sábado, agosto 15

Restos de cigarros no asfalto bruto

Ainda posso rememorar, e assim descobrir cada astúcia e o desastre, todas as minúcias de um dia abafado, sem enredo ou turva trama, somente o solavanco dos passos sorrateiros, doces aromas embevecidos de mentiras sutis, disformes cores sobre a pele pálida, os lábios pintados meticulosamente, manchando colarinhos e desalinhando certezas, como num descompassar de dúbias aventuras, dois adolescentes inebriados com a fuga e a liberdade, expondo seus modos mais viris e as feridas de outrora, instintos cálidos, transas no antigo porão, poeiras cósmicas a desatinar fantasias, estrelas contadas nos dedos, desenhadas num parco papel, sem espaço para os versos íntimos, o sentido se fez contrário, difusas imagens, cores entrelaçadas, o quadro mais belo dos quadros, comprado em fartas parcelas, para emoldurar o silêncio e a noite, e esta falta de sono dialogando cada traço, a canção distraída, o marasmo dos mares e as ondas que retornam e explodem, invadindo pormenores, dissolvendo cartas presas em garrafas de cobre, repletas de ânsias e vãos devaneios. Os seios da sereia, ilusões postas à prova, promessas bêbadas de amor, promessas sóbrias de amores embriagados, destinos ofegantes, restos de cigarros no asfalto bruto. Pares? Palavra distinta e previsível, quem caminha lado a lado ruma um mesmíssimo percurso. Novidades num jornal popular, notas enfadonhas de um célebre estúpido. Frenesi de encantamentos? Entregas prontamente vívidas, junção de certeiros signos, mapas astrológicos, lógicas vendidas a prazo, num torpe ensinamento de encaixes perfeitos e cenas de tevê, requintados diálogos, notáveis constatações. Os romances dão conta da exata textura, a concepção de um beijo acalorado, idealizações esquizóides e acadêmicas, católicos princípios, salivas e pirocas confundem-se à culpa e ao dissabor, velhos fragmentos de inúteis poemas, poetas nasceram para morrer de asma e nada mais, artistas se drogam por entre as coxias, a história de um lorde abastado de temores, confunde-se aos escassos cafés requentados das tardes de quinta. Roteiros não chegam ao fim, amarguram sílabas em entrelinhas, o cinema é um show privê, gélido e estranho, não me reconheço, centenas de mãos perdidas em zíperes enfadonhos, toda a finalidade é dissimulada, risos frouxos ao final do tórrido ato, e o término das palmas apenas iniciam a jornada dos dias obscuros, cortinas escondem o sol, colóquios mascaram evidencias, a sombra arredia perdida entre os corredores, os olhares esquivos, a resposta inexata. Sobre o fim o que resta é o vácuo, a lacuna partida, frestas entreabertas. O final é o anti-poético, é a soma das sobras, aéreo, fantasioso, amanhãs desenganados, o vestido esquecido, é o toque longínquo, a destreza dos ratos, o sórdido entendimento, a fragilidade. Não há prosa eminente que aponte o tom exato, a contradição de firmes veracidades, madrugadas a fio, livros nunca lidos alastrando retóricas desprezíveis, nada mais importante e digno que o rosto lavado e a nova caminhada, luzes abertas no semáforo, rumos incertos na contramão. Nada além do fim se faz anunciado ou requer elegâncias em usuais concepções. A trêmula voz destemida, o impulso invariável, o cheiro da cinza e o preço do cigarro, o barulho da porta, as chaves esquecidas. A história contada a cada tortuoso passo, já não me cabem suas tramas, nem mesmo os telefonemas, habituei-me ao equivoco. O celular tocou incessantemente às 2:40 e era apenas engano, vulgares colóquios de avassaladoras crônicas, coincidências já desgastadas, assustadoramente usuais, nomes desconhecidos, cotidianos fatos, corpos entregues ao frio, um conhaque ou um gim, algo que inebrie, qualquer frase maldita e insana, algum grito que se faça inteiro, claro ópio. Este quadro ao centro da sala, qual fosse seu sarcasmo, suas culpas e vínculos, nada transparecido ou quiçá transtornado. Sua presença distinta, seu sarro nas esquinas, a velha mobília e os tropeços. Já não mais possuo a verve dos seus tantos passos, os que ditam os gestos, a lamúria e o desprezo. Não anseio costurar desfechos equivocados, eu mal sei de você, meu inicio é o vago jantar que preparo aos frangalhos, os temperos apimentados e alucinógenos, o seu fim pode ser inventado, desvairado de instintos, incerto e difuso. Os seus passos que ditam seu filme retrô, ar de afetuosa donzela, almodóvar-blue tão repleto de meias-verdades. Quanto a mim alimento-me de singelezas, minhas palavras se bastam no vácuo, escrevo para saciar urgências, páginas lançadas do oitavo andar, irregulares e torpes, inexatas na memória de um passante que, igualmente dilacerado, entre pontos e vírgulas e consternações, desvenda sutilezas em minúcias e espasmos, acolhendo sentidos que já não nos cabem.

