terça-feira, abril 12
Desdobrando os labirintos
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Clóvis Struchel
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15:52
2
Deixaram-se levar...
segunda-feira, março 7
Embora
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Clóvis Struchel
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18:14
4
Deixaram-se levar...
terça-feira, agosto 3
Seu sim
Rude
Mesmo quando diz sim
Não pelo o que há de liberto
Em simplório gesto
Vê-se pequeno
Menor que os insetos
Que sugam suas coxas
E logo rumam pra outra
Seu sim
Espécie de alforria
Brancos libertos
A dizer:
Quase morro
Quando subo o morro
Sim
Som que espalha-se
Por entre as cortinas
Revistas antigas
Canteiros, cantigas
Sim
Prossiga
Em caso de dúvida
Liga
Jamais siga tendências
Elas tendem a desabrochar
Nenhum modo nem moda
Siga atentamente
Bobagem se preocupar
Com o jeito de caminhar
Tragos e conhaques
Esqueça os desastres
Lembre de sonhar
Não cure a ferida
Vil também vívida
Dói dos ralos cabelos
Até o vão calcanhar
Sim
Para travestis e putas
Vagantes, bruxas
E bruxos
Cortiços, luxos
Cantina, bar
Sim
Para o esfarrapado
E o burocrata
Sim sem ensaios
Sem jogadas
Sim
Ah sim...
Pra não negar
O osso
O esgoto
O desgosto
O cachorro
Sem molho
Ou com molho
Pronto pra salgar
O dente doído
Elo corrompido
O pai, o marido
O vão do umbigo
A centralizar
O que há de ser
O que há de sarar
Num tempo quando
Onde, ontem
Amanhecerá.
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Clóvis Struchel
,
15:49
4
Deixaram-se levar...
segunda-feira, julho 12
O frio e a frigidez
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Clóvis Struchel
,
17:05
2
Deixaram-se levar...
terça-feira, junho 22
Nu
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Clóvis Struchel
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15:02
2
Deixaram-se levar...
segunda-feira, junho 7
O lábio e o labirinto
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Clóvis Struchel
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16:55
6
Deixaram-se levar...
quinta-feira, maio 6
Um riso
Um riso,
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Clóvis Struchel
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10:29
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Deixaram-se levar...
sábado, novembro 28
Âmago
Pega um livro sobre a estante, “Terras baixas” de Joseph O’neill, lê nove capítulos numa só entrega, alimenta-se de tais palavras qual fosse seu alicerce, um porto-seguro, afagos sutis em seus cabelos rasos e sedosos. Anota num bloco algumas frases de impacto, quer pensar sobre elas, almeja encontrar algum sentido que lhe faça balbuciar o seu peito, esquece do tempo, esquece de si e de tais feridas, não sente vontade ligar para alguém e contar suas já antigas lamúrias, por um instante se esquece de todas as dores que tanto o assusta, em noites de frio e vagos cafés, aprimora seus faros ainda há pouco tão desarmados, quer fuçar cada lástima e todo o desvario, plantar qualquer semente que faça florescer este gosto de novos ares em seu peito cansado de tais compaixões, deseja somente seguir este fluxo, encontrar seu caminho, caminhar rente aos seus destinos, que fazem-se junto aos seus tantos passos, tudo cíclico, brados contínuos, como o descompassar deste coração temeroso, escondido em seu casulo de puras penas, maltratado e por vezes ignorado, como então agir firmemente tendo sobre o peito um gélido órgão pulsante e sem vida?Quer removimentar, reinstaurar cada bloco de pedras, quebra-las com as mãos, e talvez até construir algo que valha quiçá um verso, ou apenas um riso. Ou então jogar fora estas quinquilharias, esquece-las de uma vez por todas, permitir-se alterar os climas, mudar os quadros na parede, deixar a barba por fazer, barba de quatro ou cinco dias, mostrar-se cru, nu aos olhares dispersos e atentos a cada gesto mais afoito do primoroso músico, não mais compactuara com estes ensaios de bom moço, não quer mostrar-se feito um fantoche esquizóide elaboradamente fantasiado por um pálido executivo do atual mercado fonográfico pop, quer apenas mostrar-se como é, e isto, pensando racionalmente, não é pedir muito. Lhe custa abundantemente caro estes retratos de sorrisos prontos, não se percebe ali, parece um personagem, não um personagem vanglorioso como estes dos bons romances que lê, mas um personagenzinho mediado, igual aos demais, um belo rosto de propagandas de margarina, com roteiros felizes e insuportavelmente perfeitos, feitos e refeitos, elaborados por equipes especificas, tudo criado detalhadamente para impressionar, causar impacto, ressoar gritinhos de “u-hul” em adolescentes fantasiosos e deslumbrados, não quer mais este estigma, não pode mais admitir tal brutalidade contra a sua própria natureza. Decidiu mandar uma meia-dúzia ir para a puta que o pariu, caso fosse necessário. Mas já não fará este tipo de cena, com textos decorados, luz prontamente idealizada, palavras encantadoras e singelas. Sente nojo, um certo despudor, quer andar um pouco, escutar umas canções em seu Ipod, olhar o mar, fechar os olhos e sentir a brisa calmamente acariciando seu rosto, depois comer em alguma lanchonete onde se sirva uma batata-frita decente e coca-cola sem gelo, quer apenas isso, agora.Poderia querer mais, poderia alugar um jatinho e ir ver a noite caindo em Barcelona, ou então arrendar a suíte presidencial do Copacabana Palace e dar uma festa só para putinhas de classe média, todas moradoras da Zona sul, sedentas por pirocas cravejadas de brilhantes e farta quantidade de cocaína sobre um tampão de vidro. Mas não, não pensa em coito agora, não se impulsiona a tal aventura jovial. Quer apenas comer as suas batatas, tomar sua coca e ouvir Rosa Passos tranquilamente, sem pressa, sem procuras nem autógrafos ou fotos posadas com eufóricos transeuntes. É o que fará, encontra um boné em seu closed abarrotado por roupas enviadas pelos mais badalados estilistas do país, veste uma calça “Diesel”, apanha suas havaianas e uma camiseta branca, confortável e fresca, pega sua carteira e as chaves sobre a mesa, e sai sem destino prévio, não leva o celular, não quer ser encontrado por ninguém, adora fazer isso, enlouquecer de preocupação suas sempre disponíveis assessoras, ultimamente, inclusive, este tem sido o seu esporte predileto.
