e sorrindo em espasmos de tempestades, gosto do barulho d’água e da claridade dos trovões, me absurdo com a força que isto impõe, olho ressabido pelas frestas, tenho ganhado tempo com estas pequenezas, e já fico me indagando se ‘ganhado’ é correto ou proibido numa carta escrita assim a esmo, para você ler desatenta enquanto pinta as unhas (risos), decido deixar como veio, não quero emoldurar de beleza rara um desabafo cinza e prometo não me estender muito, escrevo só pra dizer que ainda estou aqui, na Rua Santo Assis nº 08, o quarto está uma bagunça, tem roupas por todos os cantos e uma toalha de rosto enfeita cinicamente a cabeceira, uns copos perdidos, uns livros abertos pela cama, tenho lido trechos desconexos, formulando histórias naquelas imagens opacas que surgem em trechos sorvidos livremente, ah, também cortei os cabelos, e não faço a barba faz uns três dias, por pura preguiça mesmo, comprei novas sandálias de borracha, me senti perdidíssimo tendo que fazer sozinho as compras do mês, acredita que eu não fazia a menor idéia da marca do feijão que usávamos aqui em casa? Pedi ajuda a uma senhorinha e acatei o seu conselho, mas nem liguei o fogo ainda, só sei fazer café e chá, ontem comi cachorro-quente, sujei minha blusa inteira, hoje pode ser que eu saia para caminhar na praia, gosto de olhar atentamente o mar e perder-me em sua infinitude encantada, na volta talvez ligue a tv, e fique alternando os canais enquanto articulo idéias rasas até pegar no sono. Ficou um tanto grande a carta, e meio chata também não é? Desabafos são sempre ocos. Não sei se lhe envio por e-mail ou se imprimo e mando selar, acho que deve ser mais valioso ler algo em mãos, sentir a matéria viva, os sentidos pulsando. No fundo eu nem sei bem se devo te enviar, sei lá...to achando tudo isso tão ruim, e meio triste também mas não quero deste modo, to numa boa, juro, tenho descoberto peculiaridades preciosíssimas em mim, ontem mesmo me descobri um ótimo regador de plantas, agora rego as plantas pela manhã e leio o jornal bocejando sem você pra rir de minhas fisionomias, o caderno da tv fica esquecido pela mesa, parece sentir falta dos seus murmúrios sobre o novo namorado da fulana, olho pra ele e quase leio as notas moriBundas, mas me resumo à economia que já é por demais complexa e vasta. Já escrevi pra caralho, eu sei, mas é que tenho estado tanto em silêncio que quando falo/escrevo sinto esta urgência de enumerar todos os fatos, um por um. O disco da Rosa ainda toca ao fundo e eu vou ficando por aqui, preciso de um banho quente e de um vinho branco, mas por hoje só me resta o chá mate e as bolachas recheadas.

Te deixo um sorriso claro e o meu amor confuso.
Seu âmago,
C.

sábado, dezembro 22

Frestas

parece que as aves se absurdam de azul
e então voam
azul flutua, creia
se absurde de azul.


fromhoej era um menino calado
e mal-visto pelos seus comportamentos
ele dava a andar de retalhos
e fumava na praia com Lino
que era um menino bem visto pelos seus comportamentos
mesmo fumando na praia e andando aos retalhos
fromhoej achava graça e sorria breus
Lino sonhava acordado desenhando versos na areia com seus brancos pés-de-vento.

se a sina for turva
desfaça o verso
nem tente um soneto
não sonhe, não vinga
promessa de lira nula
diga a ela que não há poesia
e que você tirou férias e foi pro Caribe.


sabe de uma coisa?
sabe.

quinta-feira, dezembro 20

aquarela nefasta

quadro a quadro um ponto
ponho-me em frente ao distinto traço
caminho adiante, aprimoro as feições
reverbero os caminhos pintados de sonho
irreal é a vida que vivo aos retalhos de ócio
pensamento nefasto
inunda o ônibus lotado de destemperanças
esperanças à espera de um afago breve
mas não há nada além da rota rôta, pura de cinzas
dias que findam e emergem
como todos os dias que findam e emergem
nenhuma nova cor nos olhos dela
nenhum verso perdido nas paredes sujas
pensamentos relapsos, argumento inaudível
chego ao ponto e me lanço ao caminho de casa
um banho quente, um café morno...
nenhum adorno emoldura os quadros da sala
nenhum adorno emoldura os quadros da sala
nenhum adorno emoldura os quadros da sala
insone me vingo dormindo-acordado
a real ressonância que a vã vida...cala.

domingo, dezembro 16

Mar de mim

olhos verdes cor do mar de mim
que azula-se nas manhãs rente as auroras
e transformam aquarelas na infinitude
de águas que - encantadas -
bailam ondas sutilmente

seu vestido bege tinge as tardes
que alaranjadas ganham tons de prata-
madrugada
seus passos lépidos pincelam versos-brisas
nas areias entorpecidas de Ipanema

na imensidão de mim há espaço pro amor que é seu
na quietude daqui ressoa a sombra de nós


andar pela areia estrada de carmim
que rubra a mente traz a lua que implora
seus olhos a cruzar o espaço rumo a noite
em que teremos mariposas na janela
bailando cores em música negra

sua boca espalha vinho na alameda
onde flores brincam de ser criança-estrela
acende os versos que te desenham em mim
um pleno céu de breus e multi-tons
nas pedras entretidas do Farol

na imensidão de mim há espaço pro amor que é seu
na quietude daqui ressoa a sombra de nós



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Mergulho em parceria com o poeta azul e amigo querido Alexandre Beanes