quarta-feira, setembro 26

603B

eu fito o seu olhar e digo
melhor
eu fito o meu olhar e digo
assim
eu fito o seu olhar no meu e digo
também
fitando meu olhar no seu dizendo:
..............................................................................................
e jaz uma declaração mútua de amor.

- amanhã às 17 hs passo em seu apartamento.

sexta-feira, setembro 21

abstrações

desmorona-me
agora some
dissipa o verso
a poesia viva
finda
agora vá...
jamais verá
jamais verão
nada palpável
abstração
tudo mentira
mentira
tira
quiçá delírios
tudo ilusão
antes de ir
desligue a luz
e mude o tom
nenhum bilhete
nenhuma nota
no violão
vá,
bata a porta
silêncio pleno
adeus,
paixão...
vou esquecer-te
vou esquecer-me
um dry martini
talvez drummond
até dormir sem sono
sem sonho
rente à luz opaca
da televisão...


na noite infame
os gatos miam
ao léu sem dono
na noite infame
te chamo te clamo
ao léu sem dono
na noite infame os gatos miam
só miam,
porque não sabem dizer te amo



(mas sou eterno
e você tão moço
clara diferença
eu sou poema
você...esboço)








terça-feira, setembro 18

...

Para Paula Berbert,
(quase) sob encomenda.


Cheguei quase lá mas fui ao menos
e disse mais ou menos que te quero
da próxima vez te falo sem receios
sobre o mar o amar o amargo
e o amarelo
Porque ninguém entende a minha forma de dizer te quero
porque ninguém entende a minha forma de dizer
porque ninguém entende a minha forma
porque ninguém entende
porque ninguém
por que?

quinta-feira, agosto 23

para sempre, de repente

ainda bem que você foi embora sem nem ao menos me dizer "vou indo...", livrou-me da cena patética de te ver voltando dizendo que esqueceu as chaves.
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nas variações de lógica, um dia pensei ser sublime quando no fundo era somente vão, no mal-amar dos bons-amores todos os sentidos carregam consigo tantas possibilidades...

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já não me interessa as suas indagações sobre o tempo e a rapidez das coisas, tampouco a sua imagem cult-estudei-fora-sou-o-máximo que você teima em insistir bancar.

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na verdade, sinceramente, eu devia estar bem doido quando disse que teamava, o amor tem dessas coisas, todo mundo sabe, todos uns cegos sem receios que rumam o atlântico sem mapa e sem bússola, sorridentes e confiantes, e foi assim também comigo e eu também me perdi, claro.

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a canção de amy ainda ressoa pela casa, os versos densos ainda me dilaceram, gosto da canção e do que ela me traz de nostalgia e presságio - paradoxal e cálida - o volume precisa ser exato, no tilintar dos acordes que adentram em mim sem rodeios, trazendo você pra mais perto. recordo os seus olhos pequeninos, fechados, ouvindo o que há de mais cristalino em cada ressonância, a sua alma entregue àquele timbre escuro, dando a nuance exata do instante de entrega. aos poucos nossos pés encostam-se, displicentemente, e se acariciam rente às melodias-brisas que nos tomam, olhares perdidos que se encontram, mãos que se entrelaçam num tempo de intensidade, como quem toca o corpo querendo tocar a alma.

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você, em seu todo, é uma extensa metáfora, dessas que nos põem em choque, pensando, refletindo, desvendando sentidos, mas você é oco, não há nada de relevante em suas entrelinhas, há vazio apenas, uma burrice bem-articulada de quem leu Neruda para passar num concurso do Estado, e a terrível nostalgia do garoto que queria ganhar o mundo, e hoje mora num apartamento cinzento de uma rua esquisita em Botafogo.

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eu lembro que eu citei Ana Cristina César, assim que nos conhecemos: "Porque essa falta de concentração? Se você me ama, por que não se concentra?", você sorriu um sorriso frouxo, eu entendi como um sorriso de quem já leu tudo na vida e já não se surpreende com tamanha euforia num verso lido a esmo, para assim ficar urdindo com tranqüilidade a poesia que lhe surgiu de repente, mas não, era um sorriso que me falava "o que você está dizendo agora?", e eu ali, tecendo pensamentos tão bons, tão profundos, enquanto você à minha frente vagava em idéias tão rasas, tão equivocadas, tão nulas.