Embaraçado. É assim que se sente. Desde o fio mais escasso dos seus cabelos, até a ponta do dedo mindinho dos seus pés robustos e brancos como nuvem. “Tudo é uma questão de respirar fundo, contar até dez, respirar novamente”, já escutou este conselho centenas de vezes, e chega a ficar impaciente quando o mesmo se repete. Tem tentado seguir esta máxima, mas confessa que isto não está lhe oferecendo nenhum ganho específico, pelo contrário, se sente um monge gordo tibetano, daqueles que se dizem levitar, e logo nota-se ridiculamente idiota, por ambos os casos: um por ter tentado seguir esta técnica de respiração atenta, em vão, dois por ter zombado anarquicamente dos tais monges gordos tibetanos, que nada tem a ver com esta trama. “Se for pra me foder, que seja com você meu bem...” , pensa isto e cai em gargalhadas, e logo emenda outros pensamentos tão insignificantes e inglórios como este, idéias irrelevantes, feito bilhetes entregues por baixo das portas, poeiras antigas por sobre os tapetes, esquemas de refúgio para singelos namorados comerem todas as negras que encontram no cardápio, simplicidades e abstrações, já deu no saco esta palavra: abstração. Acho que ninguém agüenta mais ouvi-la, portanto não direi mais, procurarei um sinônimo, um destes bem acertados, ajeitados detalhadamente, lapidados em frias têmperas, editados e publicados no auge de seu mais sublime sentido. Mas agora não, nem daqui a pouco. Agora somente me cabe contar as suas astúcias, quer mesmo pensar em asneiras, falar umas safadezas por telefone, tocar uma punheta, acender um cigarro. Pode parecer simplório aos olhares esquivos de estranhos leitores, talvez soe um tanto rebelde, palavras assim, tão desajeitadas, mas onde me movo, e o que posso ver, é mais disforme do que os labirintos dos sonhos derradeiros, ressonâncias mórbidas, cheiro de um perfume “doce travesti”. Existem três tipos básicos de perfume: masculino, feminino e “doce travesti”. Era justamente este último que Sofia usava, inalando seu cheiro por todo o apartamento, inebriando homens e garotos e até algumas mulheres mais atiradinhas. Ao final de sua gargalhada repentina, lembra-se da água que havia deixado no fogão, vai preparar uma massa, faz tanto tempo que não cozinha para si, depois abrirá um vinho de boa safra e ficará ali, com sua massa e o seu vinho, e os seus pensamentos irrelevantes tal como aquele que lhes contei, “se for pra me foder, que seja com você meu bem” pensa de novo, mas dessa vez não ri, pelo menos não tanto como na primeira vez, talvez por ter caído na real, entendido exatamente o que quer dizer isso, precisa de um terapeuta, pra agora, num tempo de urgências, quer esmurrar a porta de um consultório e entrar aos solavancos, contar todos os seus abismos e tempestades, atirar para o teto cada vômito e tormento, seus dedos goela abaixo mostrando-lhe evidencias que jamais quis escutar, mas já está um pouco tarde, passou das 22 horas, vai ter que deixar isso pra depois, ele sempre deixa “isso” pra depois mesmo, precisa pensar melhor, nunca aceitou muito bem o fato de expor suas feridas com tamanha clareza e, no fundo, também tem a plena consciência de que terapeutas igualmente choram descompassados em noites cinzas, fazem massas só para si, tomam vinhos de safra ruim, argumentam pensamentos chulos, recitam versos de Ana Cristina César assim meio-para-alguém-meio-para-o-vento, ajustam ponteiros e contam minutos, desabam suas facetas de super poderosos a cada toque mais sutil e femíneo, são humanos, portanto, sofrem de amor e odeiam suas mães, como todos, e pasmem, é verdade, até fazem cocô.
- Alô?
-Oi Júlio, sou eu...
Naquele Eu reconheceu todas as suas dúvidas, seus descompassos, tantos tropeços. Enxergou com minúcia cada palavra não-dita, no torpe silêncio que precede algum desfecho, algum caminho. Ressonância atordoante, feito trovoadas, naquele baque monumental, intenso, voraz. Foi neste Eu que um dia perdeu-se inteiro, e se entregou num labirinto de pernas, nucas, peitos, braços, lábios, e numa noite dessas lacrimejou lembranças, entristeceu todos os porta-retratos, emoldurou canções de amores findos, recolheu cada aroma que restara, qualquer rastro sutil, algum bilhete, uma blusa esquecida, algum pequeno presságio, neste Eu que um dia fora ele em tantas formas, em muitas forças, entrega plena que desfaz-se bruscamente, sem restar tempo algum para compreensões, entendimentos, indagações, ferida ainda aberta que incessantemente pulsa, lembrando, segundo a segundo, o estrago devastador de uma rude tempestade, já não há casa, já não há folhas, versos, já não há risos, não há cortiça, nem planos, nem quartos, as portas já não batem, as chaves se perderam, todas as chaves, trancando em si também todos os vãos sentidos.