quinta-feira, agosto 13

Labaredas

Labaredas de fogo
ondas submersas, gozos
alvos estrelados, raros
bárbaros, soldados rasos
acidentes sem percursos
saliências no saguão de trem
a voz do filho que partiu e a noite
a ânsia o anzol a linha o desalinho a falta de rima e a rima
a flama de um mar vermelho
vestido de escarlatina.

domingo, dezembro 7

Quem delira sem ter febre

Quando liguei, mal sabia o número. Fiz questão de decorar a esmo, se meu erro era o impulso, que me fosse escuro, quase claro, mal me via. Desejei você e quis sair sozinho, nunca te digo o que te move, nos movemos entre trânsitos; o nome das ruas são distintos, nada me dizem, Diga. Para onde? Fecho os olhos, quase caio num rochedo mas não sangro. Sinto falta, fome, despudor e medo. Só o vão despe o vazio em aquarelas. Você me entende? Falo sozinho. Quase te beijo. Olho suas mãos que apontam lumes. Me perco e me encontro, quase durmo. Estou sem sono. Você me incita os nervos, canto calmo e grito. Sua canção-segredo. Todos os abismos, todas as toadas. Não faz sentido, por isso escrevo. Para entender depois, talvez. Não quero mais doer em ti. Sarar suas feridas, assoprar com sutileza cada corte. Instante muda. Tudo flui. você e eu e aquela gente estranha. Nos olham esquivos, e pedem cigarros. Você me diz a hora? Eu quero estar comigo. O meu amor é cíclico, o seu amor desaba num azul mais puro. Não há amor, bem sei. Você não sabe quase nada e ri. Pede um cigarro, me olha estranho. Qual o seu nome? E segue andando como quem devora seus próprios instintos. Não mais. Tantas vezes dito. Vê se some somente mas volte pra contar-me estrelas. Ainda tenho um tempo. Ainda estou sem sono. Ainda não entendo. Apenas sinto e tão intensamente que lhe deixo ir, e assim deixando, sem consensos, me permito ir também. Tudo vazio e vão e frio e lua cheia de destinos. A sua noite triste insiste em alegrar meus dias cinzas.

segunda-feira, novembro 17

Enquanto isso

O mar, inteiro.Tampouco ando, nem tento.Paro e sinto, rio.O dia é cinza e gosto, também faz frio agora.E docemente as ondas, e levemente as curvas e toda energia. Faz tempo não te escrevo, Lúcia. Me falta um tanto. O livro, a cama, o cheiro, a xícara. Me basta o céu às vezes, descortinando os dias. Eu tenho uns medos meus, alguma aresta a ser podada, um susto. Mas nada de tempestades. Canalizando naturezas, e revelando lumes. Um tempo adentro, sem demoras porque não há esperas. Apenas ciclos, ventos, climas, brilhos. E ainda resta o mar.

quinta-feira, julho 3

Inst-antes.

Tento palavras, você me desconcerta. Almejo quem sabe um modo. Um jeito de livrar-me do ardor insípido ou te extirpar de mim. Não há qualquer vestígio de seus olhos mansos ou dos seus sutis barulhos enquanto passa algum café ou liga o secador. Também não há beleza, tudo tão opaco. Luzes que entram pelas frestas alardeando a fumaça dos cigarros, aqui apenas alguns quadros, o rádio ligado pra quebrar o eco do silêncio atordoante, estas fotos sobre a mesa envoltas em sorrisos ensaiados - como as detesto! - e uns papéis recém escritos pra ninguém, tal como este que agora esboço. Agora É o meu instante, o que escrevo é hoje, e pulsa intensa a madrugada em que passo sem sono. Não mais relutar. Não mais vislumbrar. Poetizar o breu é mergulhar num vão profundo de tantas feridas. Mas é preciso. É necessário quebrar pedras com as mãos para ver brotar depois, quem sabe, alguma flor de lótus entre os tantos destroços. Não mais relutar. Não mais vislumbrar. Ando fazendo chuva, e germinando com cautela cada sutileza destes desapontamentos. Mais um cigarro e um papel deixado a esmo. Deve ser tarde, deve ser cedo. O nosso encontro então marcado, no ponteiro às noves fora zero.