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para onde vão os amores que se cessam?em que lugar eles descansam?qual o caminho que percorrem, será que se perdem e adentram em outros corpos?porque?porque teimamos em vislumbrar eternidades?só para doer ainda mais quando a realidade crua bater à porta? não seria mais simples - e mais inteligente - viver o eterno que habita em cada instante?

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entenderam que o amor terminaria ali, olharam a ponte abissal que os separavam, compreenderam que não havia mais motivo para atravessá-la, que lhes restavam a dor e as sensações que pairavam no tempo, sentiram o amor se esvaindo, e isso é como passar uma faca bem afiada em suas almas já tão desgastadas, as mãos trêmulas, um vazio amargando a boca, o amor virando areia, o amor caminhando com seus próprios pés, tomando cada vez mais distância, até desaparecer por entre as dunas...

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ele não percebeu quando ela se foi, ela não olhou pra trás quando decidiu ir embora; na verdade, ninguém sabe ao certo quem partiu primeiro.

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Termino esta história com o mesmo silêncio que pairou sob a despedida, e antes ainda, sob todo o tempo em que ficamos juntos.Tempo de silêncios, de palavras vazias, de discursos frígidos.Paira por aqui este infindável silêncio, silêncio esse, que deve ter sido o discurso mais romântico, e verdadeiro, que você me ofereceu.

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mas é que a felicidade cabe em cada espaçozinho ínfimo; creia, ultimamente dei pra dormir abraçado com ela...

sexta-feira, agosto 17

Dos bilhetes de Lila - Parte I

das agruras dos dias, seus torpes olhares, de desdém ou vislumbre - nuances apenas -,num instante brilhantes noutro somente cinzas, espasmos de tantos desejos, que já não habitam este espaço, vagueiam descompassados em olhares terceiros, plantas que morrem por excesso d’água, versos reescritos por erros de concordância, mas metáforas não tocam o corpo como eu te toquei, metáforas são só metáforas, distantes, difusas, ambíguas e frágeis - você. “a maldição do poeta seria tocar o mundo por metáforas...” . e assim, sem fim nem início, termino o que de mim não começou num breve impulso, sentimento que em mim pairou por todos os segundos, urdidos de delírios, presságios, silêncios e ardores. no tilintar dos sentires, no mínimo vão de lábios que se desencontram, vozes que cessam sem beijos, amores entendem-se findos, corações se põem à procura de casulos, despetalados, buscando o que um dia flor, tornou-se fardo...

sexta-feira, agosto 10

acordes

Fugindo da normalidade
encontrei a raridade dos sentires
dos prazeres
dos deveres que não devo
das mentiras que não digo (sim, eu minto!)
quando eu falo de tristeza
quando esqueço da beleza
das canções e dos poemas
dos tufões e dos dilemas
(teorias, teoremas...)
Passos meus descompassados
seguros, desenfreados
diários e sem fim...
Qualquer canto é canto, e pronto.
Um acorde meio tonto, dois acordes e são tantos,
acordo no ponto, enfim
no aqui e no além
venho para ser alguém,
mas sem esquecer de mim...


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Poeminha escrito aos 17 anos e encontrado, despretensiosamente, no avesso de um caderno escolar, entre inúmeros rabiscos, gravuras torpes e pequenos corações que continham as letras "C e S" emoldurando o seu interior.