- Ah sim, pode falar, Sofia.
Júlio responde em tom ríspido, faz toda a força que lhe cabe para parecer seguro.
-É com relação aos papéis, como você sabe estou noiva, e chega um momento em que é preciso se decidir, não dá pra ficar adiando...
-É verdade, não podemos deixar as coisas pela metade!
-Te liguei para saber como faremos...
-Faremos do jeito que você quiser!
-Falei com meu advogado, ele disse que vai precisar de algumas assinaturas, somente. Não será tão burocrático!
-Ótimo então! Peça pra que entre em contato com o meu, te mando os detalhes por e-mail.
-Ok, pode ser. Está tudo bem contigo?
“Como está tudo bem comigo? Irônica. Sarcástica. Insolente e frígida!”
-Tudo maravilhoso e com você?
-A vida anda corrida, mas nada que me desanime!
-Que ótimo!Você nunca foi desanimada mesmo...
-Pois é!Estou voltando pro Brasil para cuidar de tudo e resolver algumas pendências na empresa.
Júlio sabe que Sofia nunca se importou com a empresa do pai, um arquiteto renomado, investidor do mercado imobiliário. Acredita piamente que ela só virá para assinar os cujos papéis, sua carta de alforria programadamente elaborada.
- Quando chega?
-Dia 14 de setembro, uma terça-feira!
-Tudo bem, a gente se fala...
-Tentei te ligar ontem à noite!
-Ontem à noite eu nem existia...
-O quê?
-Nada, apenas um pequeno devaneio...
“Porque eu fui falar assim, meu deus? Essa minha mania cafona em emoldurar frases de impacto.”
-Não quero que tudo fique distante entre a gente!
-Mas as coisas estão distantes, não podemos fugir do que é óbvio!Neste momento, por exemplo, um oceano inteiro nos separa!
-Às vezes até me esqueço disso!
-Tudo bem, Sofia, mas eu não!
-Desculpe...
-Não tem que se desculpar!A vida é como é, e eu sinceramente mal sei o que te dizer...
-Então não diga nada, apenas sinta!
- ( )
- ( )
Uma pausa abissal toma o corpo de ambos, como modificar este tom?Porque então não trataram logo de se esquivar de qualquer assunto que remetesse ao que viveram? Poderiam ser mais simples, apenas tratar dos papéis e pronto, mas não...lá vem o passado todo desenvolto, pronto para dilacerar o presente já tão enfadonho e deixar um quê, um nó sem gravatas, num futuro próximo.
-Eu vou ter que desligar, meu querido! Te quero bem...
Odeia quando lhe chamam assim. Ele entoa a voz.
-Também te quero!
-Me promete uma coisa?
-Se não for algo exageradamente sacrificante...
-Acho que não é, só queria te ouvir ao violão cantando “Turvos olhares”...
-Vou pensar e te digo...
Ele ri, impactado. Ela não entende a resposta, mas faz que entendeu.Não quer desconsertar a conversa mais do que já está desconsertada.
-Então, sendo assim, pense direitinho...
-Você só pode estar brincando comigo!
-Eu estou falando sério!
- Faça o seguinte, ponha o disco pra tocar e ouça duzentas vezes...
-Você sabe que não é a mesma coisa!
-É, eu sei exatamente que não é a mesma coisa! Nada entre a gente é a mesma coisa!
-Eu não quero mais falar da gente!
-Foi você quem me ligou!
-Para falar dos papéis...
-Danem-se os pápeis!
- Bom, eu vou encerrar esta conversa! Me desculpe, mais uma vez...
Júlio desliga o telefone sem se despedir, antes mesmo de Sofia terminar sua frase. Um desacato, um sorriso frouxo bem na sua cara, cara pálida de quem esqueceu o caminho de casa, de quem perdeu o dinheiro da passagem e caminha insolente pelas ruas de Praga, algum solavanco lhe toma o peito, já não sente suas pernas, quer tomar um banho demorado, uma ducha perfeitamente morna, precisa abundantemente se sentir limpo, limpo de toda aquela sujeira, daquele assunto deslavado, daquela voz meticulosamente serena, sente-se um pierrô com roupas rotas e abafadas, quer esquecer este telefonema, esquecer estes papéis, esquecer o nome da mulher que ama e tal oceano o qual ela mesma disse por ora esquece-lo. O telefone toca de novo, Júlio atende impaciente.
- Sou eu ainda...
-O que você quer?Acabar com minha noite?
-Quero dizer que eu vou te ver quer você queira ou não...
-Ok, Sofia. Boa noite pra você!
Ele desliga de novo, num só ímpeto, encosta numa das bordas do confortável sofá, acende um cigarro, e chora feito um menino arredio que se perdeu da mãe, em plena avenida paulista, tomada por gente, carros, buzinas, monóxido de carbono e amores distintos, desfeitos, confusos, na contramão dos instintos mais precisos, viscerais, opostos aos sentidos palpáveis, cintilantes, tudo vago, vário, lacunas partidas, exaustivo breu.