quarta-feira, março 26

Berê

O quarto é o mesmo, e amanso meus versos. Não escrevo carta alguma, tenho estado ausente ao mundo. Fumando um tanto, tragando em mim sensações de outrora. Não quero nenhuma sina, almejo um tempo de vagas idéias. Nenhum livro. Talvez um filme. Sempre canções. E lembranças, tantas delas em você. Você? Quem é? O telefone mudo. Não quero imaginar coisa alguma. Deixo um bilhete colado à geladeira, Berê chegará em instantes. "O mar me avistou pela janela, ando escrevendo versos em rastros de areia. Beijos. C!". Berê nunca entende as minhas linhas e escreve atrás das folhas a pequena lista de ingredientes que nos resta para o mês, tenho escrito exclusivamente pra Berê: palavras nulas, histórias vãs. Berê talvez nunca escutou um EU TE AMO debaixo de uma tempestade intensa, nem nunca recitou Drummond bem baixinho numa noite qualquer de uma quinta enfadonha. Berê fala bem manso e usa um lenço branco sobre os cabelos crespos. Não releio o bilhete, desligo o som e pego ligeiro alguma blusa deixada a esmo pela cama. Berê deve rir deveras de mim, Berê é feliz que só ela. O amor quando desfeito é um estrondoso caos em formato de aquarela lúdica, e Berê - minha preta querida! - mal sabe quem foi William Blake.

segunda-feira, março 10

Retórica

E resta em mim uma aventura dúbia de rumar algum caminho, qualquer que seja, que seja meu. Uma esperança insípida que quer colorir-se, invento um traço, transformo imagens em opacos lumes. Penso que estou tentando disfarçar o fato. Paro um pouco. Repenso em tudo o que está por trás do nada que habito agora, esta sala vazia, estes livros antigos. Penso em algo que vi dia desses, num sorriso desconhecido numa sessão de cinema, não...não é de amor que escrevo, é do sorriso largo e vivo, tentei buscar o rosto do rapaz e me perdi em tantos corpos, cenas ensaiadas de um roteiro vago. No final de tudo, olhando os letreiros passando, gostei mais do sorriso. Vivi mais o sorriso, estranho, esquivo, livre. A história do sorriso inesperado, alarmando um frenesi de batimentos em meu peito. Gosto de cinema. Da fila do cinema, das escadas rolantes, dos cartazes enormes, dos atores bonitos, das atrizes peitudas; gosto mais dos diálogos, do prenuncio de sentidos meus. Uma história emoldurando tantas outras, olhos atentos à imagem que nos conta o que a pessoa rude ao lado já viveu, ou viverá. Aquele sorriso me contou um conto, só pensava realmente na retórica de um trejeito sutil, quase escuro. Quis um instante de singeleza, conversar um pouco, falar de minhas sensações. Ando tão sozinho. Busquei no celular algum número latente, e emburrei meu rosto pálido ao me deparar com tantos dois e três e noves e nenhum alguém inteiro, parece difícil lidar com gente, nunca sei ao certo o que dizer, nem o que sentir. Se sinto demais, sangro inteiro. Se nada me atrai eu me firo, pareço perdido em tamanho vazio. Não liguei pra ninguém. Nunca ligo. Também não tocou meu telefone, e já me acostumei. Voltei buscando um caminho, olhando os postes e faróis, lumes reluzindo a escuridão da noite, andei à procura de uma sutileza ínfima, talvez uma flor entre as pedras, ou um papel escrito com caneta meio a copos de plástico, mas o sorriso ainda ressoava em mim, inteiro e cálido, confortante e meu, lembrei de uma canção antiga e não olhei para o relógio, devia ser tarde, devia ser cedo, queria um algo, desconhecia alguns passos, eu me encontrava nos vãos. A noite me ditava nada e era tudo o que eu esperava dela, coisa alguma, nenhum acontecimento, nada de extraordinário, tinha brisa e lua e carros e breus e eu começava a gostar do roteiro, o filme terminava com uma canção antiga e alguém sorriu pra mim meio ao clarão dos refletores, Era você, você aí se indagando sobre os modos e os climas da história, mas juro, escrevi somente pra dizer que seu sorriso me ditou tantos caminhos que, sentado na poltrona de uma sala gélida, eu vaguei por muitos mundos, e lhe disse sete vezes que te amava. É sério. Sorri de volta. A música era linda. E eu sabia a letra inteira.