quarta-feira, agosto 8

Me gusta

Eu te gosto, e isso é brisa. Gostar de você e gostar de biscoitos, tão simples. Gostar de sua voz e gostar de Caetano, gostar. Eu gosto. Das suas sobrancelhas. Dos seus badulaques. Do sorriso grande. Dos passos.Da letra. Eu te gosto, e isso é noite. Voltar de carro pela estrada velha. Sentar nas areias de Itacoatiara. Perceber as estrelas mais perto. Mar bravio. Ondas nossas. Gosto. Dos olhos que se encontram. Dos silêncios que se dizem. Melodias em seus dedos. Seus anéis. Violão. Eu te gosto. Suores. Entregas. Dois corpos. Um só corpo. Vodka. Duas. Duas mesmo. Gemidos. Dezenas. Minúcias. Gosto. Gostar de você é frágil. Poema. Multi-cores. Fotografias. Tênis vermelhos. Programa do Jô. Pés que se entrelaçam. Cobertores. Eu te gosto. Do soprar de pérolas. Do sonhar de nuvens. Do frescor de outono. Gostar. Bolo de limão. Meias e chinelos. Café. Domingo de tardezinha. Conversa frouxa. Paixão Segundo GH. Frestas entreabertas. Aretha Franklin. Eu te gosto, e isso é claridade. Enfeites natalinos. Dicionário. Textos de Marla. Esculturas de areia. Morangos. Tempestades. Grama vasta. Piscina. Eu gosto. Cartas antigas. Sinais. Perfumes. Jardins. Flores. Docilidades. Gostar de você é leve. Sua blusa verde. Suas divagações. Suas cifras. Seus cabelos molhados. Sua tv ligada a esmo. Gostar. Seus lábios. Seu caderno de contos. Suas viagens. Seus afagos. Seus enlaces. Vislumbres. Decalques. Sutilezas. Possibilidades.Gosto. Cerejas. Sentidos. Cores. Movimentos.Nuances. Encontro. Liberdade. Gostar de você e gostar de gostar de você, presságios que pairam...en-cantos.
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Eu te gosto, e isso é amplitude...

quarta-feira, julho 25

impulso

inclino o meu corpo em direção a seus olhos, sedentos por uma vodka e um cigarro, reclamando do calor e do trânsito e da vida e da demora de tudo; inclino ainda mais o meu corpo, enquanto articulas sobre as notícias e o trabalho e o aluguel absurdo e o preço da gasolina; inclino o meu corpo em extensa demasia, enquanto comentas o filme em cartaz, o livro que lera, as piruetas do seu cão, a canção da novela; inclino intensamente o meu corpo, você indaga-se a respeito da política, da meteorologia, da gastronomia, da filosofia, dos seus dissabores; inclino plenamente o meu corpo num só impulso em direção a seus olhos, e desabo cruamente no chão.Você percebe-me inteiro, palpável, acessível, vulnerável; retraio com destreza o meu corpo acanhado, para que já não me vejas...

terça-feira, julho 24

sem mapa

onde as brisas serão rosas cálidas
enlaçando-se ao meu desalinho
ventanias submersas no tempo
reluzindo o presságio dos mares

e após o vislumbre das ondas
me dizes que vais me esperar
às 02:15 no antigo cais
direi-te adeus com meus olhos de céu
navegante das águas bravias

no oceano sem mapa em que partes
choverá por todo o gélido inverno
e as águas do céu serão tuas
beberás cada gota de mim