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Clóvis Struchel
,
13:40
3
Deixaram-se levar...
sexta-feira, setembro 18
O parto
Não, não é pra ninguém estas palavras que arrebento, embora liberto de tais comiserações, ainda trago algum ranço de raiva ou descaso, puras lástimas, fortes apegos. Já não me movo pela casa, o quarto é o meu abrigo mais redentor, não almejo sinas nem estradas, apenas algum vento norte que entre pelas frestas alardeando algum presságio. Nenhuma sigla eminente, as senhas revelaram-se frágeis e deveras claras, não almejo o verbo mais intrínseco, não sei dos versos que esboço, meu nome é um amontoado de memórias e instintos, ao ponto de levar-me ao pé do mais poroso abismo, todos os perigos, uma noite escura. Agora mesmo ponho-me a dilacerar tais feridas, esquecer cada frase insuspeita, hesitar um poema perdido, por entre gavetas, bem no fundo do sem fundo das coisas que deixei para trás, a poeira sobre os livros, alardeando os dias e cada clima esperado, a fonte que deságua ininterrupta, segundos e sentidos que se rompem, sua noite é um embaraçar de suores e desejos, sonhos de brancas nuvens, infantis idealizações, príncipes e sapos, bucetas e pererecas, nenhum trafego comedido, tudo frio e um tanto desalmado, as putas fumando nos becos, os velhos catando quinquilharias, é o que lhes restam, é o que me cabe, já não vejo suas cores, cinzas de um diário popular, quase algum arroubo, uma espera bêbada, talvez um descanso – estaria repetindo? - qualquer distanciamento, ou breves lembranças, escuras e sórdidas, não assino abaixo, nem sequer existo. (vozes que enchem singelos balões, olhos que preenchem o vôo, a fuga repentina, o enjôo dos meses, logo, o ovo se parte, três ou quatro quimeras, um sorriso afável, o parto, o horário, eis o nascimento.)
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Clóvis Struchel
,
20:20
6
Deixaram-se levar...
sábado, agosto 15
Restos de cigarros no asfalto bruto
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Clóvis Struchel
,
13:23
2
Deixaram-se levar...
quinta-feira, agosto 13
Labaredas
Labaredas de fogo
ondas submersas, gozos
alvos estrelados, raros
bárbaros, soldados rasos
acidentes sem percursos
saliências no saguão de trem
a voz do filho que partiu e a noite
a ânsia o anzol a linha o desalinho a falta de rima e a rima
a flama de um mar vermelho
vestido de escarlatina.
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Clóvis Struchel
,
14:49
1 Deixaram-se levar...
domingo, dezembro 7
Quem delira sem ter febre
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Clóvis Struchel
,
21:10
9
Deixaram-se levar...
segunda-feira, novembro 17
Enquanto isso
O mar, inteiro.Tampouco ando, nem tento.Paro e sinto, rio.O dia é cinza e gosto, também faz frio agora.E docemente as ondas, e levemente as curvas e toda energia. Faz tempo não te escrevo, Lúcia. Me falta um tanto. O livro, a cama, o cheiro, a xícara. Me basta o céu às vezes, descortinando os dias. Eu tenho uns medos meus, alguma aresta a ser podada, um susto. Mas nada de tempestades. Canalizando naturezas, e revelando lumes. Um tempo adentro, sem demoras porque não há esperas. Apenas ciclos, ventos, climas, brilhos. E ainda resta o mar.
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Clóvis Struchel
,
13:56
8
Deixaram-se levar...
quinta-feira, julho 3
Inst-antes.
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Clóvis Struchel
,
15:42
18
Deixaram-se levar...
quarta-feira, março 26
Berê
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Clóvis Struchel
,
19:01
13
Deixaram-se levar...
segunda-feira, março 10
Retórica
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Clóvis Struchel
,
14:28
7
Deixaram-se levar...
segunda-feira, janeiro 28
Ressonâncias
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Clóvis Struchel
,
18:37
10
Deixaram-se levar...
terça-feira, janeiro 22
Pré-história em pós-modernidade
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Clóvis Struchel
,
19:10
10
Deixaram-se levar...
terça-feira, dezembro 25
Rio, Dezembro.Qualquer dia, qualquer hora.
Te deixo um sorriso claro e o meu amor confuso.
Seu âmago,
C.
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Clóvis Struchel
,
20:14
15
Deixaram-se levar...
sábado, dezembro 22
Frestas
e então voam
azul flutua, creia
se absurde de azul.
fromhoej era um menino calado
e mal-visto pelos seus comportamentos
ele dava a andar de retalhos
e fumava na praia com Lino
que era um menino bem visto pelos seus comportamentos
mesmo fumando na praia e andando aos retalhos
fromhoej achava graça e sorria breus
Lino sonhava acordado desenhando versos na areia com seus brancos pés-de-vento.
se a sina for turva
desfaça o verso
nem tente um soneto
não sonhe, não vinga
promessa de lira nula
diga a ela que não há poesia
e que você tirou férias e foi pro Caribe.
sabe de uma coisa?
sabe.
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Clóvis Struchel
,
16:11
2
Deixaram-se levar...
quinta-feira, dezembro 20
aquarela nefasta
quadro a quadro um ponto
ponho-me em frente ao distinto traço
caminho adiante, aprimoro as feições
reverbero os caminhos pintados de sonho
irreal é a vida que vivo aos retalhos de ócio
pensamento nefasto
inunda o ônibus lotado de destemperanças
esperanças à espera de um afago breve
mas não há nada além da rota rôta, pura de cinzas
dias que findam e emergem
como todos os dias que findam e emergem
nenhuma nova cor nos olhos dela
nenhum verso perdido nas paredes sujas
pensamentos relapsos, argumento inaudível
chego ao ponto e me lanço ao caminho de casa
um banho quente, um café morno...
nenhum adorno emoldura os quadros da sala
nenhum adorno emoldura os quadros da sala
nenhum adorno emoldura os quadros da sala
insone me vingo dormindo-acordado
a real ressonância que a vã vida...cala.