segunda-feira, janeiro 28

Ressonâncias

Não escolha a fonte, não vislumbre frases, escreva o que te vem, como te vêem, assim aos descompassos, fale. Indague um trago mais afoito, alguma imagem mais voraz, uma taça quebrada, algum amor mais torpe, beba. Queira algum presságio, caso ventar, feche os olhos. Se não ventar, invente alguma sensação calidamente fria, feito brisa marítima. Acalente num telefonema algum amigo distante, diga o que quiser dizer, mas com o coração aberto, acessível ao mais sutil afago, acaricie. Logo caminhe pela rua mais inóspita, procure cores, encontre vãos, bata à porta e diga. Entre tantas palavras não me encontro em qualquer sílaba, nenhuma pausa, qualquer sentido que me invada. Olho o mar somente, o mar que guardo cá dentro, o mar distante que em mim habita, feito um órgão pulsante e vital, o mar e as oscilações, e a sua mais sublime força, e o seu ressoar mais lépido. O mar é inteiro e basta-se. É azul quando assim desejar, e verde se quiser em si florestas d’água. Entendem? Não é floresta o que desejo escrever, mas algo aquém do desejo humano, acima dos pormenores que espreitamos sentados na areia, vislumbrando um mar de pensamentos variados e tempestuosos. Seria a brisa o solfejo do mar? Um sussurro mais leve? Um quê de tranqüilidade e satisfação? São tantos corpos, tantas bocas, frases, cheiros e pegadas, o mar é vasto e num instante plenamente habitou-me, ao lado alguém sem nome fuma e viaja solitário, parece estar triste, logo atrás uma mulher morena anota idéias num papel surrado, soa-me ter lacrimejado por uns vãos minutos, ao longe um casal sorridente articula inquietudes, mais distante ainda uma garota pálida apruma o seu vestido bege de leves tecidos, enquanto tira as sandálias e derrama os seus frágeis pés na suave areia, hipnotiza-me, parece um quadro, uma aquarela límpida, perco-me ressabiado entre pensamentos e indagações sobre a garota pálida, provavelmente pensa em alguém que sou eu, leva as mãos ao rosto, claramente deseja um instante de total introspecção, e quem sabe quer apenas um dia corriqueiro, o mais normal dos dias, não pretende-se inteira naquela tarde meio cinza, quer apenas um momento seu, criando em sua coletiva solidão um reconhecimento nosso, meu e dela, não entendo, o telefone toca, o táxi chega, me espera, entro sem saber o que dizer, não digo, ainda avisto o mar pelas janelas embaçadas, pra onde vai, senhor?não ouço.silêncio insípido.atordôo-me.Na terceira tentativa escuto um timbre impaciente, Gávea, por favor, desculpe, Gávea. Não diz mais nada, me calo e grito incessantemente seu nome por dentro, como quem pede o que não há nem houve em momento algum, talvez delírio, talvez. Jamais me escutaria, o carro movimenta-se, não compreendo, pelos vidros do ligeiro automóvel, pelas lentes dos meus óculos-escuros, avisto em mim, cá dentro, a pálida garota e os seus pequenos pés tão sensíveis e tão brancos, ainda vejo-me ao mar, pleno e cada vez mais distante, o táxi acelera num impulso único, mais distante, e mais e mais...