terça-feira, julho 17

Sobre sutilezas e introspecções

Difícil à beça falar de economia Lulística enquanto se esta louco de paixão, com o coração aos descompassos, a boca seca e o celular te olhando com um certo ar de desdém; chego a pensar que ele está com defeito, e desligo e ligo imediatamente o aparelho, para ver se assim ele chama e eu atendo e é você do outro lado convidando pra um pizza, onde falaremos de qualquer assunto, só para estar perto um do outro, poder olhar de perto cada dente mais à mostra, cada minúcia dos lábios, os gestos tão soltos, cabelos despenteados entre chopps e mordidas.Tão bom estar assim, perto, acessível, sem buscas vãs, sem discussões profundas sobre o mundo, só a gente ali naquele bar quase cheio, mas ainda assim só a gente naquele lugar, lembrando de um dia qualquer de um tempo sem importância, enquanto você abre a bolsa e pega um batom e eu o tomo suavemente de suas mãos citando Caymmi, “não pinte esse rosto que eu gosto, que eu gosto, é que é só meu...”, você sorri tão feliz que a essa altura eu já ganhei a noite, e fico extremamente contente só em te ver sorrindo assim pra mim, sem cerimônias, sem receios.Você é livre e isso me encanta tanto, tenho vontade de ficar te olhando por um tempo, só te olhando, percebendo as tais particularidades tão suas, os teus gestos mais afoitos, o seu jeito de olhar para as coisas, e sabe o que eu gosto mais ainda?Quando você suspira pra falar, então articula sem rodeios, e logo em seguida pergunta se falou demais, eu acho tão bonito, você falando e falando e eu, no mais profundo ardor da paixão, me desligando de todos os sons e fitando somente a sua imagem encantada à minha frente, pintura em movimento, e de repente o som cessa de uma só vez e você indaga tão sutilmente se excedeu-se em seus pensamentos; tão linda, tão perto, tão minha, me aproximo e te abraço com todos os suspiros e desejos, me aninhando em seu pescoço como quem tem sede de amor e digo que ‘não’, que é sempre maravilhoso escutá-la, que realmente este filme do Almodóvar é um primor artístico, e logo emendo falando do novo disco do Caetano e você escuta tão atentamente que eu me pergunto se estou falando sozinho, enquanto você adentra em cada sutileza minha, deixo-me levar por todo aquele encanto e continuo articulando pensamentos e citando versos e olhando fixamente em seus olhos e te amando em cada detalhe de seu rosto e te desejando em cada frescor de sua voz e me apaixonando cada vez mais em cada instante ainda mais profundamente e porra...nada do telefone tocar!


- Sabe, Clóvis, li num artigo um pensamento instigante, dizendo que "a condução da política de juros - os maiores do mundo - pelo governo é desastrosa porque dinheiro que deveria ser investido em obras públicas de grande impacto econômico é totalmente drenado ao setor financeiro..."

- Aham...sei...interessante...

segunda-feira, julho 16

a busca

garagens
instantes
estantes
e tratores
estacionam
em direção
ao sentido
em direção
ao sentido sim tido?
ou ao sentido sentido?
será-sarah-serão-sarau-será que chegarão?
senão este poema
será o quê,
então?
sentido sem tido
é apenas sen
garagens
instantes
estantes
e tratores
estacionam
em direção ao
tido.

ao volante da vida
o poeta brinca de palavras-
encruzilhadas.

terça-feira, julho 3

Trilha Sonora pra Juliana

numa poça d'água que restara
de uma tempestade repentina
ela afunda suas meias-beges
para esfriar a cabeça e se esquenta
rumo à Arábia Saudita
porque quer provar sushis exóticos

ganha as horas contando estrelas-do-mar
e dançando Ronnie Von em frente ao espelho
suspeita até não pertecer à este mundo
mas ela morre de medo de Et's e nunca nunca
nunca andou num disco-voador

dirigindo o seu escort verde-uva ela fita a orla de Ipanema
ela escuta rock and roll, ajeita os cabelos, e pensa em mim...

terça-feira, junho 19

Guerra e Paz

acenda a luz enquanto não há noite
para escurecer os nossos versos

desfaça estas palavras já demasiadas
disfarça, é que vem vindo gente
apaga este cigarro e me beije
no escuro dos teus pensamentos

agora clareou, por ora clareou
se soubessem a paz que habita em seus lábios
levavam você pro Iraque, levavam você pra Israel

mas não vá para longe enquanto ainda há noite
fique aqui comigo, tenha pressa não...

agora clareou, por ora clareou
se soubessem a paz que habita em seus lábios
levavam você pra Rocinha, levavam você pro Borel

mas não vá para longe enquanto ainda há noite
fique aqui comigo, tenha pressa não...

domingo, junho 17

Viva!