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Clóvis Struchel
,
17:42
4
Deixaram-se levar...
domingo, dezembro 16
Mar de mim
olhos verdes cor do mar de mim
que azula-se nas manhãs rente as auroras
e transformam aquarelas na infinitude
de águas que - encantadas -
bailam ondas sutilmente
seu vestido bege tinge as tardes
que alaranjadas ganham tons de prata-
madrugada
seus passos lépidos pincelam versos-brisas
nas areias entorpecidas de Ipanema
na imensidão de mim há espaço pro amor que é seu
na quietude daqui ressoa a sombra de nós
andar pela areia estrada de carmim
que rubra a mente traz a lua que implora
seus olhos a cruzar o espaço rumo a noite
em que teremos mariposas na janela
bailando cores em música negra
sua boca espalha vinho na alameda
onde flores brincam de ser criança-estrela
acende os versos que te desenham em mim
um pleno céu de breus e multi-tons
nas pedras entretidas do Farol
na imensidão de mim há espaço pro amor que é seu
na quietude daqui ressoa a sombra de nós
========================================
Mergulho em parceria com o poeta azul e amigo querido Alexandre Beanes
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Clóvis Struchel
,
15:46
3
Deixaram-se levar...
domingo, novembro 25
Telefonema
- Sou eu...
(naquele Eu reconheceu todas as suas dúvidas, seus descompassos, tantos tropeços. enxergou com minúcia cada palavra não-dita, no torpe silêncio que precede algum desfecho, algum caminho. ressonância atordoante, feito trovoadas, naquele baque monumental, intenso, voraz. foi neste Eu que um dia perdeu-se inteira, e se entregou num labirinto de pernas, nucas, peitos, braços, lábios, e numa noite dessas lacrimejou lembranças, entristeceu todos os porta-retratos, emoldurou canções de amores findos, recolheu cada aroma que restara, qualquer rastro sutil, algum bilhete, uma blusa esquecida, algum pequeno presságio, neste Eu que um dia fora ela em tantas formas, em muitas forças, entrega plena que desfaz-se bruscamente, sem restar tempo algum para compreensões, entendimentos, indagações, ferida ainda aberta que incessantemente pulsa, lembrando, segundo a segundo, o estrago devastador de uma rude tempestade, já não há casa, já não há folhas, versos, já não há risos, não há cortiça, nem planos, nem quartos, as portas já não batem, as chaves se perderam, todas as chaves, trancando em si também todos os vãos sentidos.)
- Ah, oi...pode falar...
- Desculpe estar ligando essa hora, é que eu esqueci de buscar os meus sapatos de festa e estou necessitado deles, você pode deixar na portaria?Passo aí daqui a pouco pra pegá-los!
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Clóvis Struchel
,
14:17
13
Deixaram-se levar...
quinta-feira, novembro 15
Prece
Postado por
Clóvis Struchel
,
20:16
8
Deixaram-se levar...
quinta-feira, novembro 1
mergulho de cabeças
porque há decisões
e porque posso escolher
a cor do fundo do poço
verde-limão talvez lilás
vermelho, não
azul-marinho
e hei de acertar os pontos
marcar o X corretamente
há de se ter muita cautela
com poços e cores e fundos
sobretudo
mergulho receoso
claro
plena escuridão de cinza
o poço é cinza, tijolo e cimento
e a cor são idéias e o fundo sou eu
azul-marinho em águas de reservatórios
e posso vislumbrar nuances
a cor do fundo
do poço
e ir
a pé
a pá
que cava a terra
que abre as fendas
que corroe breus
a luz que entra logo dispersa
e volta o breu do fundo sem fundo
e sem cor
sou eu o fundo
sem fundo e sem cor
já não há poço
nem água
nem alma
nem dor
só há vermelho e vermelho e vermelho
e vermelho
lágrimas sutis são poças enfadonhas
quase ninguém percebe que elas me inundam
e matam
poços que se fundem dentro e jorram
borrando a maquiagem da garota pálida
agora nua e vulnerável
verde-limão talvez lilás
vermelho, não
azul-marinho.
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Clóvis Struchel
,
14:24
12
Deixaram-se levar...
sexta-feira, outubro 26
a partir da partida
é desconcertante rever-me
e não ver-me aos meus passos
as minhas falas meus gestos
meus olhares sem foco
angustiante me olhar
e olhar outro ser
sem ser eu sem ser quem
nunca vi nem nem sei
quem se foi
quem se fui
um adeus que alivia
dor que dói já não sendo
demasiado tato falta ar
o ar sufoca-me
já não sou ao seu lado
já não sei quem tu és...
nunca soube o seu nome
não saber impulsiona-me
a partir da partida
sem início sem enredo
onze horas onze e um
conto o tempo e tão somente
só mente...
finda
finda
desintegro-me a noite
breu de palidez
amanhecido
sem boêmia sem poesia
busquei querer ser plácido
fuga repentina da profundidade inacabada
não houve busca não houve entrega
entoei ressabido um "de nada" abafado
só silêncio e frio e indigestas ressonâncias...
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Clóvis Struchel
,
14:51
5
Deixaram-se levar...
quinta-feira, outubro 18
Guardanapo
Mas é que às vezes os pântanos me encantam de medo e de breu, alguém me disse - talvez eu mesmo - que alguns tesouros só reluzem no breu pleno, eu apaguei a luz e escutei Madeleine sussurrando "Diz-se que além dos mares / Ali, sob o céu claro / Existe uma cidade / A estada é encantada /E sob as grandes árvores escuras / A cada noite /Pra lá se vão todas as minhas esperanças...", foi então que eu descobri que o meu breu também pode ser azul, quando eu assim desejar.
Mergulhe.
Beijos,
um blues e um dry martini...
Eu sou aquele, lá dentro.