terça-feira, janeiro 22

Pré-história em pós-modernidade

Quando a saudade é um sentir distante, é lá. E faltam-me imagens, gestos afoitos, beijos inesperados, um algo previsível, contato com hora marcada, canções ensaiadas em programações de rádios madrugais, o drinque era sempre o mesmo, um baseado, às vezes, um trecho de qualquer autor contemporâneo, ora Fernanda Young, ora Martha Medeiros, eu ria, não dos trechos, mas de ti, dando a importância suprema para frases reescritas, editadas e feitas exclusivamente para emocionar doces meninas em momentos cruciais, calculados entre pausas, vírgulas estudadíssimas. Gosto das horas vagas, em mesas simples de bares quase-cheios-quase-vazios, da espera boa, dos pensamentos desconexos, e era um sorriso seu que logo alarmava-me a sua presença, chegando sempre quinze minutos antes, por prudência e uma certa educação irritante, coisa de gente que estudou em Londres, o que é o seu caso. Prefiro Nova Iorque pelo o que ela tem de despretensão e liberdade, odeio reis e rainhas e gente de postura irretocável, olhares minuciosos entre um trago e outro, me desculpo culpando o trânsito, fingindo irritação, e logo me aproximo de você, bem de pertinho. Alguém passou vendendo flores, você falara do aroma das rosas e eu nunca soube o que dizer depois, assim como do paladar de tudo, e dos sentidos mais abstratos, mulher dadaísta com fisionomias de impressionismo, eu via Tzara em cada gesto mais voraz, e você articulava sobre Pierre Auguste Renoir e eu bocejava e perguntava sobre o trabalho, falava das minhas destemperanças e xingava uma meia-dúzia de pessoas, você jamais se incomodava, mantinha-se sempre sereníssima, mas no fundo, bem sei, achava-me um anarquistazinho bom de cama, o que, para uma quase-londrina-quase-dadaísta-claramente-impressionista soava de bom grado, um vinho de boa qualidade, uns leves lençóis de seda putíssima, ops, puríssima, eu ria, pedia a conta e partíamos sem rumo enquanto decidíamos em que apartamento continuaríamos nossos pormenores, excitados com a aventura dúbia, pelo que tínhamos de extremidades, pela não linearidade dos casos, e das rotas, e dos ciclos. Eu queria Buarque, você ouvia Nina Simone, um desconcerto de toques, e peles, suores, sussurros, meia-entregas. 8 e 15 em ponto, você se foi e restou-me, claro, os aromas, algum paladar de sua boca, alguma pétala esquecida por entre um livro da Young e você...dadaísta, talvez mal lembra o meu nome e neste momento, meio a redação turbulenta de um jornal classe média, articula uma crônica quase-genial procurando um sentido pra ontem que enfeitará ironicamente uma página inteira do jornal da sexta, mudando os nomes, os perfumes e as flores, talvez orquídeas, quem sabe Kafka? O drinque muda, o bar também. Londres jamais, Leblon ou Botafogo, ainda há de pensar. Eu tomo um banho e corro pro trabalho, trânsito louco, chego atrasado, a secretária sorri ensaiada como em todos os dias, me entrega o jornal, eu dispenso. Abro a agenda, a peço que mande entrar o primeiro cliente, mais um dia de divã e devaneios, e banhos frios e ex-maridos, e paixões tórridas e vãs insanidades, escuto sonolento enquanto olho absurdado o relógio à frente, é hoje...às 8 e 15, sem falta, lá!
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Leitores queridos, este espaço fez 1 ano no último dia 20. Não sou muito atento a datas, mas sinto claramente, relendo as minhas publicações, uma intensa maturidade em meus escritos e vivencias poéticas. Agradeço cada carinho, cada mensagem bonita, cada e-mail recebido, cada scrap carinhoso, e a todos que se utilizam de meus devaneios para emoldurarem seus perfis no orkut e seus momentos mais reluzentes. É sempre muito importante para mim saber que as minhas palavras tomam rumos próprios e acariciam rostos, sorrisos e corações neste tempo de superficialidades em que vivemos. Muita inspiração e luz! Beijos e abraços.

terça-feira, dezembro 25

Rio, Dezembro.Qualquer dia, qualquer hora.