Minha poesia não quer crítica
(não quer ser crítica!)
não quer lirismos nulos
não quer aplausos
não quer caderno B
não pretende ser cult
nem hype, nem soft
não quer demências
não quer ser blasê.
Minha poesia não quer rimar
(e rima!)
tem pernas próprias, caminha...
tem vida vivida ao relento, suor
conhaques, sorrisos, leituras, loucuras.
Minha poesia não quer assinar
primeiras páginas
não quer tecer paixonites vãs
não quer visitar Paris
prefere a Lapa, minha poesia.
Minha poesia dispensa cerimônias
não frequenta saraus e seus geniais verseios gélidos
(enquanto os gênios não pensam na punhetinha ante-sono,
articulam bobagens com ar lord inglês).
Minha poesia quer cessar os mandamentos ray society
quer distinguir nuances e manchar aquarelas inteiras.
Minha poesia quer ser menino, moleque, livres pensamentos
feito brisa fresca entrando pela fresta entreaberta
feito mar azul visto ao descer uma estrada
feito amor revivido ao dobrar uma esquina
feito adeus sofrido no cais
(oscilações, cores distintas, tantos sentires...).
Minha poesia quer ser agora, quer ser presente
minha poesia só quer viver...

terça-feira, junho 5

sutilezas

carece de dizer o que deseja
e beija o travesseiro a cada noite
finge a felicidade marejada
em olhos que me ditam desorientação

não diga que me ama assim tão vã
arrume as suas coisas e venha para mim
a casa é sua e eu sou teu
sem dizer sim, sem cerimônias

não diga que me ama, não precisa
dizer não é comprovação
sutilezas me descrevem teus sentidos
em meus ouvidos tantas palavras soam

porque nem tudo é poesia
e porque nem todo verso fala de amor
mas a essência que nos une mostra-se clara
dispensa perguntas, dispensa palavras

sentidos calejados pelo tempo
no não-dizer que mostra-se indecifrável
querer-te me soa o mais natural dos sentidos
e então naturalmente os dias passam...

diz mais o euteamo das minúcias
e eu digo e desdigo em cada gesto
me diz também em cada traço, em cada passo
diálogos moldados de beleza
caminhos se entrelaçam sob estrelas
em nosso encontro reinará a sutileza...

domingo, maio 13

Pra Juliana cantar no carnaval

e não me importa mais agora
eu já não penso tanto assim também já passou da hora
para falar sobre o tempo das flores há de se ter ao menos minúcias de primavera
mas é inverno
mas é inverno
visto o meu capuz londrino e ando pelos caminhos mais inóspitos
que é onde você sempre está com a cabeça na lua
não vai à praia, não toma chuva, não dança nua durante o banho
não lê revistas, não fala gírias, não canta Chico e ainda me chama de estranho
você é música que não se toca
e eu me recuso a cantar para o mundo que esta sua estranheza arrebata-me inteiro
é que ninguém vai me entender mesmo...
é que ninguém vai me entender mesmo...
e não me importa mais agora
eu já não penso tanto assim também já passou da hora
para falar sobre o tempo das flores há de se ter ao menos minúcias de primavera
mas é inverno
mas é inverno
repousaremos nossos pensamentos em cálidas paisagens
enquanto sonhamos acordados embaixo deste cobertor de lã