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Clóvis Struchel
,
23:21
8
Deixaram-se levar...
terça-feira, outubro 9
Caminhador
Habito, sobretudo, em papéis.Às vezes, de súbito, desprendo-me de folhas e vagueio por aí, descompassado, escrevendo em postes, em luzes, em carros com seus autofalantes, nas calçadas sujas, na mulher rude fumando o seu Marlboro, no cão que late ao léu, sem dono; no silêncio, no escuro da noite, na cintilância dos breus.Escrevo em ruas, escrevo em passos.Caminha dor...
Mas logo volto aos papéis, desarrumados, repletos de auroras, e por ali adormeço, inteiro e lépido. É que sempre vivi amor em palavras, me apaixonei por versos, por metáforas, citações, poesias.
É que sempre lidei melhor com palavras, com a naturalidade de quem molda um artefato pleno, cristalino, minucioso; quanto aos humanos, encontram-se normais em demasia - buscando água salgada em cachoeiras, almejando outros planetas, quiçá todo o universo e esquecendo, por completo, que há um mundo, cá dentro, esquecido, ainda não desbravado em sua verdadeira infinitude e importância - , tornam-se, portanto, tão mais complexos, tão mais difusos, tão mais distantes do que há de próximo em cada Ser, estar Sendo, Viver...
Eu sou dentro.
Postado por
Clóvis Struchel
,
20:47
7
Deixaram-se levar...
quinta-feira, outubro 4
Beleza triste
Você me disse que possuo uma beleza triste
e se sorrio há nuances de amargura em meus lábios
você beijou a minha boca rente às lágrimas
e provou o doce mais sublime gota a gota
E ainda disse que meus olhos são nostálgicos
e que há vislumbres de um céu cinza em meu azul
logo em seguida falou da cor de minha blusa
mas eu só uso preto...
Se eu fosse você enxergava a tristeza que carrega
se eu fosse você percebia o quanto seus olhos são densos
se eu fosse você despia-me destas pétreas armaduras
se eu fosse você compreenderia que somos os mesmos
que no fundo ainda sonham auroras e minúcias vãs...
A gente pode ser feliz da maneira que nos cabe
e nós podemos ser livres
e nós podemos ser leves
só me leve pra olhar o mar revolto
só me leve pra olhar o mar revolto
só me leve pra olhar o meu céu cinza
bem dentro dos seus olhos densos...
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Clóvis Struchel
,
20:50
3
Deixaram-se levar...
quarta-feira, setembro 26
603B
melhor
eu fito o meu olhar e digo
assim
eu fito o seu olhar no meu e digo
também
fitando meu olhar no seu dizendo:
..............................................................................................
e jaz uma declaração mútua de amor.
- amanhã às 17 hs passo em seu apartamento.
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Clóvis Struchel
,
20:03
8
Deixaram-se levar...
sexta-feira, setembro 21
abstrações
desmorona-me
agora some
dissipa o verso
a poesia viva
finda
agora vá...
jamais verá
jamais verão
nada palpável
abstração
tudo mentira
mentira
tira
quiçá delírios
tudo ilusão
antes de ir
desligue a luz
e mude o tom
nenhum bilhete
nenhuma nota
no violão
vá,
bata a porta
silêncio pleno
adeus,
paixão...
vou esquecer-te
vou esquecer-me
um dry martini
talvez drummond
até dormir sem sono
sem sonho
rente à luz opaca
da televisão...
na noite infame
os gatos miam
ao léu sem dono
na noite infame
te chamo te clamo
ao léu sem dono
na noite infame os gatos miam
só miam,
porque não sabem dizer te amo
(mas sou eterno
e você tão moço
clara diferença
eu sou poema
você...esboço)
Postado por
Clóvis Struchel
,
18:06
6
Deixaram-se levar...
terça-feira, setembro 18
...
Para Paula Berbert,
(quase) sob encomenda.
Cheguei quase lá mas fui ao menos
e disse mais ou menos que te quero
da próxima vez te falo sem receios
sobre o mar o amar o amargo
e o amarelo
Porque ninguém entende a minha forma de dizer te quero
porque ninguém entende a minha forma de dizer
porque ninguém entende a minha forma
porque ninguém entende
porque ninguém
por que?
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Clóvis Struchel
,
22:07
6
Deixaram-se levar...
quinta-feira, agosto 23
para sempre, de repente
ainda bem que você foi embora sem nem ao menos me dizer "vou indo...", livrou-me da cena patética de te ver voltando dizendo que esqueceu as chaves.
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nas variações de lógica, um dia pensei ser sublime quando no fundo era somente vão, no mal-amar dos bons-amores todos os sentidos carregam consigo tantas possibilidades...
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já não me interessa as suas indagações sobre o tempo e a rapidez das coisas, tampouco a sua imagem cult-estudei-fora-sou-o-máximo que você teima em insistir bancar.
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na verdade, sinceramente, eu devia estar bem doido quando disse que teamava, o amor tem dessas coisas, todo mundo sabe, todos uns cegos sem receios que rumam o atlântico sem mapa e sem bússola, sorridentes e confiantes, e foi assim também comigo e eu também me perdi, claro.
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a canção de amy ainda ressoa pela casa, os versos densos ainda me dilaceram, gosto da canção e do que ela me traz de nostalgia e presságio - paradoxal e cálida - o volume precisa ser exato, no tilintar dos acordes que adentram em mim sem rodeios, trazendo você pra mais perto. recordo os seus olhos pequeninos, fechados, ouvindo o que há de mais cristalino em cada ressonância, a sua alma entregue àquele timbre escuro, dando a nuance exata do instante de entrega. aos poucos nossos pés encostam-se, displicentemente, e se acariciam rente às melodias-brisas que nos tomam, olhares perdidos que se encontram, mãos que se entrelaçam num tempo de intensidade, como quem toca o corpo querendo tocar a alma.