Parece outubro, e os dias vão aos poucos desfazendo-se em meus desalinhos, uso um moletom vermelho pra ver se impero uma nuance a mais no ambiente, e fico rindo bobo-bobo destas minhas aventuras. Seu disco da Rosa Passos toca incessantemente aqui em casa, "jurei te pertencer por toda a vida, guardar a sete chaves o nosso amor, a chave era só uma e foi perdida...", e eu me recordo das palavras todas, entre uma canção e outra escuto atento o silêncio voraz pra ver se entre as minúcias mais ínfimas ainda restam ressonâncias da sua voz em mim, bobagem não é? Mas é que te quero tanto bem, e fico vislumbrando fatos, revendo fotos, relendo cartas, corrigindo versos mais densos por outros mais lineares, é um contato pleno que me acaricia levemente, e eu me deixo ir sem rumo neste caminho que não é caminho, neste caminho que é somente vão. Quero saber se está dormindo bem, se tem alimentado a Poly, se comprou um quadro novo, fico pensando nos horários e nas viagens e quase esqueço-me da água que esquentei para o meu chá, penso que chá com biscoitos é o que há de mais reluzente no que diz respeito a solidão, e eu ando tão sozinho, confesso. Nem telefonemas, nem ombro de amigos, nem. Somos maduros demais para pedir a mão alheia, e no final das contas todo mundo tem de pensar no aluguel e no preço da gasolina, então me calo e vou levando sem sentido as minhas reentrâncias, vendo uns filmes que deixara pra depois, relendo Clarice, chorando e sorrindo em espasmos de tempestades, gosto do barulho d’água e da claridade dos trovões, me absurdo com a força que isto impõe, olho ressabido pelas frestas, tenho ganhado tempo com estas pequenezas, e já fico me indagando se ‘ganhado’ é correto ou proibido numa carta escrita assim a esmo, para você ler desatenta enquanto pinta as unhas (risos), decido deixar como veio, não quero emoldurar de beleza rara um desabafo cinza e prometo não me estender muito, escrevo só pra dizer que ainda estou aqui, na Rua Santo Assis nº 08, o quarto está uma bagunça, tem roupas por todos os cantos e uma toalha de rosto enfeita cinicamente a cabeceira, uns copos perdidos, uns livros abertos pela cama, tenho lido trechos desconexos, formulando histórias naquelas imagens opacas que surgem em trechos sorvidos livremente, ah, também cortei os cabelos, e não faço a barba faz uns três dias, por pura preguiça mesmo, comprei novas sandálias de borracha, me senti perdidíssimo tendo que fazer sozinho as compras do mês, acredita que eu não fazia a menor idéia da marca do feijão que usávamos aqui em casa? Pedi ajuda a uma senhorinha e acatei o seu conselho, mas nem liguei o fogo ainda, só sei fazer café e chá, ontem comi cachorro-quente, sujei minha blusa inteira, hoje pode ser que eu saia para caminhar na praia, gosto de olhar atentamente o mar e perder-me em sua infinitude encantada, na volta talvez ligue a tv, e fique alternando os canais enquanto articulo idéias rasas até pegar no sono. Ficou um tanto grande a carta, e meio chata também não é? Desabafos são sempre ocos. Não sei se lhe envio por e-mail ou se imprimo e mando selar, acho que deve ser mais valioso ler algo em mãos, sentir a matéria viva, os sentidos pulsando. No fundo eu nem sei bem se devo te enviar, sei lá...to achando tudo isso tão ruim, e meio triste também mas não quero deste modo, to numa boa, juro, tenho descoberto peculiaridades preciosíssimas em mim, ontem mesmo me descobri um ótimo regador de plantas, agora rego as plantas pela manhã e leio o jornal bocejando sem você pra rir de minhas fisionomias, o caderno da tv fica esquecido pela mesa, parece sentir falta dos seus murmúrios sobre o novo namorado da fulana, olho pra ele e quase leio as notas moriBundas, mas me resumo à economia que já é por demais complexa e vasta. Já escrevi pra caralho, eu sei, mas é que tenho estado tanto em silêncio que quando falo/escrevo sinto esta urgência de enumerar todos os fatos, um por um. O disco da Rosa ainda toca ao fundo e eu vou ficando por aqui, preciso de um banho quente e de um vinho branco, mas por hoje só me resta o chá mate e as bolachas recheadas.

Te deixo um sorriso claro e o meu amor confuso.
Seu âmago,
C.

sábado, dezembro 22

Frestas

parece que as aves se absurdam de azul
e então voam
azul flutua, creia
se absurde de azul.


fromhoej era um menino calado
e mal-visto pelos seus comportamentos
ele dava a andar de retalhos
e fumava na praia com Lino
que era um menino bem visto pelos seus comportamentos
mesmo fumando na praia e andando aos retalhos
fromhoej achava graça e sorria breus
Lino sonhava acordado desenhando versos na areia com seus brancos pés-de-vento.

se a sina for turva
desfaça o verso
nem tente um soneto
não sonhe, não vinga
promessa de lira nula
diga a ela que não há poesia
e que você tirou férias e foi pro Caribe.


sabe de uma coisa?
sabe.

quinta-feira, dezembro 20

aquarela nefasta

quadro a quadro um ponto
ponho-me em frente ao distinto traço
caminho adiante, aprimoro as feições
reverbero os caminhos pintados de sonho
irreal é a vida que vivo aos retalhos de ócio
pensamento nefasto
inunda o ônibus lotado de destemperanças
esperanças à espera de um afago breve
mas não há nada além da rota rôta, pura de cinzas
dias que findam e emergem
como todos os dias que findam e emergem
nenhuma nova cor nos olhos dela
nenhum verso perdido nas paredes sujas
pensamentos relapsos, argumento inaudível
chego ao ponto e me lanço ao caminho de casa
um banho quente, um café morno...
nenhum adorno emoldura os quadros da sala
nenhum adorno emoldura os quadros da sala
nenhum adorno emoldura os quadros da sala
insone me vingo dormindo-acordado
a real ressonância que a vã vida...cala.