segunda-feira, maio 7

O mar, o amar e o amargo

Ela parou pra ver o mar, eles andavam em silêncio, mal percebeu que os passos dela já não o acompanhavam, manhã nublada, praia vazia, ele a olhava de longe, vislumbrando as águas, tentando encontrar-se nas oscilações da vida, no rumo brusco em que o amor tomou, estava linda com aquela blusa larga e os cabelos assim desleixados, não entendiam aquele vão abissal que pairava entre eles, um vão que naquele momento mostrou-se palpável, visto plenamente nesta distância de 15 ou 20 passos que os separavam, ela parada frente às ondas, ele pensando no amor que sentia; uma ponte de sentimentos desconexos, as ondas batendo nas pedras, nuances de sonhos perdidos em passos deixados na areia, cada passo contando uma história, mas os caminhos nunca se encontravam, alguns passos eram mais contidos, alguns por demais ligeiros, mais leves, mais densos, não havia sintonia na história ali contada entre rastros e ondas. Distanciavam-se por puro instinto, não porque queriam, o destino traçara um outro rumo para ambos, a energia que pairara era disforme, sentidos tão presentes em cada alma que era dolorido até olhar nos olhos, triste demais ver um amor se desfazendo assim aos poucos, desmoronando os castelos tão sólidos, desviando a brisa suave que entrava pela fresta entreaberta, desconstruindo minúcias, arruinando sutilezas; a dor de quem perde um amor tão sublime provavelmente é a dor de quem perde um membro vital e a partir de então tem de aprender a viver de outra forma, readaptar-se à vida com uma cicatriz profunda vista nos olhos marejados, lidar com o "bom dia" que calou-se nas manhãs dói, não mais ligar e perguntar bobagens dói, escutar uma canção antiga que remete-se ao amor vivido dói, dormir sozinho e deixar a tv ligada para certificar-se de que ainda há vida ao redor dói muito; ambos doíam inteiramente naquele silêncio latente que os tomou, mal sentiam os próprios pés, mal sabiam-se quietos porque os pensamentos eram muitos, porque haviam lembranças tão vivas, porque palavras não-ditas ainda ressoavam em seus ouvidos; continuaram distantes, ela mais à frente, encontrando no mar os sentidos que já não tinha, ele a olhava com olhos pequeninos, de quem quer acalentar mas já não pode, deixou-se fluir junto ao barulho das ondas, se entregou à dor, até esquecer-se naquele instante, enquanto ela fitava o mar com o seu olhar perdido e choroso, ambos percebendo meticulosamente as sensações que os tomavam, ali ficaram por minutos, ou horas, este conceito de tempo é muito relativo quando se está prestes a perder o grande amor.

Entenderam que o amor terminaria ali, olharam a ponte abissal que os separavam, compreenderam que não havia mais motivo para atravessá-la, que lhes restavam a dor e as sensações que pairavam no tempo, sentiram o amor se esvaindo, e isso é como passar uma faca bem afiada em suas almas já tão desgastadas, as mãos trêmulas, um vazio amargando a boca, o amor virando areia, o amor caminhando com seus próprios pés, tomando cada vez mais distância, até desaparecer por entre as dunas.


Ele não percebeu quando ela se foi, ela não olhou pra trás quando decidiu ir embora; na verdade, ninguém sabe ao certo quem partiu primeiro.

segunda-feira, abril 30

cáminhadô

caminha dor
caminhador
andou, andou, se foi...
caminhou.

domingo, abril 22

ao céu azul do mar

olhe pro mar, amor
olhe pro céu
olhe pra mim como quem olha a si mesma
e se desencontre em todos os meus beijos
se perca em todos os sorrisos
pra não se perder na dor
olhe pro mar, amor
olhe para me avistar
mergulhe bem nos meus olhos
agora diga o que viu com os olhos fechados
ao mar e ao céu
ao mar ao mar ao céu
ao céu azul do mar
cantaremos melodias
e veremos este encanto acontecer
ao mar e ao céu
ao mar ao mar ao céu
ao céu azul do mar
olhando as estrelas caindo no mar
e o azul do céu escurecer...

(versos escritos na areia
deixando rastros deste amor no tempo
ondas batendo, cabelos ao vento
corpos sedentos por mar e prazer
seus olhos azulando a noite densa
agora tudo pode acontecer...)

segunda-feira, março 26

acessos

eu hoje revejo os seus versos
e me ponho a pensar em seus badulaques azuis-
cor de mar



somos jovens pra pensar no fim do mundo
foi você quem disse
somos o mundo quando transformarmo-nos em três
que logo depois serão quatro
- eu lhe disse



a chave está com o porteiro
entre sem fazer barulho
eu posso estar dormindo-
acordado buscando
os tons reais do
caminho lúdico
nos sons que
transcrevo


minha cara
no espelho
remete-me
ao tempo
em que
dançamos
descompassos
num dia
de chuva
e de frio


minha cara, minha cara, minha cara
sinta-se em casa...

regue as plantas, leia os jornais
pinte as unhas de vermelho-escarlate
prenda os cabelos, passe um café

ajeite os portas-retratos, ria da minha desordem
experimente usar o meu perfume
e faça um bolo de limão


quando sair
deixe um bilhete-
poesia
e guarde a imagem
dos meus sonhos
azuis
oscilando
entre canções
de amores
multi-coloridos



eu posso acordar de repente
querendo sonhar sonhos seus...