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você, em seu todo, é uma extensa metáfora, dessas que nos põem em choque, pensando, refletindo, desvendando sentidos, mas você é oco, não há nada de relevante em suas entrelinhas, há vazio apenas, uma burrice bem-articulada de quem leu Neruda para passar num concurso do Estado, e a terrível nostalgia do garoto que queria ganhar o mundo, e hoje mora num apartamento cinzento de uma rua esquisita em Botafogo.
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eu lembro que eu citei Ana Cristina César, assim que nos conhecemos: "Porque essa falta de concentração? Se você me ama, por que não se concentra?", você sorriu um sorriso frouxo, eu entendi como um sorriso de quem já leu tudo na vida e já não se surpreende com tamanha euforia num verso lido a esmo, para assim ficar urdindo com tranqüilidade a poesia que lhe surgiu de repente, mas não, era um sorriso que me falava "o que você está dizendo agora?", e eu ali, tecendo pensamentos tão bons, tão profundos, enquanto você à minha frente vagava em idéias tão rasas, tão equivocadas, tão nulas.
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para onde vão os amores que se cessam?em que lugar eles descansam?qual o caminho que percorrem, será que se perdem e adentram em outros corpos?porque?porque teimamos em vislumbrar eternidades?só para doer ainda mais quando a realidade crua bater à porta? não seria mais simples - e mais inteligente - viver o eterno que habita em cada instante?
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entenderam que o amor terminaria ali, olharam a ponte abissal que os separavam, compreenderam que não havia mais motivo para atravessá-la, que lhes restavam a dor e as sensações que pairavam no tempo, sentiram o amor se esvaindo, e isso é como passar uma faca bem afiada em suas almas já tão desgastadas, as mãos trêmulas, um vazio amargando a boca, o amor virando areia, o amor caminhando com seus próprios pés, tomando cada vez mais distância, até desaparecer por entre as dunas...
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ele não percebeu quando ela se foi, ela não olhou pra trás quando decidiu ir embora; na verdade, ninguém sabe ao certo quem partiu primeiro.
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Termino esta história com o mesmo silêncio que pairou sob a despedida, e antes ainda, sob todo o tempo em que ficamos juntos.Tempo de silêncios, de palavras vazias, de discursos frígidos.Paira por aqui este infindável silêncio, silêncio esse, que deve ter sido o discurso mais romântico, e verdadeiro, que você me ofereceu.
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mas é que a felicidade cabe em cada espaçozinho ínfimo; creia, ultimamente dei pra dormir abraçado com ela...
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Clóvis Struchel
,
16:04
18
Deixaram-se levar...
sexta-feira, agosto 17
Dos bilhetes de Lila - Parte I
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Clóvis Struchel
,
12:36
10
Deixaram-se levar...
sexta-feira, agosto 10
acordes
Fugindo da normalidade
encontrei a raridade dos sentires
dos prazeres
dos deveres que não devo
das mentiras que não digo (sim, eu minto!)
quando eu falo de tristeza
quando esqueço da beleza
das canções e dos poemas
dos tufões e dos dilemas
(teorias, teoremas...)
Passos meus descompassados
seguros, desenfreados
diários e sem fim...
Qualquer canto é canto, e pronto.
Um acorde meio tonto, dois acordes e são tantos,
acordo no ponto, enfim
no aqui e no além
venho para ser alguém,
mas sem esquecer de mim...
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Poeminha escrito aos 17 anos e encontrado, despretensiosamente, no avesso de um caderno escolar, entre inúmeros rabiscos, gravuras torpes e pequenos corações que continham as letras "C e S" emoldurando o seu interior.
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Clóvis Struchel
,
13:42
12
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quarta-feira, agosto 8
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Clóvis Struchel
,
20:20
4
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quarta-feira, julho 25
impulso
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Clóvis Struchel
,
16:16
20
Deixaram-se levar...
terça-feira, julho 24
sem mapa
onde as brisas serão rosas cálidas
enlaçando-se ao meu desalinho
ventanias submersas no tempo
reluzindo o presságio dos mares
e após o vislumbre das ondas
me dizes que vais me esperar
às 02:15 no antigo cais
direi-te adeus com meus olhos de céu
navegante das águas bravias
no oceano sem mapa em que partes
choverá por todo o gélido inverno
e as águas do céu serão tuas
beberás cada gota de mim
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Clóvis Struchel
,
16:52
7
Deixaram-se levar...
terça-feira, julho 17
Sobre sutilezas e introspecções
- Sabe, Clóvis, li num artigo um pensamento instigante, dizendo que "a condução da política de juros - os maiores do mundo - pelo governo é desastrosa porque dinheiro que deveria ser investido em obras públicas de grande impacto econômico é totalmente drenado ao setor financeiro..."
- Aham...sei...interessante...
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Clóvis Struchel
,
18:09
11
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segunda-feira, julho 16
a busca
instantes
estantes
e tratores
estacionam
em direção
ao sentido
em direção
ao sentido sim tido?
ou ao sentido sentido?
será-sarah-serão-sarau-será que chegarão?
senão este poema
será o quê,
então?
sentido sem tido
é apenas sen
garagens
instantes
estantes
e tratores
estacionam
em direção ao
tido.
ao volante da vida
o poeta brinca de palavras-
encruzilhadas.