domingo, dezembro 16

Mar de mim

olhos verdes cor do mar de mim
que azula-se nas manhãs rente as auroras
e transformam aquarelas na infinitude
de águas que - encantadas -
bailam ondas sutilmente

seu vestido bege tinge as tardes
que alaranjadas ganham tons de prata-
madrugada
seus passos lépidos pincelam versos-brisas
nas areias entorpecidas de Ipanema

na imensidão de mim há espaço pro amor que é seu
na quietude daqui ressoa a sombra de nós


andar pela areia estrada de carmim
que rubra a mente traz a lua que implora
seus olhos a cruzar o espaço rumo a noite
em que teremos mariposas na janela
bailando cores em música negra

sua boca espalha vinho na alameda
onde flores brincam de ser criança-estrela
acende os versos que te desenham em mim
um pleno céu de breus e multi-tons
nas pedras entretidas do Farol

na imensidão de mim há espaço pro amor que é seu
na quietude daqui ressoa a sombra de nós



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Mergulho em parceria com o poeta azul e amigo querido Alexandre Beanes

domingo, novembro 25

Telefonema

- Alô...
- Sou eu...

(naquele Eu reconheceu todas as suas dúvidas, seus descompassos, tantos tropeços. enxergou com minúcia cada palavra não-dita, no torpe silêncio que precede algum desfecho, algum caminho. ressonância atordoante, feito trovoadas, naquele baque monumental, intenso, voraz. foi neste Eu que um dia perdeu-se inteira, e se entregou num labirinto de pernas, nucas, peitos, braços, lábios, e numa noite dessas lacrimejou lembranças, entristeceu todos os porta-retratos, emoldurou canções de amores findos, recolheu cada aroma que restara, qualquer rastro sutil, algum bilhete, uma blusa esquecida, algum pequeno presságio, neste Eu que um dia fora ela em tantas formas, em muitas forças, entrega plena que desfaz-se bruscamente, sem restar tempo algum para compreensões, entendimentos, indagações, ferida ainda aberta que incessantemente pulsa, lembrando, segundo a segundo, o estrago devastador de uma rude tempestade, já não há casa, já não há folhas, versos, já não há risos, não há cortiça, nem planos, nem quartos, as portas já não batem, as chaves se perderam, todas as chaves, trancando em si também todos os vãos sentidos.)

- Ah, oi...pode falar...
- Desculpe estar ligando essa hora, é que eu esqueci de buscar os meus sapatos de festa e estou necessitado deles, você pode deixar na portaria?Passo aí daqui a pouco pra pegá-los!

quinta-feira, novembro 15

Prece

Para Lolló , e para Você e os seus olhos de mar

vislumbres de um novo céu, talvez um pouco menos denso, coisas do verão que chega arrebatando corpos, tempestuoso, monumental, clareando os pensamentos que vagavam moribundos, dando espaço pro azul romper barreiras, celestial azul a encantar olhares, alaranjando as tardes frescas, algumas brisas teimam em bailar rente aos olhos, folhas que voam lépidas, pétalas lúdicas feito o som de um piano, pétalas e piano, flor que supõe-se música, música de se olhar, olhos que se cantam melodias, ouvidas pelo peito ofegante de amor, é tanto sentir que impera no tempo que o azul ganha novas nuances, o crepúsculo nos traz aquarelas, eu vejo os pincéis e as pinturas, e o seu rosto e as pinturas, e a sua boca e as pinturas, e as suas sardas nas costas e todas as ondas lá embaixo – quando eu lhe dizia suavidades neste meu canto de olhar que não é mudez – e em si tudo é música, quando os olhos se escutam e entendem-se dentro, quando um olhar mora dentro um do outro, moradia cálida, sutilezas em focos de lumes que se entrelaçam, iluminando-se e junto clareando os caminhos, quando o amor torna-se além e contagia a natureza com a sua claridade...já tentou pintar o rosto do mar?e dizer o ruído das folhas?e apalpar o sentido de um vento? caminhos emoldurados de encantos, nossos passos desenhando versos, rastros que deixam poesia no percurso rente às águas, um rumo de sutis belezas pincelando sonhos, tão nossos, tão livres, e a minha prece pra que você fique, até não saber mais partir sem mim...