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Clóvis Struchel
,
16:20
3
Deixaram-se levar...
terça-feira, julho 3
Trilha Sonora pra Juliana
numa poça d'água que restara
de uma tempestade repentina
ela afunda suas meias-beges
para esfriar a cabeça e se esquenta
rumo à Arábia Saudita
porque quer provar sushis exóticos
ganha as horas contando estrelas-do-mar
e dançando Ronnie Von em frente ao espelho
suspeita até não pertecer à este mundo
mas ela morre de medo de Et's e nunca nunca
nunca andou num disco-voador
dirigindo o seu escort verde-uva ela fita a orla de Ipanema
ela escuta rock and roll, ajeita os cabelos, e pensa em mim...
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Clóvis Struchel
,
18:35
19
Deixaram-se levar...
terça-feira, junho 19
Guerra e Paz
acenda a luz enquanto não há noite
para escurecer os nossos versos
desfaça estas palavras já demasiadas
disfarça, é que vem vindo gente
apaga este cigarro e me beije
no escuro dos teus pensamentos
agora clareou, por ora clareou
se soubessem a paz que habita em seus lábios
levavam você pro Iraque, levavam você pra Israel
mas não vá para longe enquanto ainda há noite
fique aqui comigo, tenha pressa não...
agora clareou, por ora clareou
se soubessem a paz que habita em seus lábios
levavam você pra Rocinha, levavam você pro Borel
mas não vá para longe enquanto ainda há noite
fique aqui comigo, tenha pressa não...
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Clóvis Struchel
,
20:03
15
Deixaram-se levar...
domingo, junho 17
Viva!
Minha poesia não quer crítica
(não quer ser crítica!)
não quer lirismos nulos
não quer aplausos
não quer caderno B
não pretende ser cult
nem hype, nem soft
não quer demências
não quer ser blasê.
Minha poesia não quer rimar
(e rima!)
tem pernas próprias, caminha...
tem vida vivida ao relento, suor
conhaques, sorrisos, leituras, loucuras.
Minha poesia não quer assinar
primeiras páginas
não quer tecer paixonites vãs
não quer visitar Paris
prefere a Lapa, minha poesia.
Minha poesia dispensa cerimônias
não frequenta saraus e seus geniais verseios gélidos
(enquanto os gênios não pensam na punhetinha ante-sono,
articulam bobagens com ar lord inglês).
Minha poesia quer cessar os mandamentos ray society
quer distinguir nuances e manchar aquarelas inteiras.
Minha poesia quer ser menino, moleque, livres pensamentos
feito brisa fresca entrando pela fresta entreaberta
feito mar azul visto ao descer uma estrada
feito amor revivido ao dobrar uma esquina
feito adeus sofrido no cais
(oscilações, cores distintas, tantos sentires...).
Minha poesia quer ser agora, quer ser presente
minha poesia só quer viver...
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Clóvis Struchel
,
17:23
3
Deixaram-se levar...
terça-feira, junho 5
sutilezas
carece de dizer o que deseja
e beija o travesseiro a cada noite
finge a felicidade marejada
em olhos que me ditam desorientação
não diga que me ama assim tão vã
arrume as suas coisas e venha para mim
a casa é sua e eu sou teu
sem dizer sim, sem cerimônias
não diga que me ama, não precisa
dizer não é comprovação
sutilezas me descrevem teus sentidos
em meus ouvidos tantas palavras soam
porque nem tudo é poesia
e porque nem todo verso fala de amor
mas a essência que nos une mostra-se clara
dispensa perguntas, dispensa palavras
sentidos calejados pelo tempo
no não-dizer que mostra-se indecifrável
querer-te me soa o mais natural dos sentidos
e então naturalmente os dias passam...
diz mais o euteamo das minúcias
e eu digo e desdigo em cada gesto
me diz também em cada traço, em cada passo
diálogos moldados de beleza
caminhos se entrelaçam sob estrelas
em nosso encontro reinará a sutileza...
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Clóvis Struchel
,
23:05
6
Deixaram-se levar...
domingo, maio 13
Pra Juliana cantar no carnaval
e não me importa mais agora
eu já não penso tanto assim também já passou da hora
para falar sobre o tempo das flores há de se ter ao menos minúcias de primavera
mas é inverno
mas é inverno
visto o meu capuz londrino e ando pelos caminhos mais inóspitos
que é onde você sempre está com a cabeça na lua
não vai à praia, não toma chuva, não dança nua durante o banho
não lê revistas, não fala gírias, não canta Chico e ainda me chama de estranho
você é música que não se toca
e eu me recuso a cantar para o mundo que esta sua estranheza arrebata-me inteiro
é que ninguém vai me entender mesmo...
é que ninguém vai me entender mesmo...
e não me importa mais agora
eu já não penso tanto assim também já passou da hora
para falar sobre o tempo das flores há de se ter ao menos minúcias de primavera
mas é inverno
mas é inverno
repousaremos nossos pensamentos em cálidas paisagens
enquanto sonhamos acordados embaixo deste cobertor de lã
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Clóvis Struchel
,
15:39
12
Deixaram-se levar...
segunda-feira, maio 7
O mar, o amar e o amargo
Entenderam que o amor terminaria ali, olharam a ponte abissal que os separavam, compreenderam que não havia mais motivo para atravessá-la, que lhes restavam a dor e as sensações que pairavam no tempo, sentiram o amor se esvaindo, e isso é como passar uma faca bem afiada em suas almas já tão desgastadas, as mãos trêmulas, um vazio amargando a boca, o amor virando areia, o amor caminhando com seus próprios pés, tomando cada vez mais distância, até desaparecer por entre as dunas.
Ele não percebeu quando ela se foi, ela não olhou pra trás quando decidiu ir embora; na verdade, ninguém sabe ao certo quem partiu primeiro.
Postado por
Clóvis Struchel
,
21:39
8
Deixaram-se levar...