quinta-feira, novembro 1

mergulho de cabeças

Para Lila

porque há decisões
e porque posso escolher
a cor do fundo do poço
verde-limão talvez lilás
vermelho, não
azul-marinho

e hei de acertar os pontos
marcar o X corretamente
há de se ter muita cautela
com poços e cores e fundos
sobretudo

mergulho receoso
claro
plena escuridão de cinza
o poço é cinza, tijolo e cimento
e a cor são idéias e o fundo sou eu
azul-marinho em águas de reservatórios

e posso vislumbrar nuances
a cor do fundo
do poço
e ir
a pé
a pá
que cava a terra
que abre as fendas
que corroe breus
a luz que entra logo dispersa
e volta o breu do fundo sem fundo
e sem cor
sou eu o fundo
sem fundo e sem cor
já não há poço
nem água
nem alma
nem dor
só há vermelho e vermelho e vermelho
e vermelho

lágrimas sutis são poças enfadonhas
quase ninguém percebe que elas me inundam
e matam
poços que se fundem dentro e jorram
borrando a maquiagem da garota pálida
agora nua e vulnerável
verde-limão talvez lilás
vermelho, não
azul-marinho.

sexta-feira, outubro 26

a partir da partida

é desconcertante rever-me
e não ver-me aos meus passos
as minhas falas meus gestos
meus olhares sem foco

angustiante me olhar
e olhar outro ser
sem ser eu sem ser quem
nunca vi nem nem sei
quem se foi
quem se fui
um adeus que alivia
dor que dói já não sendo

demasiado tato falta ar
o ar sufoca-me
já não sou ao seu lado
já não sei quem tu és...
nunca soube o seu nome
não saber impulsiona-me
a partir da partida
sem início sem enredo
onze horas onze e um
conto o tempo e tão somente
só mente...
finda
finda

desintegro-me a noite
breu de palidez
amanhecido
sem boêmia sem poesia
busquei querer ser plácido
fuga repentina da profundidade inacabada
não houve busca não houve entrega
entoei ressabido um "de nada" abafado
só silêncio e frio e indigestas ressonâncias...

quinta-feira, outubro 18

Guardanapo

Quiçá uma piscina de versos, nado em palavras, mergulho límpido...
Mas é que às vezes os pântanos me encantam de medo e de breu, alguém me disse - talvez eu mesmo - que alguns tesouros só reluzem no breu pleno, eu apaguei a luz e escutei Madeleine sussurrando "Diz-se que além dos mares / Ali, sob o céu claro / Existe uma cidade / A estada é encantada /E sob as grandes árvores escuras / A cada noite /Pra lá se vão todas as minhas esperanças...", foi então que eu descobri que o meu breu também pode ser azul, quando eu assim desejar.


Mergulhe.



Beijos,
um blues e um dry martini...
Eu sou aquele, lá dentro.

terça-feira, outubro 9

Caminhador

Habito, sobretudo, em papéis.Às vezes, de súbito, desprendo-me de folhas e vagueio por aí, descompassado, escrevendo em postes, em luzes, em carros com seus autofalantes, nas calçadas sujas, na mulher rude fumando o seu Marlboro, no cão que late ao léu, sem dono; no silêncio, no escuro da noite, na cintilância dos breus.Escrevo em ruas, escrevo em passos.Caminha dor...
Mas logo volto aos papéis, desarrumados, repletos de auroras, e por ali adormeço, inteiro e lépido. É que sempre vivi amor em palavras, me apaixonei por versos, por metáforas, citações, poesias.
É que sempre lidei melhor com palavras, com a naturalidade de quem molda um artefato pleno, cristalino, minucioso; quanto aos humanos, encontram-se normais em demasia - buscando água salgada em cachoeiras, almejando outros planetas, quiçá todo o universo e esquecendo, por completo, que há um mundo, cá dentro, esquecido, ainda não desbravado em sua verdadeira infinitude e importância - , tornam-se, portanto, tão mais complexos, tão mais difusos, tão mais distantes do que há de próximo em cada Ser, estar Sendo, Viver...
Eu sou dentro.

quinta-feira, outubro 4

Beleza triste

Você me disse que possuo uma beleza triste
e se sorrio há nuances de amargura em meus lábios
você beijou a minha boca rente às lágrimas
e provou o doce mais sublime gota a gota

E ainda disse que meus olhos são nostálgicos
e que há vislumbres de um céu cinza em meu azul
logo em seguida falou da cor de minha blusa
mas eu só uso preto...

Se eu fosse você enxergava a tristeza que carrega
se eu fosse você percebia o quanto seus olhos são densos
se eu fosse você despia-me destas pétreas armaduras
se eu fosse você compreenderia que somos os mesmos
que no fundo ainda sonham auroras e minúcias vãs...

A gente pode ser feliz da maneira que nos cabe
e nós podemos ser livres
e nós podemos ser leves
só me leve pra olhar o mar revolto
só me leve pra olhar o mar revolto
só me leve pra olhar o meu céu cinza
bem dentro dos seus olhos densos...